Não chore, Vivian Maier

Por Joca Reiners Terron


Vivian Maier, não chore. Vivian Maier era uma babá. Durante quarenta anos ela trabalhou para diversas famílias. Morreu sozinha em 2009, aos 82 anos. Escorregou no gelo e bateu a cabeça. Não chore, Vivian Maier, não chore. Após sua morte, um historiador descobriu que Vivian Maier tinha deixado cerca de cem mil negativos, fotografias que nunca mostrou a ninguém.

Nascida em Nova York, filha de uma francesa e um austríaco, Vivian Maier cresceu na França, voltando aos EUA aos 25 anos de idade. Depois mudou para Chicago, onde passou a maior parte da vida, morando na casa de seus empregadores. Quando envelheceu, Vivian Maier virou sem-teto. Foi salva por três pessoas cuidadas por ela na infância que a consideravam uma segunda mãe. Essa gente grata comprou um apartamento para Vivian Maier, mas não chegou a tempo de salvar suas fotografias, que estavam num armário de armazenamento e foram leiloadas por falta de pagamento.

Em 2007, o historiador John Maloof arrematou um lote de negativos desconhecidos num leilão em Chicago, e descobriu o que ninguém sabia: as fotografias feitas por Vivian Maier em seus momentos de folga. Parte dessas imagens foram feitas em Chicago, e como toda grande fotógrafa de rua (vocês conhecem Helen Levitt?), ela adorava fotografar pessoas, mas também registrava efeitos da transformação causada pela especulação imobiliária. Chicago é notória pela urgência com que encobre o passado com monumentos brilhantes e espelhados. Saul Bellow, que se mudou para lá em 1924, comparando-a com cidades europeias restauradas no Pós-Guerra, escreveu que um habitante ao perambular pelas ruas da cidade “sente-se um homem que perdeu muitos dentes. Sua língua explora as falhas — vejamos: aqui o bonde da rua Cinquenta e Cinco dobrava para tomar a avenida Harper” etc; Bellow conclui, lamentando a destruição do que dá continuidade à vida: “Não é nosso destino aqui encontrar conforto em antigos lugares conhecidos. Nós, de Chicago, não podemos repousar sentimentalmente entre nossas recordações.”

Porém da vida pessoal de Vivian Maier não se sabe muita coisa. Alguém definiu assim a ex-babá: “Ela era socialista, feminista, uma crítica de cinema, uma pessoa bastante franca. Aprendeu inglês indo ao cinema, que adorava. Ela usava jaqueta e sapatos masculinos e chapéu a maior parte do tempo. Estava constantemente tirando fotos, que não mostrava a ninguém.” Entre essas fotos estão muitos autorretratos, que registram o pouco que se sabe de Vivian Maier:

Vivian Maier se olhando de perfil num espelho portátil redondo.

Vivian Maier apoiada sobre o espaldar de uma cadeira na penumbra.

Vivian Maier no espelho do banheiro.

Vivian Maier em pé no espelho de um vagão-restaurante.

Vivian Maier refletida num espelho que é carregado por um operário (meio sorriso esboçado, o único).

Vivian Maier no espelho de outro banheiro, de muitos banheiros.

Vivian Maier, quer dizer, a sombra de Vivian Maier no alto de um prédio e recortada numa parede de tijolos à vista.

Vivian Maier e sua sombra espichada junto de uma bicicleta.

Vivian Maier emoldurada pelo pôster de “O céu pode esperar”; ao lado o pôster de “Tubarão”.

Não existe nenhum autorretrato de Vivian Maier aos prantos, chorando. Dúvida: por que ela não mostrava suas fotos para ninguém? Era uma pessoa reservada e a vida solitária que levou — alocada no quarto dos fundos destinado aos serviçais — permitiu essa autopreservação. Dúvida: se fosse contemporânea da internet, Vivian Maier postaria seus autorretratos em redes sociais? Não se conhece nenhuma foto de Vivian Maier com roupa de baixo. Certeza: a grande presença de pessoas desfavorecidas em sua fotografia, de sem-tetos e velhinhos, o afeto desprendido por esses retratos da pobreza, a memória de cenários de ruína de Chicago que não se confunde com nostalgia, “a cidade que era, a cidade que é”, no dizer de Bellow (“dê a Chicago só meia-chance, e ela fará de você um filósofo”), permitem intuir que a solidão de Vivian Maier é fruto de escolha ética, e tudo o mais, incluindo a devoção posterior demonstrada por seus ex-protegidos, é a prova de seu acerto moral, de sua grandeza de caráter.

Dúvida: Vivian Maier não se importou por ter perdido os negativos produzidos ao longo de tanto tempo? Segundo consta, o pesquisador John Maloof os encontrou por acaso, e isto transformou sua vida. Outros vinte mil negativos foram adquiridos posteriormente por Jeffrey Goldstein. Dúvida: o que Vivian Maier ganha com isso? Dúvida: o que ganha a cidade de Chicago, a arte da fotografia, a humanidade? Dúvida: o que se perderia se o conteúdo do armário de armazenamento fosse simplesmente destruído em vez de leiloado? Creio que a resposta para estas duas últimas questões é respondida pela mera existência dessas imagens, e a importância crescente que vêm ganhando.

William S. Burroughs disse que o poeta é o único tipo de pessoa capaz de passar por uma calçada repleta de gente e não ser percebido. Dúvida: nesta era de compartilhamento, como ser sozinho e intrinsecamente verdadeiro feito Vivian Maier? Como atravessar a calçada em meio a tudo e a todos e não ser visto, depois escorregar no gelo, bater a cabeça e ir além? Como doar a existência para refletir o outro em toda  sua imperfeição construída de tempo, ossos e sangue?

Dúvida: como servir de espelho ao nosso semelhante nos dias atuais, uma era de cópias infinitas replicadas instantaneamente?

Dúvida: como ser um espelho?

Dúvida: como ser um espelho e fugir do labirinto do Palácio dos Espelhos do parque de diversões?

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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15 Comentários

  1. joca terron disse:

    Rogério, melhor não contar com o acaso. Por que não procura obter um financiamento (caso necessite) para revelar e digitalizar todo o acervo? É uma saída.

    Abrazo

  2. Rogério disse:

    Joca,
    Há 22 anos comprei uma Pentax, tirei fotos de gente, coisas e lugares. Devo ter uns 3 mil negativos. Mas estou quase cego devido a um glaucoma. Será que um dia alguém vai descobrir os meus negativos como aconteceu com Vivian?

  3. joca terron disse:

    Oi, Victor, o livro do Bellow é a antologia de ensaios e artigos “Tudo Faz Sentido”, publicado no Brasil pela Rocco em 1995.

    Abrazos

  4. Victor disse:

    Muito bom Joca!
    Gostaria de saber o nome do livro do Saul Bellow citado. Alguém poderia me informar?

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