Rasgando dinheiro

Por Tony Bellotto

Estou sem ideia para escrever sobre literatura.

Nem sobre música, embora a morte de Ravi Shankar mereça algum comentário que não consigo formular.

Acabo de pegar um dinheiro no caixa eletrônico e me dá no saco ler “Deus seja louvado” nas notas.

Como assim?

O que Deus tem a ver com dinheiro?

Tudo, a se levar em conta o apetite financeiro de igrejas, seitas e religiões em geral.

O que mais me espanta ― e um articulista da Folha de São Paulo observou a mesma coisa outro dia ― é que os próprios crentes, ou religiosos, não se revoltem com o uso do santo nome nas cédulas sujas e profanas.

A Justiça Federal de São Paulo acaba de negar um pedido do Ministério Público Federal para obrigar a União e o Banco Central a retirar os dizeres das notas de Real.

A decisão foi de uma juíza que alegou não haver na sociedade dados concretos “que denotassem um incômodo com a expressão Deus no papel-moeda”.

Pois agora há, juíza: eu estou incomodado com essa expressão no papel-moeda.

A expressão acompanha nosso dinheiro desde a década de 1980, ideia do então presidente, José Sarney.

Diante do pedido do Ministério Público para a remoção da frase, Sarney declarou: “Eu tenho pena do homem que na face da terra não acredita em Deus”.

Pode ter pena de mim, Sarney, mas não quero essa frase na minha moeda.

Também não gostaria de ler beba Coca-Cola nas notas de dinheiro.

O dinheiro é sagrado.

Rasgo uma nota de dois reais em protesto, mas ninguém dá a mínima.

Na próxima, rasgo uma de cem.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

37 Comentários

  1. rogerio disse:

    Toni,
    Gostaria de me desculpar pelo comentário que fiz. Também peço a Diana que o delete.
    Obrigado,
    Rogério.

  2. Aleph Ozuas disse:

    Concordo com você Bellotto! Isso também me incomoda muito, então resolvi tomar uma atitude simples: pego um marcador permanente de ponta fina e tiro a propaganda do meu dinheiro: http://instagr.am/p/TdlJqeutei/

  3. Joana Masen disse:

    Concordo com você. Também não me sinto à vontade por ser obrigada a carregar no meu dinheiro uma frase que afirma algo em que não acredito, e também me sentiria incomodada se fosse sobre a coca-cola ou o submarino, por exemplo. Dinheiro é dinheiro, e não outdoor. Não é um espaço onde se possa expressar vontades nem opiniões, e deve ser tratado como aquilo que realmente é: vil-metal, apenas instrumento para conseguirmos coisas que necessitamos (ou cobiçamos, rs).
    Legal o blog te dar a liberdade de escrever sobre assuntos diversos, e não apenas literatura. Há aqueles dias em que não sabemos bem o que dizer, e ser obrigado a escrever sem inspiração é terrível.
    Ótimo texto.
    Abraço

  4. Eduardo Castor disse:

    Muito bom o tema e o texto!
    Algum tempo atrás eu descobri essa (bendita?) frase nas notas. Minha primeira reação foi de surpresa, mas só por alguns segundos. Aqueles segundos necessários para botar o pé no chão e perceber que a coerência e bom senso não fazem parte da nossa sociedade. Pensando historicamente religião, riqueza e poder sempre estiveram intimamente relacionados. O fato de ter sido Sarney o (ir)responsável pela frase também explica muita coisa. Mesmo assim confesso ter dificuldade de compreender essa frase em cédulas. É burrice ou arrogância?

  5. Luiz André disse:

    Rapaz, se não me engano esse é um dos posts do Bellotto que mais teve comentários…

    Basta falar em religião, a favor ou contra, e o pessoal, como diria o Nelson Rodrigues, fica mais eriçado que as cerdas bravas de um javali…

  6. Felipe disse:

    Tony, eu entendo o seu ponto de vista quando fala que às vezes um crimezinho faz bem ao espírito, mas não sei se concordo. Acho sua reivindicação válida, mas não acho que ela justifique cometer um crime. Mas é claro, ninguém vai incomodar o governo seguindo as leis hehe

  7. Rody Cáceres disse:

    Então, Tony, se existe não sei, mas há muitos estudos sobre isso, e alguns são realmente sérios kkkkkk!

    Sei apenas que alguma coisa aconteceu na Palestina, naquela época, e mudou o mundo! Ou não? Sei lá brow!

    Abraços!

  8. Tony Bellotto disse:

    Ricardo, Sarney escreve romances, mas duvido que rasgue dinheiro…
    Daniel, é isso aí, sacou tudo…
    Caroline, não seja tão sincera…
    Artur, tente ser mais claro, a bronca é comigo?…
    Felipe, um crimezinho de vez em quando faz bem ao espírito…
    Debora, obrigado…
    Stephanie, permita-me uma observação: o Estado laico não impõe nenhuma religião (nem a da maioria), para que todas as religiões e crenças (assim como descrenças) sejam respeitadas…
    Fustavo (o nome é esse mesmo? Funny), ganhei o “título” de escritor por ter escrito e publicado seis romances, e não por protestar contra as artimanhas do Sarney…
    Álvaro, obrigado, você entendeu…
    Rody, “Jesus histórico”? Será que existe isso?…
    Guillermo, obrigado. Falei sobre a aposentadoria do Roth no post anterior…
    João, ok, te espero lá fora pra gente resolver a diferença…
    Refrator do Cacete e afins, vão aprender a escrever…

  9. Adriane Monteiro disse:

    Sou católica, mas não me incomodei nem um pouco com o texto, pelo contrário, achei engraçado e espirituoso. Eu não faço questão de ler Deus seja louvado nas notas. Não tenho pena do homem que não crê em Deus, mas sim do homem que tem pena do descrente.

  10. Alda Inacio disse:

    Muito hilário discutir o indicutível. Deus se faz presente para quem o ama, e é absolutamente nulo para os incrédulos. Onde está o teu ato? Na nulidade, portanto…

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