Centenas de tons de voz – Parte II

Por Luiz Schwarcz


Certa tarde, em 1998, recebi um telefonema do Jô Soares dizendo que um amigo dele, um médico importante, trabalhava como voluntário no Carandiru e havia escrito um livro sobre a vida dos prisioneiros. Drauzio Varella ainda não era um nome muito conhecido, mas tinha enorme reputação como oncologista e se não me engano participava de programas de TV fechada e de rádio. “Claro, Jô, eu ouvi falar do doutor Drauzio. Vou marcar um encontro já.”

Drauzio veio à editora com certa timidez. Encontrou comigo e Maria Emília. Logo em seguida lemos a primeira versão de Estação Carandiru, que naquela ocasião ainda não possuía título. O livro, na sua primeira versão, tentava contar a vida no Carandiru sob a ótica dos próprios presos. Usava a linguagem coloquial dos que viviam confinados no maior presídio da América Latina. Era muito forte mas soava artificial. Foi esse o meu parecer e o da Maria Emília. Chamamos Drauzio para uma conversa, demos a nossa opinião, e junto com o autor chegamos à ideia que ajudaria a dar ao livro seu formato final: um relato da prisão na voz de um médico ― recuperando a imagem do médico humanista no Brasil. Foi isso que eu disse a ele, muito sensibilizado pelo que Drauzio havia escrito. É claro que com sua incrível modéstia ele não imaginava o impacto que o livro poderia ter nos leitores e em sua vida pessoal.

Numa segunda leitura, quando o livro veio já muito modificado pelo autor, havia ainda a necessidade de uma organização mais clara ― o formato caleidoscópico das histórias ainda pedia uma estrutura. No meio do debate sobre a nova versão, surgiu a ideia de organizá-lo a partir do exemplo do famoso livro de Euclides da Cunha, Os sertões. A primeira parte versaria sobre “A terra”; no caso, a estrutura da prisão. A segunda corresponderia a “O Homem”; ou seja, traria histórias de vida dos personagens do livro. Já a terceira seria sobre “A luta”, o massacre do Carandiru.

A leitura da terceira versão do livro me deixou ainda mais entusiasmado. Drauzio tinha conseguido uma proeza, que agora todos conhecemos, de carregar o leitor para o universo do presídio, como se estivéssemos de mãos dadas com esse ser humano excepcional, um médico como poucos no mundo.

O curioso de tudo isso é que, durante todo esse processo de discussão acerca do texto — um dos casos de que mais me orgulho na minha vida de editor ―, nunca consegui demonstrar para o Drauzio o quanto eu estava entusiasmado pelo livro. Fui a Frankfurt logo após a leitura da versão final e falei aos mais importantes editores do mundo sobre o livro e também sobre esse autor espetacular, em todos os sentidos,  que havíamos descoberto.

Enquanto isso, no Brasil, Drauzio ainda inseguro se eu havia gostado do livro ou não, foi abordado por um editor carioca, que o impressionou pelo entusiasmo.

Quando voltei, Maria Emília me disse que o Drauzio cogitava publicar o livro em outra editora, pois ele tinha a nítida sensação de que eu não gostava de Estação Carandiru. Fiquei branco, quase tive que marcar consulta com o próprio Drauzio, ou com outro médico, para curar-me do susto que a notícia me trouxe.

Liguei para o Jô e, quase chorando, disse que não acreditava no que estava acontecendo, e que eu há muito não vibrava tanto com um livro aqui na editora. Jô intercedeu, mas criou um personagem que vez por outra ainda traz à tona, em encontros comigo: o do editor deprimido, que fala baixo, sempre judaicamente cauteloso e pouco prolífico nos elogios.

Não tenho como reproduzir aqui a imitação hilária que Jô faz do meu tom de voz; apenas peço que usem a imaginação para entender como pode existir um editor com essas características, tão suis generis.

Na minha profissão o otimismo é fundamental, e dele talvez eu esteja bem munido. Mas o tom de voz firme, sedutor na conquista de novos autores, talvez não seja, mesmo, meu forte. A moçada que hoje começa a comandar a Companhia compensa esse meu ponto fraco. Aprenderam com meus defeitos a entender o quão paradoxal pode ser a figura de um editor cheio de alegria e entusiasmo pelo que faz, mas que muitas vezes fala com um tom de voz judaicamente deprimido.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.