Alguma saudade das gavetas

Por Carol Bensimon

"O gabinete antropomórfico", de Salvador Dalí
“O gabinete antropomórfico”, de Salvador Dalí

Nós estamos em uma praça em Montmartre, acabamos de sair de um show, é noite, claro, e ele diz que leu meu manuscrito. Por alguns instantes, a bunda no encosto do banco, os pés na parte de sentar, todas as luzes lá embaixo, eu tenho alguma dificuldade em saber do que R. está falando, e então Ah meu deus, aquele manuscrito. Sinto hoje muita vergonha por seis ou sete pessoas terem tido acesso àquilo algum dia (2003?), de maneira que qualquer menção ao manuscrito me desarma completamente; estou pronta para chorar num cantinho.

Como R. pode ter lido esse negócio? Qual foi a ordem das minhas paixões? R., L., I. e depois certamente J., não, L., I., R. ou, na hipótese mais estranha, L., R., I., mas o certo é que R. vem depois de L. Porque ele leu o manuscrito. Ele acaba de dizer que leu o manuscrito, e você vai entender do que eu estou falando.

Meu manuscrito (história real): C é apaixonada por L. Um dia, L. some. C descobre que L. está em uma clínica psiquiátrica.

(Eu fui reincidente nessa trama, mas, bem, deixa pra lá)

Acho que não digo nada a R. sobre isso. Ele está com vontade de ir no banheiro e eu já sinto um pouco de fome. Logo vamos sair da praça e ficar procurando uma certa pizzaria em uma certa rue Eugène Sue, onde vou comer a mozzarella di bufala mais macia de minha vida e agradecer R. profundamente por isso. Ele paga a conta.

No tempo do manuscrito, eu fazia terapia. O tempo do manuscrito foi alguns meses depois, eu acho, do desaparecimento de L. É engraçado como começo a invejar a memória dos personagens de romance (inclusive os meus!), porque a minha é realmente muito fraca; uma vez que meu tempo é meio cíclico (eu gosto assim), sinto certa dificuldade com as cronologias.

Mas eu sei que eu fiz terapia por quatro anos. A psicanalista era uma quase xará minha, uma letra e um acento nos separavam, primeiro eu sentava na poltrona, depois no divã, uma pessoa bastante perspicaz, com um detalhe peculiar: às vezes ela estava de calça de couro.

(Eu não sei nem onde eu iria caso precisasse [?] de uma calça de couro)

Um dia, ela me deu um CD do Nei Lisboa. Se você não é gaúcho, talvez não saiba quem é o Nei Lisboa, mas, se é, é claro que tem obrigação de saber. Bem, ela me deu esse CD, que eu então ficava ouvindo no carro, e depois eu lembro que muito discutimos em uma sessão sobre o verso “a felicidade é um ovo em pé”, não chegando a nenhuma conclusão exata. Alguns psicanalistas dirão: ela não podia ter feito isso (dado um presente a uma pessoa analisada). Transferência, contratransferência, etc. É, talvez. Naquela época, eu era uma garota muito confusa. Com o CD, fiquei um pouco mais.

A psicanalista me encorajou a largar a publicidade. Nós tínhamos uma piada interna (eu adoro sentir que tenho piadas internas com alguém) que consistia em encaixar nas sessões a história do “desodorante que não resseca as axilas”, isto é, alguma coisa que eu tinha visto na televisão uma vez e que acabou virando uma espécie de ilustração da crença “a publicidade vende coisas das quais não precisamos”. Isso porque eu nunca tinha visto na vida uma axila ressecada, de maneira que aquilo não parecia um argumento válido. Naquela época eu já estava escrevendo literatura e a psicanalista leu alguns contos meus, e também o manuscrito. Para escrever o manuscrito, eu 1) sofria de amor 2) via filmes que se passavam em hospitais psiquiátricos 3) lia sobre psicofármacos 4) falava a respeito de psicanálise nas minhas sessões. Esse metapapo preencheu um bom tempo de minha análise.

Eu diria que a vida transposta com fidelidade adolescente estava mesmo era naquele manuscrito. Depois a gente amadurece e começa a inventar. Ou você acha que eu ia levar dois anos e sei lá quanto tempo mais para contar uma história que efetivamente aconteceu? Em três meses estava pronta. Acho que o manuscrito foi rápido assim. O manuscrito era terapia, não literatura. Mas eu vou te dizer uma coisa: que saudade que eu tenho de escrever exatamente o que se passa, mesmo que a gaveta fosse o destino óbvio de tudo isso.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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