Nós que o amávamos tanto

Por Luiz Schwarcz

Hoje bem cedo, decidido a aproveitar o estado de relaxamento após correr no parque do Ibirapuera, prometi a mim mesmo que não veria os e-mails da manhã no celular. Promessa não cumprida, logo vi que havia uma mensagem de Ania Corless, minha amiga e agente de Eric Hobsbawm. A mensagem era a seguinte:

“Justo quando preparava o material com a nova reunião de ensaios para enviar-lhe, que se chamará Fractured Times (Tempos Cindidos), eu tive a notícia que Eric morreu esta manhã.
Com carinho, Ania”

Em seguida liguei para Ania, que me disse que Eric morreu no hospital, acometido de uma pneumonia. Tinha noventa e cinco anos, que foram comemorados com uma grande festa em julho passado. Uma carta do presidente Lula deixou Eric muito comovido, assim como a presença dos maiores historiadores da atualidade que estiveram lá para homenageá-lo. Convidados, Lili e eu não pudemos comparecer. Deveríamos ter ido, apesar de todos os compromissos de trabalho que nos prenderam aqui.

Stuart Profit, seu editor inglês, bem que me avisou que Eric lutava contra a leucemia há muito tempo, e que seu fim estava próximo. Uma tristeza. O grande historiador era um amigo de verdade.  Pelo telefone, Ania confirmou o afeto que nos ligava. Eric era aparentemente duro e seco, mas no fundo era um homem doce e fiel. Algumas das histórias que passamos juntos estão no post “Uns e outros na primeira Flip”. Antes disso, quando suas obras passaram para a Companhia das Letras e ele veio ao Brasil pela primeira vez, convivemos intimamente, numa semana cheia de aventuras e folclore.

Entre os eventos que vivenciamos juntos conto aqui apenas um para tentar, mesmo que inutilmente, matar as saudades que nunca mais vão nos deixar. Eric e sua mulher, Marlene, aproveitavam a estadia no Brasil até que ele comeu algo que lhe fez mal. Após sua palestra no Masp lotado, havíamos programado um jantar em casa. Pedimos a nossa amiga e autora Nina Horta que preparasse uma canja para que Eric pudesse melhorar e manter a viagem à Brasília no dia seguinte, quando seria recebido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso no Palácio da Alvorada para um almoço. Nina preparou a melhor canja que já comi… condimentada com lindas ameixas! Mesmo assim, Eric aguentou firme e cedo na manhã seguinte nos encontramos no aeroporto de Congonhas.

Durante a semana, Lili, que escrevia sua tese de livre docência, transformada posteriormente no livro As barbas do imperador, conversou longamente com Eric sobre os rituais da monarquia no Brasil. E, antes que fosse para Brasília, pediu-me que observasse se havia no palácio algum resquício simbólico dos tempos do Império no Brasil. Dei de ombros e disse a ela que, na minha primeira visita à Alvorada, dificilmente teria minha atenção voltada ao seu pedido. Enquanto FHC nos mostrava as dependências do palácio, eu, preocupado com a saúde de Eric, o acompanhava de perto sempre perguntando além da conta como ele se sentia, vigiando o menu antes de ser servido. Na biblioteca, o presidente nos mostrou as únicas duas fotos que exibia em sua estante — de Juscelino Kubitschek e de Dom Pedro II —, provocando em Eric a exclamação: “tenho que reportar isto à Lili, ela vai gostar de saber”.

Após a viagem visitamos Eric em Londres uma vez, e o encontramos no Royal Festival Hall por acaso outras duas. Além de admirador de jazz, casado com uma professora de flauta, a doce Marlene, Eric, como nós, acompanhava o cenário musical ativamente. Com sua morte perdemos um amigo, um ídolo dos brasileiros, que se orgulhava por ser tão querido aqui. Certamente o Brasil é o país onde Hobsbawm tem o maior número de leitores. Aqui também se faz justiça.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

16 Comentários

  1. […] “Nós que o amávamos tanto”, homenagem do Chefão da Companhia das Letras, vulgo Luiz Schwarcz, a Eric Hobsbawm. Muito preocupa esse editor, que nada tem contra ideologias desde que bem defendidas, mas que não entendeu a “homenagem” da revista Veja para o historiador. Outra homenageada é  Helena Kolody. No dia 16/10 às 18.30h no teatro Eva Herz da Livraria Cultura de Curitiba, um evento só pra ela. Com humor, livro recria saga de androide perdido que imitava o escritor Philip K. Dick. […]

  2. Luisa Teles disse:

    Eric Hobsnawm foi parte importante da minha formação. Admiro o historiador, estudioso e ser humano que ele foi. Fica minha gratidão pelas obras e lições que ele nos deixou.

  3. Daniel Abreu disse:

    Li as quatro “Eras” de Hobsbawm (o longo século XIX, e o breve XX), duas vezes, cada um dos quatro livros. E ainda há tanto por assimilar, preciso ler muito mais (esses mesmos livros)…
    Hobsbawm me impressionava pela imensa inteligência aglutinadora e estruturante.
    Perda irreparável.
    Resta-nos aprender com ele, e sem ele, que é uma forma de continuá-lo.

  4. Rony Marques disse:

    Hoje sinto que não perdi só um autor que lia, mas um grande amigo, um tutor e instrutor.

    Percebi que a grande pessoa que me ensinou desde história contemporânea, até a história social do jazz, já não está mais aqui entre nós. E isto me deixe desolado, pois sinto que perdi um grande aliado, uma grande pensador contra o pensamento igual e elitista.

    Vejo agora que, realmente, não perdemos uma grande personalidade de pensamentos únicos e vibrantes, mas um grande amigo.

    Sentirei saudades. Obrigado por ter-me feito uma pessoa melhor, uma pessoa mais crítica e questionadora.

    Adeus, Hobsbawm.

  5. Edielson B. do Carmo disse:

    Fiquei muito triste quando abri a pág. do blog e visualizei o post de Luiz nos informando a respeito da morte de Eric. Como muitos que estão consternados, tive o privilégio de acompanhar as publicações do historiador durante minha graduação (História), para sem dúvida alguma reafirmar a grandiosidade de sua pessoa. Para quem não o conhece, recomendo, edição aqui da Cia das letras, Tempos Interessantes, sua auto-biografia. Um abraço!!!

  6. Paula Broda disse:

    Sempre disse que, caso a profecia Maia se concretizasse, Hobsbawm seria um dos poucos a sobreviver e possivelmente escreveria um livro belíssimo sobre todos esses eventos. Foi com uma dor enorme no coração que hoje descobri que me enganei. Torci com todas as forças para que ele chegasse logo aos 100 anos e mais outra obra prima sobre sua vida e o tempo pudesse ser escrita.

    Eric Hobsbawm foi o primeiro historiador que li em minha formação, logo quando ingressei na faculdade. E foi amor a primeira vista.

    O mundo com certeza ficou mais triste e talvez um pouco menos desinteressante sem suas análises preciosas. Mas gostaria de agradecer, do fundo do coração, por esse grande historiador ter existido e por dedicar sua vida dividindo seu conhecimento conosco. Seus estudos ficarão para sempre, e com certeza formarão diversas gerações de historiadores que ainda estão por vir.

    Obrigada por tudo, Hobsbawm! Que falta enorme o senhor fará para o mundo.
    Paula.

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