Minha vida com Quixote

Por Ernani Ssó

Me lembro direitinho: entrei na livraria e vi uma edição de Dom Quixote, capa dura, de um vermelho fosco, papel escuro, letras microscópicas. Parecia mais uma edição resumida da Bíblia. Mas não me intimidei. Como não sabia uma palavra em espanhol, comprei também um manual e um dicionário de bolso. Uma ou duas semanas depois me achei pronto pra enfrentar Cervantes. Eu tinha dezessete anos, entenda-se.

Minha ilusão não durou o primeiro parágrafo. Sem entender quase nada, pensei que devia ler algumas coisas antes, além dos textos simples do manual. Achei numa banca uma revista argentina de humor. Me pareceu mais indecifrável que Cervantes: lunfardo, jogos de palavras, referências políticas. Estudei mais um pouco e comprei Rayuela, do Cortázar. Foi o desbunde: no fim, entendia espanhol e tinha descoberto o livro que virou minha cabeça. Foram dias e dias de febre, sublinhando longos trechos, anotando nas margens. Hoje me lembro da leitura, mas não me lembro do hotel, um hotel bastante lúgubre, em que eu morava naqueles dias, no centro de Porto Alegre.

Nos anos seguintes, tentei ler o Quixote várias vezes, mas o primeiro parágrafo seguia intransponível. Melhor me dedicar ao Cortázar, ao Borges e demais latinos, que eu lia e relia até quase decorar. Então a Civilização Brasileira publicou Dom Quixote na tradução dos viscondes de Castilho e Azevedo. No Pasquim, Ivan Lessa escreveu: “Se você vai ler só mais um romance, leia esse”. Fui correndo comprar. Mas o português dos viscondes me pareceu mais complicado que o espanhol de Cervantes em muitos momentos. Por exemplo, no fatídico primeiro parágrafo se lia, no original, “duelos y quebrantos”. Na tradução, “outros sobejos ainda somenos”. Era mistério demais pra uma simples fritada de ovos com torresmo, ou miolos. Mesmo assim, aguentei quase até o fim do primeiro livro.

Eu tinha ouvido que o Quixote era um clássico e, além disso, engraçado. Mesmo naqueles dias eu suspeitava dos críticos e suas opiniões taxativas. Mas, nesse caso, eu queria acreditar, me entende? Daí minha relutância em aceitar a chatice que tinha entre as mãos. Botei a culpa (com toda razão, acho) nos viscondes e comecei a fantasia de um dia ler o Quixote, deitado numa rede na varanda, num português que não necessitasse consultar o Rui Barbosa em sessões da brincadeira do copo a cada linha. Mesmo quando li outras traduções em que o português não se deleitava tanto com arcaísmos ou não caía num portunhol triste e obscuro em nome da fidelidade, eu não conseguia relaxar e cotejava longos trechos com o original. É provável que eu achasse tudo mais insípido e arrastado do que era realmente. Pior, quando me metia a ler o original, mesmo compreendendo, em vez de deixar rolar, me entretinha tentando achar soluções para o humor em português. Sim, deformação profissional é fogo, mas nesse tempo eu ainda não tinha traduzido nenhum livro, sem falar que mesmo hoje isso não me acontece com outros autores, fora em um ou outro momento.

Uns trinta anos depois da manhã em que comprei o famoso manual de Idel Becker, com algumas dezenas de livros traduzidos na bagagem, com duas edições comentadas do Quixote, com todos os dicionários online disponíveis e armado mais de paciência que de coragem, resolvi partir pro pau com o velho fidalgo da Mancha. Comecei a me sentir à vontade lá pela página duzentos. À vontade? Digamos que sim, mesmo que às vezes levasse semanas pra solucionar alguma frase, ou pra achar alguma expressão idiomática correspondente.

Era hora então de procurar uma editora. Aconteceu o seguinte: quem tinha interesse não tinha dinheiro, quem tinha dinheiro não tinha interesse. Mas continuei insistindo. Uns dez ou doze anos depois, pronto pro desânimo, pensei na Penguin-Companhia das Letras. Liguei para a Júlia M. Schwarz. Ela me disse que era bem possível que a editora topasse. Como num mau filme, nesse exato momento Matinas Suzuki Jr. entrou na sala e quando a Júlia falou pra ele, ele disse sim, claro. Mandei em seguida os dois primeiros capítulos para que se pudesse avaliar meu trabalho. Mais uma vez o Matinas foi rápido e entusiasmado.

Levei uns dois anos — dois anos em que não fiz mais nada. Sim, levei uma esfrega. No fim, eu já sonhava com o texto: relia longos trechos, entendendo cada palavra, mas sem que elas se ligassem fazendo algum sentido. Tenho a impressão de que, se tivesse de fazer tudo de novo, sairia correndo, aos gritos. Mas é só impressão. Eu faria de novo. Não apenas saí uma pessoa melhor da empreitada. Vou poder ler o Quixote numa rede, neste verão ainda.

[A caixa com os dois volumes de Dom Quixote chega às livrarias dia 7 de dezembro, com o preço sugerido de R$79.]

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Ernani Ssó é tradutor e escritor. Entre os livros que publicou estão O emblema da sombra e O edifício: viagem ao último andar.

31 Comentários

  1. […] então três meses atrás, leio um artigo no Blog da Companhia das Letras sobre uma nova edição do livro com uma nova proposta: uma tradução feita para que a obra seja […]

  2. Marceo disse:

    Façam uma tradução de Os Miseráveis! A edição atual da Cosac Naify é muito ruim!

  3. Leonel disse:

    Muito obrigado Diana

  4. Diana (admin) disse:

    Oi, Leonel. Os próximos títulos da Penguin-Companhia serão “O jardim secreto” (Frances Hodgson Burnett), “Senhora” (José de Alencar), “O Ateneu” (Raul Pompéia) e “Ilíada” (Homero).

  5. Leonel disse:

    Vocês estão de parabéns pelo trabalho, já tenho uma versão do Dom Quixote aqui em casa, mas tenho um carinho especial pela Penguin e portanto dia 7 de dezembro estarei na “bruxa” como se diz aqui em Salvador para conseguir minha edição. Aproveitando a oportunidade gostaria de perguntar a Diana quais são as próximas obras que estão na pauta da editora?

  6. Rosane disse:

    Querido Ernani, Parabens pelo livro. Adorei ter me enterado dessa noticia!

  7. Joseph disse:

    Obrigado pela resposta Diana!
    Mas poxa, lancem David Copperfield, não temos ainda uma tradução decente desse romance, aliás, a última é muita antiga.

  8. Gostei de ler este pequeno texto escrito pelo tradutor da obra. Quixote é tão famoso que talvez nada se possa acrescentar. Por isso esse olhar novo, pessoal, do tradutor, tenha soado tão gostoso. Belíssima capa por sinal! Adoro livros em caixa, mais parecem pequenos tesouros…

  9. Diana (admin) disse:

    Por enquanto não temos outros títulos de Dickens na programação, Joseph.

  10. Joseph disse:

    Gostei da capa. Muito bonita.
    Recentemente vocês lançaram “Grandes esperanças” do Dickens, pretendem futuramente lançar “David Copperfield”?

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