As fotos inevitáveis

Por Carol Bensimon


É difícil você comprar uma edição brasileira de um livro qualquer e não encontrar lá atrás a foto do escritor. Não sei o quanto eu quero me envolver com essa foto, esse rosto, mas o fato é que, se ele não estiver lá, eu vou acabar desconfiando de alguma coisa. O escritor é excessivamente feio (como se beleza fosse pré-requisito pra romancista de ponta)? O escritor é um recluso cujo último registro fotográfico data de 1973? Ou ainda: a cara do escritor não está de acordo com a obra do escritor e por isso ele e a sua editora, de comum acordo, decidiram evitar interferências?

Ah, você não acredita nesse tipo de interferência. Pois eu sim. Veja bem, eu já tive preconceitos confirmados por retratos na orelha do livro. “Você só podia escrever mal mesmo, com esse corte de cabelo.” E joguei o livro de contos na pilha dos rejeitados. Quando você está na livraria e dá aquela esquadrinhada básica por todos os lados do produto livro, aquela fotinho inevitavelmente está depondo contra ou a favor;  dependendo do jeito como eles sorriem (e se eles sorriem), você sabe se aquela obra é ou não é para uma pessoa como você. Exemplos: “Com esse suéter, ela só pode estar pensando em vampiros”. “Puxa, esse aqui parece o mais deprimido de todos, acho que é o meu número”. “Ele não se importa com a opinião dos outros e usa gola rolê. Gênio.”

E quanto ao meio da leitura? Se as coisas tenderem excessivamente para a autoficção, confesso que leio duas páginas e dou uma espiada na foto, leio duas páginas e dou outra espiada na foto. É o pior dos reflexos. No mês passado, fiquei um pouco vidrada naquela foto do Javier Mariás na orelha de Os enamoramentos. O preto e branco, o cigarro, algo de enfant terrible. O que eles querem dizer quando tiram fotos com o cigarro? Às vezes um cigarro é só um cigarro, e às vezes o cigarro é a afirmação de que você descende de Albert Camus, da Nouvelle Vague, das propagandas do Hollywood, das caminhadas solitárias, dos concertos de rock em lugares que já fecharam as portas.

Quando lancei meu primeiro livro, fizemos uma foto promocional onde você pode me ver com uma camiseta dos Gremlins segurando um algodão doce. O que eu quis dizer com isso? Na época, havia um papo de querer desconstruir a seriedade presente na maioria dos retratos de escritores; os jornais e revistas adoram nos mostrar manipulando livros ou diante de nossas estantes, como se estivéssemos dizendo “ei, eu tenho livros em casa, tente você também!” Com o algodão doce, de qualquer maneira, eu posso ter passado um tantinho da conta.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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11 Comentários

  1. Tuca disse:

    O pior é que o “escritor numa cinta” me fez pensar em outra coisa.
    A – “Mas aquele autor não era, como posso dizer, rechonchudo? Fofinho?”
    B – “Ah, é que é costume aqui na França colocar os escritores numa cinta antes de tirar a fotinho…”
    A – “Aaaaah. Entendi.”

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