Orgulho de editor

Por Luiz Schwarcz


Estande da Companhia das Letras em Frankfurt.

Já contei, em outra ocasião, o que aconteceu na Feira de Frankfurt de 1989 quando o livro Boca do Inferno foi disputado por editoras do mundo todo, gerando um involuntário leilão em vários países. Pois não é que a história praticamente se repete este ano? Marx, em um de seus livros mais bem escritos, O 18  de Brumário de Luís Bonaparte, fala que a história costuma se repetir. A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Se o sucesso de Boca do Inferno em Frankfurt já não foi tragédia, desta vez também não houve farsa. Também em mim pesam 23 anos a mais de experiência, que trouxeram com eles uma ojeriza crescente ao clima histérico das feiras.

Quando li o novo livro de Daniel Galera, intitulado Barba ensopada de sangue, que publicaremos no início de novembro, tive a sensação de estar lendo um romance de enorme importância. Comentei com alguns colegas da editora que o ideal seria repetir a estratégia de lançamento de Estorvo, de Chico Buarque, quando, para vencer o preconceito que havia contra um romance de um dos maiores compositores da MPB, optamos por mandar o livro para um grande número de críticos literários, espalhados por todo o país, e também para editoras no exterior. Assim poderíamos contar com resenhas de pessoas que nunca escrevem de afogadilho, e mostrar, com edições em países onde o Chico não era famoso, que o livro tinha muito valor. Naquela ocasião, deu certo.

Desta vez, com o novo livro do Daniel Galera, eu imaginava, porém, que não conseguiríamos ofertas estrangeiras em prazo tão curto; apesar do autor ter ficado conhecido no exterior — em alguns países e recentemente — por conta de seu livro Mãos de cavalo. Engano, dos bons.

Sem imaginar que isto poderia acontecer, logo que o texto chegou da revisão final mandamos um arquivo para a agente literária Laurence Laluyaux, que representa o Daniel no exterior. Isso ocorreu na quinta-feira da semana anterior à Feira de Frankurt. Um fim de semana foi o suficiente para que a Surkhamp Verlag, editora alemã que possui um dos melhores catálogos de literatura do mundo, encomendasse três pareceres do livro. Na segunda-feira, na mesa do editor Frank Wegner, estavam os três resumos, e com opiniões entusiásticas sobre o livro.

A negociação foi fechada em um dia e a notícia se espalhou pelos corredores da Feira e pelos saguões dos hotéis de Frankfurt. Receberemos ofertas da Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, França e Itália, entre outros.

Mais de duas décadas depois de Boca do Inferno, não deixaremos os preços dos adiantamentos subirem astronomicamente, como ocorreu da outra vez, fruto de um fenômeno típico da Feira, em que o boca a boca entre os editores cria uma euforia exagerada em torno de certas obras. A edição de Barba ensopada de sangue será bem sucedida se todos os envolvidos ganharem com ela. É preciso deixar que a qualidade do livro faça com que a carreira do escritor seja longa e profícua em muitos países. Os adiantamentos exorbitantes advindos da lógica perversa dessas feiras tornam isso impossível.

Pena que poucos editores, autores e agentes pensem assim hoje em dia.

Além do novo livro do Galera, Diário da queda de Michel Laub foi vendido para mais três países — Israel, Estados Unidos e Itália —, e Carola Saavedra acrescentou a prestigiosa Mercure de France ao seu elenco de futuras editoras. Volto da Alemanha feliz como nunca, e ainda mais orgulhoso dos escritores que publico.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

11 Comentários

  1. […] Foi realmente uma ótima experiência. Especialmente por ver uma literatura brasileira tão atual, tão fluida, tão gostosa de ler. Sei que depois de um tempo qualquer leitor começa a desconfiar de muito falatório sobre um livro, “ah, é a indústria querendo empurrar algo”, etc. mas acho que todo o hype em torno de Barba Ensopada de Sangue não é por acaso. É um livro fora do comum, no melhor sentido que a expressão pode ter. Daqueles que fazem com que você tenha um certo orgulho por saber que nossa literatura está sendo tão bem representada lá fora. […]

Deixe seu comentário...





*