Mais sobre tesouros perdidos

Por Vanessa Barbara

Detalhe do mural no sebo Unnameable Books, em Nova York

Em Conversa fiada (1989), curta de Jean-Pierre Jeunet, o narrador afirma que adora abrir um livro meses depois das férias e encontrar areia entre as páginas. Ele faz uma demonstração da abertura de um desses volumes, com o ruído de areia grudada no miolo.

Grãos de areia, manchas de molho de tomate, páginas que tomaram chuva e marcadores pitorescos são apenas alguns tesouros de férias passadas que podemos encontrar nos livros, reconhecendo imediatamente onde os lemos, quando e em que momento da vida.

Livros são involuntárias cápsulas do tempo que conservam mensagens ao longo da história, endereçadas a quem primeiro decidir abri-los. A interessante revista Found, de Chicago, contém uma seção só para escritos achados em livros.

Semana passada saiu no jornal O Globo uma bela matéria sobre dedicatórias e coisas encontradas no interior de livros usados. No sebo Baratos da Ribeiro, no Rio, o dono guarda numa caixa os objetos descobertos nas páginas: “Cheques, receitas médicas, ingressos de cinema, flores, contas, fotos. Daria uma exposição”, diz. Ele defende que o livro usado traz uma história por vezes mais interessante do que aquela que ele conta.

Segundo um artigo no site AbeBooks.com, há um sebo no Brooklyn, em Nova York, o Unnameable Books, que mantém um painel com esses tesouros perdidos. A variedade é tamanha que a exposição já tomou a parede inteira do fundo da livraria e se espalhou pelas demais.

Espécie de Estante Virtual americana, o AbeBooks fez uma enquete entre seus livreiros perguntando quais foram os objetos mais curiosos encontrados no interior dos produtos. As respostas vão além de cédulas estrangeiras, recortes de jornal e listas de supermercado, e seguem na relação abaixo, junto com informações que encontramos em outras fontes:

– Dentro de um livro de receitas para micro-ondas, uma mulher encontrou quarenta cédulas de mil dólares. Ela comprou o livro por acaso, enquanto esperava uma carona. As notas de mil foram impressas pela última vez em 1934 e são, portanto, mais valiosas do que sua quantia nominal;

– Um cotonete usado;

– Um dente de leite;

– Quarenta trevos de quatro folhas;

– No interior de uma brochura de mistério de 1945, um guardanapo de hotel na Espanha com um nome e um número de quarto;

– Um antigo cartão telefônico da Indonésia;

– Num sebo de Ohio, um homem levou para vender uma caixa de livros que pertenciam a sua recém-falecida esposa, repletos de fotografias da família, cartas e cartões-postais. Num deles havia um pequeno anel de diamantes;

– Dois cartões de visita colados um ao outro. Quando abertos, revelaram uma panorâmica dobrável de 90 centímetros com o melhor da pornografia dos anos 70;

– Uma gota de chocolate enfiada entre a tela de encadernação e a lombada. “Fiquei imaginando como alguém conseguiu enfiar uma gota de chocolate na lombada de um livro e quanto tempo esteve por lá. A data de edição era de 1889”, afirmou o livreiro;

– Um livro de ração da Segunda Guerra Mundial (com selos sobrando);

– Uma documentação de dispensa do Exército durante a Segunda Guerra;

– Uma tesoura;

– Uma faca;

– Um revólver;

– Um cartão de visita de um investigador paranormal;

– Um postal do Havaí de 1963, preenchido mas nunca enviado, no qual um sujeito escrevia para sua esposa em Los Angeles. O leitor que o encontrou botou um selo e enviou o cartão quarenta anos depois;

– Uma carta ao Papai Noel datada de 1929, dentro de uma biografia de Napoleão Bonaparte;

– Uma carta para a Fada do Dente, implorando que ela aceitasse a oferenda de meio dente;

– Gordas porções de caspa;

– Um bilhete maldoso contando o final do livro;

– Uma certidão de casamento de 1879;

– Uma camisinha fechada;

– Uma barata morta;

– Uma tira de bacon.

* * *

“Sério? Você estava fritando bacon enquanto lia e pensou: ‘Ei, talvez o próximo a ler este livro esteja com fome, então vou deixar uma tira de bacon cru para ele’?”, escreveu uma bibliotecária americana que realmente costuma encontrar comida nos livros devolvidos à instituição. Bacon, alface e picles são os campeões de frequência. Num curto artigo, ela dá uma explicação para isso:

“Alguns estão familiarizados com o conceito de usar marcadores de página para determinar em que trecho pararam, mas existe um grupo distinto de pessoas que utiliza o que estiver mais perto para marcar a página, não importa o que seja.”

Nessa lista desastrada estão cheques em branco, cartões de crédito, passaportes válidos, carteiras de motorista e passagens de trem ainda não utilizadas.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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10 Comentários

  1. […] semana passada uma emocionante matéria no jornal O Globo e hoje um post da jornalista e escritora Vanessa Barbara no Blog da Companhia das Letras, ambos sobre histórias […]

  2. […] A Vanessa Barbara fala sobre tesouros encontrados dentro de livros usados. Curioso e interessante! (fonte: Blog da Companhia das […]

  3. Adorei a reflexão divertida, como sempre. O revólver foi curioso!

  4. Nina disse:

    Um verdadeiro tesouro, sem dúvida. Essa ideia é tão boa, poderíamos enviar e-mails para vocês, contando sobre aquilo que encontramos nos livros, não acha? Poderia ser uma listagem mensal sobre o assunto. Só uma ideia…
    Abraços.

  5. Roberto disse:

    Esse texto é libertador. Ontem marquei o livro com 30% de uma banana. Tudo correu bem (para mim, para o livro e para a fração da fruta). Não teria essa ousadia antes.

  6. Suponho que os quarenta trevos de quatro folhas tenham sido encontrados, momentos antes, pela mulher que achou as quarenta cédulas de mil dólares.
    Pera, um revólver!? Foi dentro de um romance russo, não foi?
    Sobre dedicatórias, tem esse tumblr legal: http://eutededico.tumblr.com/

  7. Daniel Abreu disse:

    O que eu gostaria mesmo de encontrar num livro, sem dizer o óbvio, é uma caneta mágica o suficiente para me permitir registrar o que sinto com fidelidade…

  8. […] semana passada uma emocionante matéria no jornal O Globo e hoje um post da jornalista e escritora Vanessa Barbara no Blog da Companhia das Letras, ambos sobre histórias […]

  9. Denis Costa disse:

    Como a pessoa achou 40 trevos de 4 folhas e deixou no livro? Essa é boa :)

  10. […] AbeBooks, caspa, coisas dentro de livros, Mariana Filgueiras, O Globo, Unnameable Books 0 ImprimirBlog da Companhia das Letras 4 de dezembro de […]

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