Quem lê quadrinhos (2): o condomínio que leu Retalhos

Por Érico Assis

reading on the roof

Rogério Rezende tem 47 anos, é escritor e avalia livros para bibliotecas na Secretaria de Educação de Campo Grande, bairro de Cariacica (ES). Peça a ele uma lista do que gosta de ler e veja o pergaminho se desenrolar das mãos: Tolkien, Lewis Carroll, C.S. Lewis, Karen Armstrong, Hans-Ulrich Treichel, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Blake, Keats, Jorge Amado, Scliar, Marie Darrieussecq, Ana Cristina César… e Craig Thompson. E Marjane Satrapi. E Jonathan Franzen.

Ele respondeu minha coluna “Quem aí lê quadrinhos?” com este e-mail:

Quando comprei Retalhos, também havia comprado Liberdade, de Franzen. No condomínio a molecada vivia o triângulo da (in)felicidade: escola, Playstation e shopping. Cheguei em casa e meu sobrinho de 13 anos viu o livro na minha mão. Queria saber que livro era aquele. Era legal?

Sem ter lido, falei que sim.

— Deixa eu ler? — pediu.

— Hãã… Tá, toma.

Imaginei que 55 pilas voltariam com orelhas e cheias de folhas amassadas.

O livro foi lido naquele dia pelo Daniel. No dia seguinte foi levado para a escola e foi um incêndio. Tanto que a biblioteca teve que comprar dois exemplares para atender a demanda. Nem vampiro nem lobisomem chegavam perto do interesse da garotada pelo livro. Alguns pais curiosos pelo interesse dos filhos também leram.

Acredito que mais de 50 pessoas leram aquele livro.

Antes havia comprado/emprestado Persépolis, mas não foi a mesma coisa, nem de longe foi o tsunami de Retalhos. Se não tivesse acontecido comigo, alguém contasse, eu acharia que alguém estava querendo vender o livro ou empolgado em demasia por um livro para adolescentes.

A dúvida atual de Rogério é se Habibi terá o mesmo feito. Ele ainda não leu. Nem o condomínio.

Hoje ele me enviou mais um e-mail:

Queria lhe contar uma experiência que aconteceu aqui no trabalho do Setor de Formação Continuada. Li um post seu em que colocava umas tarjas laranjas sobre os balões da história. Lembra? Pois é, eu conversando com a coordenadora disse que seria interessante usarmos isso nas aulas de redação e leituras de língua portuguesa. Ela gostou da ideia e incluiu esse assunto no curso. Comprou e usou o Diário de um banana. Resultado que vários professores começaram a usar quadrinhos nas salas de aula.

Uma das escolas decidiu colocar em cada sala uma “gibiteca” (nome horrível). A escola está situada num baixo de risco e vulnerabilidade social e tinha um Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) baixo. Ocorreu um fato curioso: os alunos levavam os quadrinhos para casa e muitos pais passaram a ler. Alguns foram alfabetizados com essa iniciativa. Na última avaliação, foi a escola da região que teve o melhor Ideb.

Como eu acredito que os quadrinhos são, comprovadamente, o meio ideal para que os alunos aprendam e se instruam, tenho defendido uma biblioteca de quadrinhos para cada escola.

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Tenho recebido os e-mails mais fantásticos sobre experiências com leitura de quadrinhos. Outros ainda virão para a coluna. Quem mais aí lê quadrinhos? Entre em contato: ericoassis@gmail.com

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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