Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo

(431 páginas)

Corrigir o autor é coisa dura.

Vejamos. Entre as não muitas coisas estranhas que eu fiz na vida está ter me formado em francês na universidade. Já publiquei traduções do romeno, do italiano, montes do inglês, mas o francês ainda não me serviu de muito. Até porque a autoridade gálica da maison trabalha na escrivaninha aqui da frente.
Mas aí tem que eu sou plenamente capaz de ver que o francês dos personagens e narradores do Wallace, por exemplo, é todo bisonho. E não tem MESMO como botar aquilo tudo na conta do canadensianismo da trama.

Fato 1. O homem tinha um francês tosquinho.
Fato 2. Costuma rolar uma soberba linguística no mundo americano, que faz com que eles ou não se liguem ou não liguem.

Afinal, um autor dar uma erradinha no francês é hipernormal, certo? Mas daí NINGUÉM ver, se incomodar? Revisores, preparadores, editores… ninguém.
E isso está bem longe de ser raro. Muita gente muito boa vez por outra escorrega quando quer dar alguma cor internacional a personagens e situações.

O grande Francis Aubert, da USP, já dizia que o tradutor é o revisor final. Vez por outra a gente tem mesmo que ajeitar uma escorregadinha aqui-ali. Afinal, pouca gente há de ler um texto com uma lente de aumento tão poderosa: normal.
De outro lado, há sempre que se levar em conta aqueles ‘erros’ intencionais, que os autores fazem, por exemplo, um personagem cometer. E nos romances mais modernos, como a gente já comentou aqui, é muitas vezes bem difícil saber onde acaba o personagem e onde começam narradores e autores…
E aí a gente fica na dúvida.
E toca escrever pro camarada perguntar se pode/deve corrigir aquele pequeno desvio, nada demais, sabe como?

Às vezes eles agradecem. E lindo e tudo bem.
Outra vezes eles te mostram que você que é asno e não tinha entendido. (Ou será que é só comigo, isso?)
Tem vezes, também, em que eles batem pé. Em umas coisas bobas até (nem só de línguas… coisas de fato mesmo, tipo ‘esse prédio não tinha sido inaugurado quanto o teu personagem vai visitar!’ [história real]). E tudo bem também. O livro é deles, afinal.

Mas e quando o autor morreu?
Quem é que decide?
Quem é que tem autoridade pra decidir o que pode ser escorregão intencional e o que era só bobagem de conhecimento imperfeito de um autor falível como todo mundo?
Em resumo, se o cara erra o nome francês da célula terrorista do Québec (central para a trama) chamada de Assassinos das Cadeiras Rolantes, e depois ninguém corrige o livro, nenhum anotador (online ou onbook) menciona o fato, e nem os tradutores de outras línguas (italiano e português europeu aqui na minha frente) emendam o soneto…
E isso num livro em que um personagem francófono do Québec uma hora exclama ‘D’éclaisant!’, que simplesmente não existe em francês, num lugar em que aparentemente ele poderia ter dito ‘Éclairant’.

Será que pode?
Será que sou só eu?

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.