A surpresa

Por Luiz Schwarcz


Quando cheguei no apartamento de Raduan, encontrei-o com a barba por fazer, certamente há muitos dias. Fora isso, não senti traço algum de envelhecimento no amigo que tanto me influenciou. Nossa conversa inicial girou toda em torno dos problemas de saúde que ele enfrentou, das inúmeras intervenções e tratamentos pesados que abalaram mais a moral do que a aparência do escritor. Ele se disse cansado, isolado, sem capacidade para ler ou se concentrar. Assim, logo depois das minhas reiteradas desculpas, seguimos falando sobre nosso primeiro encontro, há tantos anos, enquanto eu ainda trabalhava na Brasiliense, e sobre o que significaram, para cada um de nós, as edições feitas em conjunto desde então. Da minha parte, reforcei o quanto tinha sido importante para mim ter me tornado editor de Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho.

— Não editei livros melhores que os seus nestas três décadas dedicadas à literatura. Editá-los foi uma das coisas mais significativas que fiz em minha vida, Raduan. Apesar de não ter sido o primeiro editor das suas obras, você não imagina o sentido que elas têm para mim.

— Nunca vou esquecer que você apostou em mim quando eu estava esquecido — ele me disse —, mas hoje nem penso mais em literatura. Sou grato a você mas me sinto alheio ao mundo literário.

— Raduan, você não pode menosprezar a importância que seus livros têm para as pessoas que os leem. Veja o número de edições que já fizemos de cada um deles.

Lembrei-me nesta hora do prazer que senti, na época das primeiras edições de cada um de seus livros, quando discutíamos os detalhes gráficos minuciosamente. Lembrei também de como a atenção obsessiva que ele dedicava a cada detalhe acabou por me marcar como profissional do livro. Fui com Ettore Bottini à casa do autor algumas vezes, e o próprio Raduan veio à editora para conversar conosco, envolvendo nessas reuniões o José Luiz e mais tarde a Elisa Braga. Em conjunto, discutíamos cada pequeno aspecto das edições. Só hoje, escrevendo esta crônica, percebo que sem o que aprendi com Raduan eu seria um editor muito diferente. Ele se importava com o papel, com a tipografia e com o espaçamento da entrelinha. Escolhia tudo e depois, ao chegar em casa, por vezes voltava atrás. Pedia sempre desculpas pela “encheção de saco”, e eu tentava explicar que aquilo era o que de melhor podia acontecer a um editor — entender que as entrelinhas contavam tanto como a melhor palavra, ou expressão. Consultávamos ele a cada nova edição, e não foram poucas as ocasiões em que fizemos mudanças para satisfazê-lo, sempre em prol de uma edição mais aprimorada.

Raduan serviu café com bolo, como sempre delicioso; contou que a simpática colaboradora que o atende há décadas vem menos do que costumava, hoje só dois dias por semana: para que possa ficar mais só. Perguntei-lhe sobre a Balada Literária que o homenagearia, que começava no dia seguinte, e ele me garantiu:

— Não vou, Luiz, de jeito nenhum. Eu avisei, quiseram me homenagear mesmo assim.

Surpreendi-me no dia seguinte ao ver sua foto na internet, com o mesmo aspecto de quando o encontrara, em plena Balada, com um sorriso de canto a canto do rosto. Liguei para ele emocionado. (Pretensiosamente, guardava uma dúvida: quem sabe a nossa conversa do dia anterior teria influenciado de alguma forma sua mudança de decisão).

— Maravilha, Raduan, você foi.

Mas a resposta apagou de vez minha pretensão.

— Você não imagina. O Luiz (Fernando Carvalho, cineasta que filmou Lavoura arcaica) passou aqui e me arrastou para a Balada. Disse que não arredaria pé da minha casa sem que eu fosse, e acabei indo. Não houve jeito. E foi bom, sabe, imagine que houve uma moça que me disse que meus livros foram muito importantes para a vida dela. Me pediram autógrafos, Luiz, me limitei a uma assinatura magra em cada exemplar.

— Não te disse que os teus livros são fundamentais para muita gente?

— É, você disse, sim. E na hora não acreditei. Mas essa moça falou de uma forma que eu até me emocionei. (Ao perguntar o nome dela para o autógrafo, Raduan se deu conta de que se tratava da atriz Maria Fernanda Cândido).

Na conversa do dia anterior ainda havíamos lembrado dos eventos que fizemos juntos com Chico Buarque, cada escritor lendo trechos do livro do outro. Raduan acolheu com entusiasmo os livros de Chico, ao contrário de parte de seus colegas escritores, que, sem terem lido as obras, reagiram com preconceito e ciúmes. Foram três eventos com Raduan e Chico lendo juntos, o maior deles em Belo Horizonte, no programa Sempre Um Papo de Afonso Borges, no Palácio das Artes, onde frente a um público de mil e setecentas pessoas os dois gargalharam, em plena leitura, por longos minutos. Os atos com dois escritores particularmente tímidos, mas cuja literatura demonstra o contrário — uma vontade enorme de abraçar a vida e entender tudo o que está ao nosso redor —, foram de arrepiar. Também foi bonito ouvir Raduan ler trechos de um livro de José Saramago, não me lembro mais qual, em um evento no Sesc. Sempre que Saramago e Pilar se hospedavam em casa, Raduan era convidado para almoçar conosco. Os dois escritores se respeitavam muito e mantinham uma amizade renovada, principalmente nesses almoços em que por vezes também estavam presentes Leyla Perrone-Moisés e Lygia Fagundes Telles — o grupo mais próximo de Saramago no Brasil.

No final do encontro, após Raduan preencher meu prato com mais fatias de bolo, ele me disse que gostaria de falar algo que nunca havia me dito. Se certificou inúmeras vezes de que eu não me chatearia, ouvindo sempre de mim que ficasse tranquilo, podia dizer o que fosse, eu gostaria de ouvir. Foi quando Raduan pegou uma matéria veiculada pela internet que criticava o estado de Israel, defendendo o direito dos dois povos à terra Palestina.

— Segundo estudos do DNA daqueles povos, somos primos, Luiz, mas o que está acontecendo lá não está certo. Nunca te falei sobre isso, mas não está certo não.

— Você está coberto de razão, Raduan. Eu tenho muitas críticas às atitudes militaristas do estado de Israel, e também acho que os dois países ou povos devem ter direito às suas terras e aos seus estados nacionais.

Respirei aliviado, já que, depois das palavras inicias, estava imaginando que Raduan tivesse guardado por tantos anos alguma crítica ou reclamação profissional.

A conversa foi acabando e eu com horário corrido, como sempre, tive que sair. Combinamos de ficar mais em contato, o que vem de fato ocorrendo desde então. Saí de lá feliz, orgulhoso e aliviado da minha culpa inicial. Meu contato com Raduan Nassar bem vale uma vida bem vivida de editor.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

22 Comentários

  1. Anderson disse:

    Raduan foi tão importante para a minha vida, ao ponto de que um de meus grandes sonhos é conhecê-lo. Já cheguei a ler relatos de vários admiradores, mas nunca obtive sucesso em conseguir uma forma de contato…

  2. […] A surpresa: “— Você não imagina. O Luiz (Fernando Carvalho, cineasta que filmou Lavoura arcaica) passou aqui e me arrastou para a Balada. Disse que não arredaria pé da minha casa sem que eu fosse, e acabei indo. Não houve jeito. E foi bom, sabe, imagine que houve uma moça que me disse que meus livros foram muito importantes para a vida dela. Me pediram autógrafos, Luiz, me limitei a uma assinatura magra em cada exemplar.” […]

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