Me joga na parede e me chama de literatura

Por Érico Assis

No inicinho deste ano, a gréfic novel Dotter of her father’s eyes ganhou um prêmio literário na Inglaterra. Assim como o Pulitzer de Maus e o Guardian First Book Award de Jimmy Corrigan, é daquelas conquistas que daqui em diante vão ser citadas em todas as matérias estilo “quadrinhos não são só pra criança!”.

Dotter of her father’s eyes levou o prêmio de biografia do Costa Book Awards (que já frequentou quartas capas como Whitbread Book Awards). É obra de um veterano das HQs, Bryan Talbot, junto à esposa, Mary M. Talbot. Faz um paralelo entre a vida de Mary, filha de um renomado estudioso de James Joyce, e a da filha do próprio Joyce, Lucia — que teve conturbada existência, foi tolhida pela família e passou seus últimos 30 anos internada devido à esquizofrenia.

Outra gréfic novel, Days of the bagnold summer, de Joff Winterhart, concorria na categoria Romance, mas não levou nada. Fruto de um concurso para novos quadrinistas do jornal Observer junto à editora Jonathan Cape, é a história de mãe bibliotecária e filho adolescente forçados a passar férias inteiras juntos e tentando se entender. É contada em tiras.

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A mídia inglesa deu mais atenção ao fato de quadrinhos terem sido indicados e premiados do que às obras — de HQ e as outras. O Daily Telegraph apurou que o principal prêmio literário britânico, o Man Booker Prize, nunca recebeu quadrinhos para apreciação do comitê — e está disposto a avaliar. Também ouviu A.S. Byatt — “acho que graphic novels podem ser arte tanto quanto um romance convencional, mas também acho que são uma arte completamente diferente do que faz a [romancista] Hilary Mantel” — e o crítico curto e grosso John Walsh — “ilustrações em livros são coisa de criança ou de quem tem dificuldade para acompanhar a narrativa”.

Mas a reação mais comentada veio de um crítico gastronômico (?) e jornalista de TV chamado Giles Coren, que escreveu no Spectator que prêmios literários não deviam aceitar quadrinhos. Diz: “Quadrinhos são quadrinhos. Não precisam de seu endosso, oh, pomposo leitor literário. São basicamente coisa de criança, e para homens (sim, homens, homens mesmo) meio broncos demais para ler livros de verdade, como eu mesmo fui por muitos anos, e às vezes ainda sou, se estou cansado ou de ressaca ou num avião.”

A crítica de Coren é interessante até certo ponto. Seu alvo principal não são os quadrinhos, mas sim os prêmios literários que querem dar uma de moderninhos lendo gibi. O texto, porém, é contraditório: chama Maus de “maior obra de arte já criada por mão humana”, mas diz que quadrinhos resumem-se a um gênero — e não uma mídia em que se aceitam vários gêneros, como explicam os incendiados comentários ao artigo.

No site da BBC4, Hayley Campbell, crítica de HQs e filha de um respeitado quadrinista britânico, enfiou o dedo na ferida: “Talvez a sociedade literária engula mais fácil os gibis se vierem embrulhados em Ulysses e se dizendo biografia.”

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No meio dessa discussão, a Economist (olha os britânicos de novo) descobriu webcomics, gostou do que viu e disse que está acontecendo uma “revolução”. A matéria chamou atenção especial para xkcd, que em 2012 fez aquela coisinha mágica chamada Click and Drag.

Como o próprio nome diz, a HQ inclui um quadro que o leitor deve clicar e arrastar. Arrastando (e arrastando, e arrastando, e arrastando, para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo), acompanha-se um imenso panorama onde acontecem várias histórias que tratam, com ótimo humor, de como o mundo e a vida são vastos.

Leitores pegaram a tira, mediram seu comprimento em termos de pixels (1.3 terapixels), de metros se impressa (14 x 5,5m em 300dpi), de tamanho do cenário (8 x 3 km), entre outros cálculos; criaram uma versão Google Maps para tela cheia, com pontos linkáveis e zoom in/out; desenvolveram código JavaScript para leitura com o teclado; anotaram easter eggs e registraram estas e outras intermináveis considerações no wiki explain xkcd.

Não vou brigar para definir o que é literatura, muito menos o que é arte, tampouco falar de status literário. Mas xkcd aproxima-se de render quase tanta discussão (em quilometragem) quanto Ulysses. Mais do que querer ser literatura, os quadrinhos podiam almejar o mesmo propósito da boa literatura: provocar boa discussão entre gente inteligente.

