Pussy Riot

Por Tony Bellotto

Há pouco tempo um jornal do Rio estampou na capa de um suplemento a pintura A origem do mundo, de Gustave Courbet, que mostra em primeiro plano uma vagina nua. Não me lembro agora do que tratava a matéria, mas a bela pintura de 1866 me pareceu na época uma escolha feliz e adequada. Espantei-me nos dias seguintes com protestos incisivos de leitores (e leitoras), que criticavam a ilustração por razões estéticas e moralistas, muitas vezes resvalando em rasa misoginia e chulo machismo.

O pênis de Davi, de Michelangelo, com certeza não causaria tanta indignação.

Algum tempo antes, acompanhei estupefato a prisão das moças da banda punk russa Pussy Riot em função de protestos políticos numa catedral em Moscou. O presidente Putin, criticado pela banda, fez questão de se manifestar pessoalmente a favor da prisão e condenação das manifestantes, chocadíssimo com o “ódio religioso” das meninas.

Desconfio que se os membros da banda fossem homens (e o nome da banda fosse outro), a reação da polícia e dos políticos não teria sido tão desproporcional.

Coroando os acontecimentos, recebo a notícia do atentado Taliban contra Malala Yousafzai, a menina paquistanesa de 14 anos que recebeu tiros na cabeça e no pescoço em função de suas reivindicações pelo direito das moças a estudar.

Imagino que não haja dúvidas sobre o fato de que rapazes paquistaneses podem aprender a ler e a escrever sem correr o risco de levar um tiro na cabeça por conta disso.

Como John Lennon e Yoko Ono afirmaram numa canção de 1972, woman is the nigger of the world.

Continua sendo.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

8 Comentários

  1. Samara disse:

    E ainda há quem diga que o feminismo não tem mais razão de existir. O mundo é um lugar hostil para as mulheres.

  2. jneto disse:

    Impressionante que hoje em dia ainda temos que discutir sobre direitos da mulher!
    mas quanto as garotas do “Pussy Riot” elas quebraram varias leis, e na sociedade as leis sao necessarias, nao eh porque elas tem a simpatia da maioria da midia e do meio artistisco que elas estao imunes as normas da lei
    Quanto a garota baleada no Paquistao, essa sim merece o premio nobel da paz, e ter a nosso respeito e total apoio e admiracao.

  3. jneto disse:

    Quanto ao “Pussy Riot” alguem aprecia sua musica?

  4. Tony Bellotto disse:

    Washington, boa ideia, nunca escrevi nada sobre o assunto, mas o ateismo me interessa e é em geral muito pouco discutido e abordado.
    Daniel, esse ataque é absurdo, revoltante e anaceitável, concordo com você. Impossível não me manifestar contra isso…
    Josué, bem-vindo movimento ateísta iraniano (isso é viver perigosamente…)!
    Seu Celso, essa afirmação é meio machista, não?

  5. Seu Celso disse:

    Duro é citar a Yoko Ono que ACABOU COM OS BEATLES!!!!

  6. Josué P. J. de Freitas disse:

    Vi um post no facebook interessante sobre o caso da menina de 14 anos, dizia mais ou menos assim: “Hey Talibã, como você tem certeza que deus está do seu lado quando vocês atiram na cabeça de um menina e ela não morre ?”. Acho que era da página do movimento ateísta iraniano.

  7. Daniel Abreu disse:

    De tudo isso o que mais me chocou foi sem dúvida o atentado à menina paquistanesa: barbárie no pior dos sentidos.
    Penso que devemos discutir muito mais seriamente até onde se deve aceitar absurdos, tais como mulheres sem direito a estudar, enquadrando-os como “manifestações culturais”, nas quais não se pode nem se deve intervir. Há casos, sim, em que se deve meter o bedelho, ainda que venhamos de um mundo cheio de mazelas, como o brasileiro (que, alguns diriam, não pode censurar os paquistaneses). Apenas, creio eu, isso não deveria ser institucional, mas sim obra da sociedade civil organizada.
    Quem sabe um dia.
    Abraço.

  8. Washington Alan disse:

    Tony,
    Sei que não é assunto, mas você já escreveu algo sobre “ateísmo & literatura”?

    Abraços,

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