Quem lê quadrinhos (3): HQs para vinho e HQs para cerveja, Chico Bento me recuperou e um incêndio

Por Érico Assis


Gabriela Testa tem 20 anos, estuda Psicologia, vai ser escritora e mora em Granja Viana, na Grande São Paulo, cercada pela pista de kart. Quando eu perguntei “quem aí lê quadrinhos?“, ela explicou como descobriu Persépolis, e daí em diante:

Gosto de histórias. Sempre gostei de ouvir ou ver coisas que têm histórias. Começou cedo, acho que lá pela primeira série, quando sentávamos em roda e a professora ia lendo a história do Barba Azul ou das três bruxas traiçoeiras. Depois descobri que outras coisas sabiam contar histórias além das palavras, que o retrato de um homem olhando meio torto para o outro continha uma história, que uma música do Beethoven podia ser a batalha entre o bem e o mal, a luz e as trevas. Ou então, dependendo da imaginação daquela noite na Sala São Paulo, as peripécias de uma lagosta tentando escapar da panela.

Aprendi a topar de tudo a qualquer momento. Às vezes dá certo, às vezes não. Acostumei a um dia a dia misturado de Herman Melville, Leminski, Billie Holiday, Pink Floyd, Ernesto Sabato, Tolstoi, John Coltrane, Guimarães Rosa, Segall, Mishima, Bukowski, Bashô, visitas constantes à Tomie Ohtake, onde eu aproveitava para filar um rango naquele restaurante muito gostoso, cujo nome sempre me foge…

Um dia caiu na minha mão um DVD de Persépolis — não deve fazer tanto tempo. Sem chegar a assistir o filme, fui atrás dos quadrinhos, e quando terminei de ler estava embasbacada. A sensibilidade, a clareza dos traços da Marjane, a pulsação da história… Descobrir um gênero novo àquela altura do campeonato, o gênero por mim completamente inexplorado das graphic novels (nominho controverso, muito menos simpático que “quadrinhos”), foi como ser criança de novo e descobrir escondido um último presente de aniversário embrulhado. Mergulhei de cabeça em tudo que meu bolso conseguia pagar: Cachalote, Daytripper, Scott Pilgrim, Retalhos, Asterios Polyp, Maus, Avenida Paulista, enfim, fica chato colocar aqui a lista completa. Também comecei a achar os filmes de super heróis muito divertidos, e fui surpreendida ao buscar os quadrinhos correspondentes e descobrir que alguns deles lidavam com temas bastante intensos, tramas infinitas e extremamente malucas.

Me apaixonei mesmo, de chamar para jantar e pedir uma garrafa de vinho, por Avenida Paulista, Asterios Polyp e Scott Pilgrim. Mas não tem nenhum deles que eu não convidaria para uma boa cerveja. Consegui ler depois Crônicas Marcianas, Adeus Tristeza e Sammy, the mouse (primoroso). Acabei de ler Habibi. Achei bonito pra caramba.

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Eduardo Warpechowski é professor de história em Uberlândia. Leu Turma da Mônica, Disney e super-heróis desde que se lembra de saber ler até a adolescência, quando ficou desgostoso com a ruindade dos gibis de herói. “Chiclete com Banana ainda fazia parte das minhas leituras, mas só se alguém me emprestasse”. Só voltou recentemente, graças ao filho e ao Chico Bento.

Fiquei 15 anos sem gibis em casa. Me desfiz de tudo. Doei, emprestei, vendi, esqueci por aí.

Foi só quando meu filho completou dois anos que minha esposa comprou um gibi do Chico Bento. Aquele velho prazer de ver-e-ler começou a voltar. Nem me lembro mais o que veio em seguida, nem como foram estes encontros. Mas teve Joe Sacco, Chris Ware, Spacca, uma onda de encadernados de velhas histórias de que já nem me recordava…

Depois de readquirir inúmeros títulos dois quais já havia me desfeito, e que têm um grande valor afetivo, abandonei de vez os heróis, parei de ignorar os mangás e entrei de cabeça em tudo que há neste mundo de quadrinhos.

Eu me delicio principalmente com os livros teóricos e de pesquisa sobre a história das HQs, os grandes clássicos (Angelo Agostini, Eisner, os Suplementos, a Indústria). E hoje me dedico a montar pequenos cursos sobre o uso de histórias em quadrinhos e ensino de História do Brasil.

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O Paulo Cecconi tem uma história que deixa qualquer colecionador arrepiado: perder toda a coleção. Ele é professor de inglês em Blumenau, Santa Catarina.

Comecei a ler quadrinhos lá pelos meus nove anos. Meu primo, por algum motivo, era leitor exclusivo de DC e me convenceu de que as pessoas poderiam ler somente um selo. Era impensável que alguém comprasse material da DC e da Marvel. Resolvi que seria um Marvelista. Passaram os anos e fui comprando gibis da Marvel e acompanhando a DC pegando emprestado do meu primo.

E então chegou o dia em que a minha casa pegou fogo. Aos 17 anos, minha coleção inteira queimou. O Horror! Tudo eliminado em questão de minutos.

Como uma bênção dos Novos Deuses, no mesmo ano em que a minha casa pegou fogo, surgiu em Blumenau a primeira (e até hoje única) loja de quadrinhos especializada. Não deu outra: recuperei uma parte dos gibis perdidos e, melhor ainda, fui apresentado a Crumb, Manara, Liberatore, Moebius e toda uma gama de artistas e materiais fora do circuito super-heroístico. A nova fase se iniciou.

Hoje, procurar artistas novos é uma das coisas que mais me dá prazer. Claro que nunca abandonei meus ídolos, mas inovar é uma necessidade.

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Continuo recebendo os e-mails mais fantásticos sobre experiências com leitura de quadrinhos. Outros ainda virão para a coluna. Quem mais aí lê quadrinhos? Entre em contato: ericoassis@gmail.com

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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2 Comentários

  1. Juliette disse:

    Muito legal estas histórias…é só cutucar e veja só como as pessoas tem coisas legais para contar :)).

    abraco

  2. Tuca disse:

    Tão muito bons esses depoimentos, Érico. Parabéns pela iniciativa. ^^

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