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A premiação de Dotter of her father’s eyes, enfim, deu a prova de que prêmios literários só acolhem quadrinhos mais ou menos a cada dez anos. Maus ganhou em 1992, Jimmy Corrigan em 2001. O próximo, só em 2022. A discussão sobre ser ou não ser literatura, porém, segue.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

10 Comentários

  1. […] você de novo. Depois de “Click and Drag”, que já era coisa de gênio, o autor Randall Munroe está numa […]

  2. […] casas editoriais. No ais, eu termino esse texto citando uma frase do artigo de Érico Assis “Me joga na parede e me chama de literatura”, no blog da Companhia.  “Não vou brigar para definir o que é literatura, muito menos o que é […]

  3. […] Do blog da Companhia: Me joga na parede e me chama de literatura. […]

  4. Na minha opinião, não é o caso querer tirar os quadrinhos dos prêmios literários por meio da diminuição nem querer colocá-los para modernizar os prêmios. Mais sentido faria criar uma nova categoria, que abarcaria as HQs. Pois elas deixaram sim de ser apenas leitura fácil para criança, mas não são romances. E isso não significa que são menores, apenas que fazem parte de outra categoria. Enquanto que num romance é preciso montar cenários e o físico dos personagens por descrição, as HQs trazem as figuras. E quem disse que não dá um supertrabalhão desenhar tudo aquilo também? São trabalhos diversos, de categoria diversas, com mais um poesia equivalente. Acredito que contar uma história dessa ou daquela forma é questão de opção. Unicamente.

  5. Felipe Santos dos Santos disse:

    Lamento se volto a tocar no assunto, porém na minha humilde e talvez pequena “opinião” Umberto Eco, em Apocalípticos e Integrados, apesar da primorosa análise interna de cada quadro de Steven Canyon, negligencia (olha a polêmica, refutando Umberto Eco) a diagramação da página. Esse erro é comum em críticos de outras áreas em relação aos hq. Moacir Cyrne já chamava a atenção pra isso ao dizer q artistas plásticos avaliavam o desenho, enq. críticos literários e escritores a narrativa. c/o se fosse possível separá-los nos hq. é c/o separar a fotografia da narrativa no cinema. Acabei de ler Habib e negligenciar a diagramação ou o entrelaçamento c/o diz certa crítica (se é q ñ são a mesma coisa) é ñ perceber, creio eu, 2/3 do maravilhoso trabalho d Craig Thompson. Em relação à diagramação e aos diagramas, recomendo o excelente, porém difícil, trabalho do linguista Roman Jakobson no artigo Em Busca da Essência da Linguagem, citado em MIL Platôs, de Deleuze e Guatarri.

  6. Thaïs disse:

    Aposto que esse John Walsh teria dificuldades em ler muitas obras de quadrinhos. E como crítico literário Giles Coren é um ótimo jornalista. Gente que exclui de cara toda uma forma de expressão artística sem nem ao menos conhecer não pode ser considerado um “crítico de arte”, é só aquele cara incompetente demais pra criar qualquer coisa.

  7. Felipe Santos dos Santos disse:

    essa discussão de hq c/o arte e/ou literatura já se arrasta a muito tempo. pra mim esses prêmios literários só servem pra dar uma pseudolegitimidade às hqs. obras c/o watchmen do vcs. sabem quem, um ícone (meus escrúpulos deleuzianos tremem c/ a palavra “ícone”) dos quadrinhos pós-modernos, sem citar grant morrison, nem passaria perto d uma indicação dessas. pq.? pq. é sobre super-hérois, é claro. infelizmente esses críticos são incapazes de perceber a influência de outros ícones do pós-modernismo no citado bardo-proletário-inglês (me refiro à Thomas Pynchon e à Andy Warhol). pra legitimar as hqs eles dizem “o Finnegans Wake”, “o Cidadão Kane” dos quadrinhos. balela. é só mudar “dialeticamente” as ordens dos fatores pra perceber o absurdo. “o Cidadão Kane” da literatura (?), “o Finnegans Wake” do cinema (Bazin q me perdoe). os hq são uma arte autônoma, q é claro, mistura elementos das duas acima citadas (assim c/o o cinema tem elementos do teatro, donde será q vem a expressão “Mise-en-scène”?). falando em inteligência nos hqs. recomendo os blogs ler bd e raio laser q tem belas críticas de hq q ñ deixam nada a dever às melhores críticas literárias e cinematográficas.

  8. Pedro Souza disse:

    Sensacional, Erico. Absolutamente sensacional.

  9. Leandro Oliveira disse:

    Disse a primeira vez que vi esse xkcd e só reafirmo: isso merecia um Pulitzer. Foi lindo demais.

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