A juventude de Quixote

Por Vanessa Ferrari

(Dom Quixote e Sancho Pança, de Honoré Daumier)

Quem já se arriscou a escrever um livro sabe que o ofício de escritor está muito longe da imagem de alguém que, envolvido por uma música edificante, crava seu nome na história em um único ato impetuoso. Na vida real, escrever um bom romance é muito difícil; escrever um livro como Dom Quixote, que completou 407 anos com um frescor inacreditável, é uma espécie de milagre literário.

Em 1605, Miguel de Cervantes publicou a primeira parte de seu romance. A respeito do cavaleiro mais romântico da literatura, de seu pangaré mequetrefe, de Sancho Pança e da musa Dulcinéia muita tinta já foi derramada no papel. Críticos, leitores e escritores deram ao livro os mais variados significados. Os seus personagens são tão famosos que até quem não leu o romance tem opinião sincera sobre o assunto.

Eu mesma tenho uma história com esse livro. Encontrei o Quixote duas vezes na vida. A primeira como leitora, quando a Editora 34 publicou sua edição bilíngue, e agora como editora da Penguin, cuja história pode ser resumida na minha relação com o Ernani Ssó e a Silvia Massimini.

A Silvia é uma das nossas preparadoras mais experientes e, para nossa sorte, fã do Quixote, com oito leituras do romance no currículo e várias edições do livro em sua biblioteca. Para quem não sabe, o preparador é peça fundamental na edição de um livro. Além da leitura do editor, é ele quem sugere as mudanças mais significativas no texto do autor ou do tradutor. E especialmente para esse livro ter em mente as outras traduções e as edições em espanhol dá uma vantagem imensa no momento de sugerir mudanças no texto.

Ernani Ssó, por sua vez, foi ousado, quis dar ao leitor uma tradução moderna, amparada na ideia de que o Quixote, à época de sua primeira edição, foi um best-seller imediato, catapultado não pela intelectualidade da época, mas pelo leitor comum, que se apaixonou à primeira vista pelo romance. Em termos práticos, foi uma decisão posta à prova o tempo todo, pois coube ao tradutor fugir ao mesmo tempo dos arcaísmos do português e das invencionices sazonais da língua. Em outras palavras, uma tradução moderna não poderia parecer moderninha. Ele decidiu, por exemplo, que só usaria palavras que fossem anteriores a 1900, segundo o registro oficial dos dicionários. A partir dessa data, ele teria que fazer outras escolhas.

Quando a tradução já passava pelo ajuste fino, começamos a pensar nos textos críticos, que são um regalo aos leitores e em geral apresentam o contexto histórico do livro, uma pequena análise literária e curiosidades sobre o autor e a obra. Para esta edição, selecionamos três textos: uma introdução de John Rutherford, membro do conselho diretor do Queen’s College, em Oxford; um pequeno ensaio de Jorge Luis Borges, que discorre sobre a genialidade do romance; um texto de Ricardo Piglia, que fala com muito humor sobre o desafio de traduzir Quixote para outras línguas.

Essa é uma edição que eu tenho orgulho de ter editado, por acreditar na força do livro e nas escolhas genuínas do tradutor, pela sorte de ter a Silvia no time e, finalmente, porque o leitor verá uma edição muito bonita graças aos desenhos de Samuel Casal.

Quem conseguir ignorar o peso que o nome Miguel de Cervantes representa para a literatura ocidental e decidir ler Dom Quixote ficará surpreso ao encontrar já nas primeiras linhas um autor bem-humorado, irônico, profundo entendedor da alma humana, que é simples (e por isso genial) como os grandes autores costumam ser.

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Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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