As melhores mortes literárias

Por Vanessa Barbara


Ilustração: Fido Nesti/Revista Bravo

Mês passado, em consonância com a onda recente de morbidez livresca, a Revista Bravo publicou uma lista com minhas mortes literárias preferidas, segundo critérios como: sanguinolência, surpresa, brutalidade e dó. Como bem apurou a repórter, a opinião é de especialista: minha ficha corrida de escritora conta com os homicídios de um besouro, uma lagartixa, um sapo (com requintes de crueldade) e uma esposa dedicada.

Segue a lista final, com alguns falecimentos de bônus para o leitor deste blog. Quem ainda não leu os livros citados deve pular para o próximo a fim de prevenir spoilers.

1. O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald: A morte de Jay Gatsby com um tiro — seu cadáver boiando na piscina, descrevendo círculos de sangue na água — é de partir o coração. Sobretudo na descrição dos momentos que antecedem sua morte, quando o personagem, ainda à espera de um telefonema de Daisy, carrega o colchão inflável nos ombros em direção à piscina e vislumbra uma sombra entre os arbustos. O curioso é que a morte da Myrtle não me causa tanta pena, ainda que seja grotesca e detalhadamente descrita.

2. Hamlet, de William Shakespeare: O suicídio da Ofélia. Morro de raiva do príncipe da Dinamarca por ele ter feito o que fez com a pobre moça, que não tinha nada a ver com isso. O sujeito se aproveita dela, faz juras de amor, então a rejeita publicamente e mata seu pai. Ofélia acaba ficando louca, cantando aquelas musiquinhas sem sentido e se atirando no lago porque o loiro real se achava importante demais pra contar a verdade, preferindo ele mesmo se fazer de louco raivoso para tirá-la do caminho. Eu realmente fico mal quando isso acontece, mais ainda do que no morticínio final — “Get thee to a nunnery!”. Até hoje assisto à peça esperando que, na última hora, a Ofélia se recupere e mande o loiro plantar batatas.

3. Hamlet, de William Shakespeare: Da mesma peça, a morte de Rosencrantz e Guildenstern. Eles são executados ao desembarcar na Inglaterra e alguém anuncia o fato en passant no decorrer da peça, o que é muito engraçado. Serve também a mesma morte em Rosencrantz e Guildensteirn estão mortos, de Tom Stoppard, uma tentativa (fracassada) de lhes conferir um pouco de importância. Mas nem botando os dois como protagonistas é possível disfarçar suas condições de eterno alívio cômico.

4. A metamorfose, de Franz Kafka: A morte de Gregor Samsa é a coisa mais triste do mundo. O homem-que-virou-inseto está com uma casca de maçã podre e infeccionada nas costas, dentro de um quarto fechado e escuro, e de repente decide que é preciso morrer, então simplesmente morre. Quem encontra seu cadáver é a empregada, no dia seguinte de manhã. Acho que, de todas as mortes que eu listei, é a mais triste. “Ele ainda vivenciou o início do clarear do dia lá do lado de fora da janela. Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco e último fôlego.” (Tradução de Modesto Carone)

5. Moby Dick, de Herman Melville: Depois de passar centenas de páginas perseguindo a baleia que lhe comera uma perna, o capitão Ahab consegue enfim localizar e atingir Moby Dick com um arpão. Por azar, a linha enrola em seu pescoço e ele é arrastado ao mar pelo gigantesco mamífero. O barco vai junto e todos morrem, menos o narrador e a baleia. O que é sempre um consolo.

6. Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski: Numa das mortes mais lendárias da literatura moderna, a dona da loja de penhores é assassinada com um machado pelo estudante Raskolnikov. “Então ele bateu duas vezes com toda a força, sempre com as costas do machado e nas têmporas. O sangue jorrou, como de um copo derrubado, e o corpo caiu de costas. Ele recuou, deixou-a cair e no mesmo instante abaixou-se para lhe olhar o rosto; estava morta. Tinha os olhos esbugalhados, como se quisessem saltar, e a testa e o rosto franzidos e deformados pela convulsão.” (Tradução de Paulo Bezerra.) Em seguida, ele mata a irmã da vítima com uma machadada certeira, desta vez com o lado certo da lâmina, abrindo de uma só vez toda a parte superior da testa.

7. Madame Bovary, de Gustave Flaubert: Sempre fui partidária do Charles Bovary. Tudo bem que ele é meio entediante e goiaba, mas é simples e bondoso, ao passo que Emma é fútil e deslumbrada. A morte dela é até que compreensível, mas a dele é de quebrar as pernas, nos momentos finais do livro. Depois que a esposa se mata, ele descobre sua extensa lista de adultérios, entra em depressão, cai em ruína financeira (por culpa dela) e encontra por acaso o velho amante da mulher. “Eu não lhe quero mal”, diz. “Não, já não lhe quero mal.”

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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22 Comentários

  1. Freddy disse:

    A morte da Emma no Madame Bovary foi, para mim, a cena mais assustadora da literatura, naquela comparação medonha entre seus delírios pré-óbito e o palavrório do louco caminhando pelos arredores (salvo engano é isso, sim?).

    Foda. Não há livro de terror comparável.

    Até.

  2. Roberto disse:

    Tem o peixe do livro “O velho e o mar”.
    Ele passa metade do livro morrendo.
    Sanguinolência: tinha uns 400kg (é isso?);
    Surpresa: baixa, ía dar xabú.
    Brutalidade: nota 8 (fome, anzol, tempo, tubarões)
    Dó: rolava sentimento forte entre o velho e o peixe.

  3. Bruce Torres disse:

    A morte da protagonista de “O Cristo Recrucificado” – coisas que só Kazantzakis faz por você. :)

  4. Lancast Mota disse:

    No dia em que ia morrer, SANTIAGO NASAR acordou mais cedo…

  5. Léo disse:

    Eu acho que a literatura está tão bem servida de “grandes” mortes, que fica realmente difícil se decidir por uma ou outra. Concordo com as de Kafka e Hamlet, que eu li. Por agora, estou terminando Crônicas de Gelo e Fogo, de George Martin, que também é uma obra com várias mortes bem realizadas, como a do personagem Joffrey. Abraços cordiais a todas e todos.

  6. […] 2013 por Vanessa Barbara em Blog da Cia. das Letras, Crônicas Tags: literatura, Mortes 0 ImprimirBlog da Companhia das Letras 18 de fevereiro de […]

  7. Anna disse:

    Eu ainda citaria a melancolia e prostração diante (do fim) da vida de A morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. A luta de Ilitch contra seu rim e/ou seu ceco pode não ter sido tão brutal ou sanguinária, mas o seu sofrimento é tão cruel quanto assassinatos homéricos ensopados de sangue e requintes de crueldade.

    De toda forma, adorei a lista!

  8. Thiago Felicio disse:

    Não é porque Kafka é meu autor favorito não, mas a morte de Gregor Samsa é pulsante, dramática.

  9. Tuca disse:

    Ai, li sem querer Jay Gatsby. Mas eu também sou um besta: há mais de ano enrolando pra ler tua tradução, mesmo tendo curtido PACAS o começo…

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