14 fragmentos de Chris Ware

Por Érico Assis

“Building Stories”, foto de Julian Andrews para o The Telegraph

O prêmio anglófono do Desbunde Literário – não só quadrinístico; esse é o mundo pós-graphic novel – do ano foi para Building Stories. Chris Ware, seu diabrete. Doze anos atrás, o Guardian teve a ousadia de lhe dar prêmio de literatura. Em 2012, você é establishment. Livro dos livros do ano na Publisher’s Weekly. Olha ali o New York Review of Books. O New York Times. Olha só o Rick Moody: “ele fez uma coisa que, se possível, é mais literária do que grande parte da  literatura contemporânea” (grifo dele). E o Guardian, óbvio.

Building Stories é uma caixa com catorze coisas de ler: um livrão, um livrinho, quatro revistas, uma espécie de pôster (com história), um jornal, duas coisas do tamanho de jornais grandes, um caderninho comprido que nem tira de jornal, duas tiras de HQ dobráveis (sanfonas) e um tabuleiro. A personagem principal, sem nome, é uma mulher com tendências depressivas e metade da perna esquerda amputada, que acompanhamos da juventude à maturidade (ou vice-versa; ou não-linearmente). Leia os fragmentos na ordem que quiser, numa dessas tardes de fim de ano.

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Encontrei a Carol Bensimon em Porto Alegre. Ela comprou o Building Stories em Paris. Não conversamos sobre como carregou. Não é pesado, mas é como uma caixa de jogo de tabuleiro (42,6 x 29,8 cm) e não dá para afofar na mala.

“Ainda não acabei”, disse a Carol. “Ou já acabei, não sei.”

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O que você gostaria de dizer às mentes jovens e sugestionáveis que leem a Rookie?

CHRIS WARE: Bom, que a vida é mais séria e mais curta do que parece que vai ser. E que é muito fácil desperdiçá-la. E que a felicidade é superestimada. Seja gentil.”

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Em certo sentido, Building Stories é uma trapaça. Boa parte das histórias, se não todas, já haviam saído em revistas e antologias. O fragmento grandão é daquele tamanho porque saiu numa edição da Kramer’s Ergot cujo diferencial eram as dimensões avantajadíssimas. As páginas que saíram na New York Times Magazine continuam conformadas à diagramação da revista.

Ware gosta de experimentar formatos e teve que refazer ou desconsiderar parte do que virou Jimmy Corrigan, lá em 2000, porque havia publicado diferentes capítulos da história em tamanhos variados na sua Acme Novelty Library. Quando fez uma coleção do melhor da Acme, o Acme Novelty Library Final Report to Shareholders and Saturday Afternoon Rainy Day Fun Book, montou um livro gigante e preencheu os espaços que sobraram (por causa da variação de tamanhos) com uma nova história que serpenteava pelas páginas, engenhosamente sem interferir no material pregresso.

Ou seja, jogar um monte de republicações numa caixa parece menos jogo literário pós-moderno e mais saída fácil.

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Há mais três fragmentos avulsos da história na própria caixa que contém os catorze fragmentos.

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“Como é que traduziriam esse troço?”, me perguntou o Caetano Galindo, sem considerar a crise existencial que provoca ao dizer que nem ele sabe. Mas, enfim: como? Um exemplar para quem traduzir e mantiver pelo menos o jogo histórias do edifício / andares do edifício / construindo histórias e a referência das iniciais ao escritor B.S. Johnson (cujo The Unfortunates, de 1969, consistia em 27 capítulos sem encadernação, sendo os 25 do meio lidos na ordem que você quiser).

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Ware recentemente apareceu na TV aberta dos EUA para uma curta entrevista (também novidade). Completa 45 anos daqui a alguns dias e está cada vez mais parecido com o fazendeiro do Gótico Americano.

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A sensibilidade de Ware para captar e expressar movimento. No primeiro quadro, uma mão parada segurando um lápis, ereto, a ponta para baixo. No segundo, a mão pende o lápis 45 graus para a direita; nada mais muda. É a menina, filha da personagem principal, fazendo tema de casa. Aquele lápis, descansado e pendido – movimento que talvez tenha se repetido várias vezes num transcorrer natural -, sintetiza a cena.

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Muito se fala dos desenhos e da narrativa, mas pouco dos diálogos. São igualmente econômicos, sintéticos, várias vezes só fragmentos cuja função é mais caracterizar um personagem ou estabelecer clima da cena do que servir à “trama”. Aliás, às vezes parecem intromissões. Ou só estão ali para preencher espaço (há blocos de texto que, suspeitamente, têm o tamanho exato do espaço entre os quadros). Você lê a história somente nas imagens.

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Meu fragmento preferido é justamente o que não tem texto. São 52 páginas, a maioria tiras, sobre a relação entre mãe e filha. O final, com as cenas na cama que se repetem, confundem e contrastam ao longo da vida da personagem, é aquelas coisas que eu insisto que só se pode fazer nos quadrinhos.

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“Sabe aquela sensação de ficar sozinha no carro? Fecha a porta, o tempo para, só se ouve um zumbido baixinho; só os clics do motor resfriando. Você vê as pessoas andando pelo estacionamento, mas não ouve o que dizem, não sabe quem são e não quer ser vista porque, sei lá, é meio estranho ficar sozinha dentro do carro? Esta bela, árida síntese do embaraço, da tranquilidade e da pura solidão é o que eu sinto ao ler Chris Ware.” (Abertura desta resenha aqui.)

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Ler o reencontro com o ex-namorado que a convenceu a abortar antes de ler a história do aborto é menos ou mais dramático do que ler a história do aborto e depois o reencontro com o ex-namorado que a convenceu a abortar?

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Ware na introdução de um livro sobre capas da Penguin: “Um livro é um corpo no qual vive e respira uma história e, assim como um corpo, tem uma coluna vertebral, é maior por dentro do que por fora e não vai ter muitos encontros se não souber bater papo.”.

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Alguém comprou e NÃO mostrou no Instagram?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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21 Comentários

  1. admin disse:

    Olá, Rodolpho!

    No momento não temos previsão de lançamento de Building Stories.

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