Entrevista com Karen Thompson Walker

E se os dias ficassem cada vez mais longos — primeiro em questão de minutos, depois horas, até que o dia virasse noite e a noite virasse dia? É isso que acontece no livro de estreia de Karen Thompson Walker, A idade dos milagres, um romance sobre crescer e seguir com a vida em uma época extraordinária e incerta.

O jornalista João Lourenço teve a oportunidade de conversar com a autora, leia a entrevista abaixo:

Nos últimos anos, houve um aumento no número de filmes e livros que abordam as mais diversas formas de apocalipse. Como você escolheu o seu desastre?
Não escolhi, acho que fui escolhida. Os desastres sempre estiveram em alta, mas isso virou uma febre devido a essas previsões modernas de que o mundo vai acabar este ano. Eu mesma já vi esse filme várias vezes e ainda estou aqui. Em 2004, li um artigo no jornal que detalhava os efeitos e consequências do tsunami que atingiu a Indonésia. No meio do turbilhão de notícias, fiquei assustada ao descobrir que a rotação da Terra tinha sido alterada, por mais que não tenha sentido nenhuma diferença, afinal, perdemos apenas alguns microssegundos dos nossos dias de 24 horas. Essa história ficou comigo por muito tempo. Imaginei como seria se isso tomasse outras proporções. É horrível se dar conta de que algo que você tinha como certo e previsível, como o nascer e o pôr do sol, pode ser alterado a qualquer instante. Comecei a escrever um conto com essa temática, mas logo percebi que funcionaria melhor em um romance, em que eu poderia desenvolver melhor o desespero silencioso dos personagens. Queria apresentar um tipo diferente de desastre. Nada de furacão ou grandes explosões, para isso já temos a televisão.

Você apresentou um mundo em que podemos nos ver vivendo no futuro. Como foi o processo de pesquisa?
Somos bombardeados com histórias sobre desastres e superação quase todos os dias. Seja a catástrofe que for, uma coisa é certa: as pessoas continuam vivendo. Para construir meus personagens, utilizei tudo que já tinha lido sobre pessoas que tiveram que recomeçar suas vidas do zero. Encontrei problemas com os aspectos mais técnicos, pois precisei fazer uma longa pesquisa para traduzir os detalhes do mundo astrofísico em uma linguagem que não fosse pretensiosa e cansativa. Mesmo se tratando de um romance, desde o começo eu queria que a história parecesse autêntica. Eu não queria incomodar ninguém com as minhas dúvidas, tinha vergonha, não sentia confiança em mostrar meu trabalho para amigos e familiares. E não posso deixar de citar Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, que me ajudou a encontrar força e inspiração para transformar uma premissa aparentemente impossível em um cenário realista.

Para um romance sobre o fim dos tempos, a sua perspectiva não parece tão pessimista como se poderia esperar. Foi uma escolha deliberada?
Em livros e filmes, na maioria das vezes as pessoas enlouquecem muito rápido quando são colocadas diante de cenários de destruição e caos. Nunca passei por algo parecido, mas para mim essa mudança de comportamento sempre pareceu forçada. É como se a sua personalidade fosse para o espaço em questão de minutos. Queria que o leitor conseguisse identificar os personagens, que esses fossem de fácil identificação. Mesmo em situações de risco, podemos manter a ordem sem abandonar nossas crenças. Não sou pessimista, mas sempre estive preparada para o pior. Fico assustada com desastres que fogem do nosso controle.

A mídia costuma transformar catástrofes em espetáculo. Qual a sua posição?
A catástrofe faz parte da cultura pop. Acrescentando mais significado e importância à banalidade das nossas vidas, ela nos faz lembrar do quão precioso é um dia ordinário. Acordar e dar valor ao que temos é fundamental, mas não deveria ter que acontecer um terremoto para que isso fosse lembrado. Infelizmente, não percebemos aquilo que está bem na nossa frente. Existem outros tipos de desastres acontecendo todos os dias, em nosso próprios bairros, por exemplo.

Por que você decidiu contar a história através dos olhos de uma menina de 12 anos?
Pareceu mais convincente falar sobre mudanças através de uma narradora adulta olhando para a infância. Por representar a perda da inocência, esse período é crucial para a formação de qualquer pessoa. É uma idade onde tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Cedo ou tarde, uma hora todos nós sentimos o impacto dessas transformações. Li As virgens suicidas na faculdade e, desde então, decidi que um dia também teria um narrador que observasse as transições desse período.

Quais foram as maiores mudanças que você sentiu no período de transição da infância para a adolescência?
A principal mudança que notei foi que a maioria dos meus amigos da infância não permaneceram comigo na adolescência. Em quase todos os sentidos, eles cresceram mais rápido. Enquanto minhas amigas estavam se maquiando e correndo atrás de meninos, eu estava brincando na rua. Aos 12 anos eu ainda era uma criança tentando ser adolescente — sem muito sucesso.

Esquecemos rápido demais tudo aquilo que um dia pensamos que nunca esqueceríamos. Muitas vezes, esquecemos até mesmo quem nós fomos no passado, disse Joan Didion em Slouching Towards Bethlehem. Como você lida com o tempo perdido?
Olhando para o passado, vejo que existem idades, principalmente entre o ensino médio e a faculdade, que é difícil lembrar o que mais valorizávamos. Um dos maiores prazeres da vida é poder redescobrir aspectos e ideias brilhantes da nossa juventude. É necessário manter laços com os desejos que acumulamos na estante. Entretanto, não sou muito nostálgica. Se eu pudesse voltar para a minha adolescência, nos anos 80, eu gostaria de olhar as coisas através de uma nova perspectiva, não sinto a necessidade de reviver algo em específico. Se tivesse a chance de viajar no tempo, seria para o futuro. Ficaria tranquila em saber que conseguimos eliminar alguns sérios problemas que ainda temos hoje.

Acredita-se que existe uma maldição em torno de um romance de estreia de sucesso. Você sente essa pressão?
Tento não pensar nisso, pois escrevi a A idade dos milagres sem saber que o livro seria publicado. Tive a liberdade e o luxo de trabalhar no meu tempo, sem amarras com editor. No momento, estou em cima de um novo romance. Ainda estou dando os primeiros passos, mas posso adiantar que também vai envolver pessoas enfrentando mudanças que estão além de seu controle. Talvez se passe em um tempo totalmente diferente e longe do nosso, ainda não decidi. Adoro e sou grata aos meus leitores, mas agora tento me focar em usar a minha imaginação para recriar o tempo em que eu escrevia apenas para mim. Evito criar expectativas, sou supersticiosa.

Ping Pong:

Felicidade?
Ir jantar com meu marido em um lugar que tenha uma vista agradável.

Qual personalidade você mais admira?
Barack Obama.

Qual a característica que você mais lamenta em si mesma?
Desorganização.

Viagem favorita?
Dirigir pela costa de San Diego, onde meus pais moram.

O que mudaria em você?
Gostaria de ser mais espontânea, de conversar com desconhecidos no metrô, por exemplo.

Qual sua maior conquista?
Ter meu livro publicado.

O que mais admira nas pessoas?
Generosidade.

Escritores favoritos?
Jeffrey Eugenides, José Saramago, Cormac McCarthy.

Qual é o seu lema?
Trabalhe todos os dias em seus projetos, pois ninguém vai realizá-los por você.

Veja a palestra da autora no TED: