London Calling

Por Tony Bellotto


Christopher Hitchens e Salman Rushdie com busto de Voltaire.

Confesso que nunca tinha lido nada do Salman Rushdie até o final do ano passado, quando li Joseph Anton: memórias, que narra a experiência do escritor durante os anos em que viveu escondido e sob proteção policial, depois de sua condenação à morte pelo abominável aiatolá Khomeini.

Joseph Anton — o codinome escolhido por Salman para enfrentar a forçada clandestinidade, inspirado por dois de seus ídolos literários, Joseph Conrad e Anton Tchekhov — é um livro delicioso, da estirpe dos que não se consegue largar, uma reflexão preciosa sobre a liberdade (e a falta dela) num mundo confuso em que barbárie e obscurantismo desfilam como um casal charmoso de monarcas up to date.

Em Joseph Anton, Salman afirma que o apoio dos amigos foi fundamental para que sobrevivesse à angústia do desterro surreal. Entre eles encontram-se três figuras destacadas da literatura e do jornalismo britânicos: Martin Amis, Ian McEwan e Christopher Hitchens.

Nas trevas, os bons companheiros se aproximam de Salman com as potentes lanternas da razão e da solidariedade, acendem a fogueirinha (nunca usando livros como lenha), cantam velhas canções dos Rolling Stones e bebem algumas garrafas de uísque antes que o sol nasça de novo (devem ter cantado também “Here Comes The Sun”, dos Beatles).

Gosto de deixar que livros que me impressionam orientem minhas próximas leituras. Portanto, para mim o ano começa com um sabor de London Calling (apesar das temperaturas saarianas do verão carioca).

Além de Os versos satânicos (que pretendo ler em breve ), termino de ler Hitch-22, uma autobiografia impiedosa e divertida de Christopher Hitchens — nos picos de seu estilo verborrágico, irônico e digressivo —, e já acabei de ler Grana, de Martin Amis, um romance de 1984 (alguém pensou em George Orwell?) que transborda cinismo com a acuidade de uma prosa que pode ser definida como Vladimir Nabokov viajando de ácido.

Do Ian McEwan o último que li acho que foi Solar, mas Serena já está taxiando no tapete.

London calling to the faraway towns
Now war is declared and battle come down
London calling to the underworld
Come out of the cupboard, you boys and girls!

Pressinto um ano de muitos combates e altas temperaturas.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

7 Comentários

  1. Alexandre disse:

    já leu um livro de bolso com alguns contos do Rushdie, chamado “oriente, ocidente”?. É legal, leve, divertido.

    mais uma coisa sobre dinheiro.

    leu essa noticia no de guardian?
    How the Vatican built a secret property empire using Mussolini’s millions.

  2. Tony Bellotto disse:

    Gabriela, obrigado. Não é a primeira vez que vejo Rushdie associado ao Garcia Márquez. Vou imergir no universo de Salman, depois nos falamos.

    Rogério, adoro essa galera também, embora não tenha o teu conhecimento de causa. Mas já li muita coisa boa do Julian Barnes, comecei a ler agora O Sentido de Um Fim e estou gostando muito. Já li alguma coisa do Kureishi e do Graham Swift e vou seguir garimpando. Obrigado pelas dicas.

    Sai dessa, João Neres, discordo de tudo que você disse. O velho aiatolá tem a espirituosidade de uma múmia paralítica e sádica.

    Yes, sir! Daniel, obrigado: Versos Satânicos a caminho…

  3. JLM disse:

    mto além dos versos, sou fã da literatura infantojuvenil do rushdie. experimente o luka e o fogo da vida, é uma viagem aos anos 80-90, combinando mto bem video-games + literatura.

  4. Daniel Abreu disse:

    Li Os versos satânicos. Imperdível. Não deixe para depois.

  5. João Neres disse:

    Ora, se os seguidores mais ferrenhos do islã pretendessem mesmo matá-lo, ninguém poderia impedir. Tudo não passou de uma tirada muito espirituosa do velho iatolá. Por outro lado, (em relação ao Rushdie, que nisso não é nada indiano) por que se agarrar tanto assim à vida ao ponto de subvertê-la? Todos estamos (um gesto benevolente por parte da natureza) sentenciados, de um jeito ou de outro, à morte. Ele teria feito melhor, e mostrado alguma compreensão das forças que regem o universo, se encarasse tudo como uma grande (e divertida) asneira e encaminhasse sua vida como vinha fazendo até então.

  6. Rogerio Moraes disse:

    Legal, Tony. McEwan é um dos meus ídolos literários. Aliás, sou grande admirador da geração dele: Julian Barnes, Kazuo Ishiguro, Hanif Kureishi, Graham Swift, Roddy Doyle, Jonathan Coe e a dupla citada por você, Rushdie e Amis. Sou fã de todas as fases do McEwan, seja a MacAbra, com clássicos como O Jardim de Cimento, a dos romances de ideias, com Amor para Sempre e Amsterdam ou a mais recente, que tem o meu romance favorito, Reparação. O novo, Serena, é excelente também. Como bom roqueiro, indico com força o Kureishi para você, caso não o tenha lido ainda. Em O Álbum Negro ele utiliza o fatwa ao Rushdie como pano de fundo e em O Buda do Subúrbio, traça um painel muito bacana da Inglaterra da década de 1970 (assim como o Coe, no maravilhoso Bem-Vindo ao Clube). No romance do Coe, um dos personagens assisti a um show do The Clash, ainda no início da banda.

    London´s burning….

  7. gabriela disse:

    Tony,
    Sou fã do Salman Rushdie e recomendo Vergonha. É um livro maravilhoso que lembra muito a magia de Gabriel Garcia Marquez em Cem anos de Solidão. Não perca!
    Abs,
    Gabriela

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