Em tradução (Ulysses/Finnegans Wake)

Por Caetano W. Galindo


(Polaroid de Andrei Tarkovsky)

(308 páginas)

Iracema Waldrigues Galindo nasceu exatamente sessenta anos depois de Milly Bloom. Dia 15 de junho de 1949.
A minha mãe.

Feio e inútil: pescoço ossudo e cabelo emaranhado e uma mancha de tinta, um leito de lesma. E no entanto alguém o havia amado, carregado nos braços e no coração. Não fosse por ela a raça do mundo o teria pisoteado, invertebrada lesma achatada. Ela amara seu fraco sangue aguado drenado do seu próprio. Será que isso então era real? A única coisa verdadeira da vida? Ela não era mais: o trêmulo esqueleto de um graveto queimado no fogo, um odor de jacarandá e cinzas úmidas. Ela o salvara de ser pisoteado e havia ido, mal tendo sido. Uma pobre alma que se foi para o céu.

Ontem em sala de aula. Um aluno me fez uma pergunta sobre o Ulysses. Disse o que sempre digo, que o virtuosismo formal pode ser isca, mas não é alimento. Que o livro se mantém de pé pelo que tem de humano.
E disse que isso eu aprendi com o Luís (Bueno), que aprendeu quando perdeu a mãe, e viu que o Ulysses não saía da cabeça dele. Porque ali estava alguém que tinha entendido.
O que é.
A morte de alguém.

Nunca mais ver ele. Ou seja, morte. O pai morreu. O meu pai está morto. Ele me disse pra ser um bom filho pra mãe. Eu não consegui escutar as outras coisas que ele disse mas eu vi a língua dele e os dentes tentando dizer melhor. Coitado do pai. Aquele era o senhor Dignam, o meu pai.

A tristeza do fim, da doença, da solidão final de todo mundo, aqui.

um corpo frouxo desonrado que um dia foi formoso, um dia doce, e fresco como canela, agora perdendo as folhas, todas, nua, temendo a cova estreita e imperdoada.

A minha mãe, no final, alucinava.
Uma das coisas que ela mais disse antes de ir para a UTI pela última vez foi ‘pai, pai’.
Alguém pode ver um pai-eterno nisso. Eu não. E não sei se ela.
Sei que ela podia tanto estar pensando no pai dela quanto no meu, que não desgrudou dela durante todas as semanas de hospital. Que era quem ela mais queria, sempre, ali.

Eu acho que o trecho mais lindo de toda a literatura é o final do Finnegans Wake. Quando Anna Livia, a mãe, perde a última folha e some/dorme/morre/foge, absorvida (rio que é) pelo oceano que representa esses homens da sua vida.
Ela também pensa num ‘pai’ meio inidentificável.

Sim, menleva contigo, umpai.

E se apaga, como se apagou a Iracema na segunda-feira, 29 de outubro de 2012, às 20h45, de choque séptico decorrente de linfoma folicular avançado, depois de dezessete anos de lida com o câncer, depois de meia dúzia de cirurgias, depois de três ciclos completos de quimioterapia, depois de radioterapia, depois de dois anos de sofrimento progressivamente maior, depois de 20 dias de hospitalização, depois de ter cantado, rezado e conversado com marido, com filhos e neta na cama do hospital.
Depois de ter tido as unhas feitas pela nora.
Antes de poder ver o próximo neto, meu sobrinho que ainda não nasceu (‘Tem que fazer força pra ficar boa, né? Tem que ver o Bernardo’)

Descansa.

A via a traz a fim a mais a lem da

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

24 Comentários

  1. Mylle Silva disse:

    Um texto simples, leve e lindo.

  2. Paulo Cesar de Amorim disse:

    Gostei demais da sua tradução do Ulysses, loquaz, profundo, todo aquele neologismo inerente a língua original. As divagações do Senhor Bloom e do Senhor Dédalus, a busca entre um e outro por algo que não está mais lá ou que talvez nunca esteve, a dor do vazio… o vazio que não está. Perdoe-me, sou leigo, são apenas impressões pessoais. Parabéns pelo trabalho.

  3. valter ferraz disse:

    Quando a última folha cai é a hora do recomeço. Novas sementes que também cumpriram o seu ciclo. E a vida renova-se. Bernardo chegando é a prova disso.
    Forte abraço, Galindo.

  4. J.V. disse:

    Tempos difíceis demais, quebrados, quebrando a gente, aqui e agora pra sempre.

    Sinto muito.

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