Entrevista com Bernardo Carvalho

Quando começamos a planejar quais novidades poderíamos trazer para o blog em 2013, logo pensamos em entrevistas. Principalmente entrevistas com autores nacionais, que formam uma parte tão importante do catálogo da editora, mas às vezes não são tão conhecidos pelo público. E quem melhor para entrevistá-los que seus colegas de profissão?

Entramos em contato, então, com nosso colunista Juan Pablo Villalobos, e perguntamos quem ele gostaria de entrevistar. O escolhido foi o escritor, jornalista e tradutor Bernardo Carvalho. Bernardo nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Entre seus livros de ficção destacam-se Nove noites (prêmio Portugal Telecom), Mongólia (prêmio Jabuti) e O filho da mãe (finalista do prêmio São Paulo de Literatura).

Leia abaixo a entrevista feita por Juan Pablo. Daqui a algumas semanas publicaremos a entrevista feita por Bernardo Carvalho com o autor escolhido por ele: André Sant’Anna.

JPV: Queria começar falando do momento anterior à escrita, da etapa na qual você está cogitando o projeto de um livro, namorando com várias alternativas. Como é o processo até chegar à certeza de que uma dessas namoradinhas é a única e que esse é o romance que você vai escrever? Acho que em Nove noites esse processo é o que movimenta o enredo, a obsessão de um escritor por revelar um mistério do passado: o processo acaba se convertendo no romance. Muitos livros possíveis morrem sem chegar a um bom destino, são abortados. Qual foi a diferença entre seus livros que sobreviveram e seus livros abortados?
BC: Olhe, Juan Pablo, comigo as coisas não costumam funcionar exatamente como você descreveu. Em geral, são processos longos, que começam sem a consciência do fim, do que eles podem vir a ser. Não sei se posso dizer que há livros abortados, porque muita coisa é abandonada no meio do caminho, porque ainda não é a hora, para acabar sendo retomada anos depois. E, durante esse tempo todo, essas coisas ficam germinando inconscientemente, até eu entender o que elas realmente significam. Foi o que aconteceu com o Nove noites. A notícia no jornal, lida por acaso por um dos narradores no início do romance (e por mim antes de começar a escrevê-lo), serviu na realidade como despertador para um projeto que, sem que eu tivesse consciência, estava pronto para ser escrito.

JPV: O leitor está com você enquanto escreve? Quem é esse leitor para o qual você está escrevendo?
BC: Não. Essa ideia abstrata e onipotente de leitor, pra mim, é castradora. E, hoje, ela se tornou um imperativo. É lógico que você escreve para ser lido. Mas se você diz que não escreve para um leitor, logo te chamam de arrogante, pretensioso. É uma estratégia de marketing fazer o leitor acreditar que escreveram pra ele. Como se fosse um mimo. E quem escreve com um leitor-alvo em mente é publicitário. Tem a ver com a lógica da oferta e da demanda, de corresponder a uma demanda existente. Pra mim, a literatura mais interessante sempre criou demandas impensáveis, que não existiam antes dela. Ninguém podia imaginar que queria ler Kafka antes de Kafka. Ou Beckett antes de Beckett.

JPV: “Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui.” É a terceira frase de Nove noites, que parece umas boas-vindas aos territórios do romance, da ficção. Qual acredita que é o lugar da ficção em nossa época? Qual o valor da ficção ao tratar fatos históricos?
BC: Acho que a ficção está em baixa. É claro que ela continua existindo com a mesma frequência e com a mesma quantidade de antes, mas já não pode dizer o seu nome impune. As pessoas precisam acreditar, hoje elas querem ser crentes. Isso fica óbvio na internet, que é um poço de imposturas. As pessoas querem ler ficção, mas sem esse rótulo, como se fosse não-ficção. Por um lado, é natural, é humano; mas por outro isso representa uma enorme infantilização do público.

JPV: Você diria que seu discurso em uma entrevista ou palestra é uma fala que se desprende de maneira natural da própria obra? Ou você tem que inventar um discurso a posteriori, começando pelo mito de criação: “comecei a escrever o romance quando…”? O ato de escrever não tem muito de inefável?
BC: O que um escritor diz sobre a própria obra não tem necessariamente nada que ver com ela.

JPV: A saideira:
Um livro tão bom que você gostaria de ter escrito.
BC: Tenho vontade de escrever livros que ainda não existem. Mesmo se não forem tão bons.
Um livro tão bom que intimidou você, que fez você duvidar de sua escolha de ser escritor.
Os livros bons não intimidam nem fazem você duvidar da sua escolha de escritor. Os ruins, sim.
Um escritor ao qual você deixaria um ramalhete enorme de flores no túmulo.
Não sou muito de ir a cemitério.

* * * * *

Trecho de Nove noites:

Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e os disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo e de uma violência assustadora. Que se maltratou, a despeito das súplicas dos dois índios que o acompanhavam na sua última jornada de volta da aldeia para Carolina e que fugiram apavorados diante do horror e do sangue. Que se cortou e se enforcou. Que deixou cartas impressionantes mas que nada explicam. Que foi chamado de infeliz e tresloucado em relatos que eu mesmo tive a infelicidade de ajudar a redigir para evitar o inquérito. Passei anos à sua espera, seja você quem for, contando apenas com o que eu sabia e mais ninguém, mas já não posso contar com a sorte e deixar desaparecer comigo o que confiei à memória. Também não posso confiar a mãos alheias o que lhe pertence e durante todos estes anos de tristezas e desilusões guardei a sete chaves, à sua espera. Me perdoe. Não posso me arriscar. Já não estou em condições ou idade de desafiar a morte. Amanhã pego a balsa de volta para Carolina. Mas antes deixo este testamento para quando você vier e deparar com a incerteza mais absoluta. (continue lendo)

11 Comentários

  1. camilla disse:

    Concordo com AF. BC é mais do que sagaz para entender a graça da sua resposta provocadora, mas grandinho o suficiente para ignorar a intenção do entrevistador, que assim como a maioria dos reles leitores, também se interessa pelas influências do autor. Pelo menos com o André, entrevistando, ele foi muito mais interessante.

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