Entrevista com André Sant’Anna

Em janeiro publicamos aqui no blog a entrevista que Juan Pablo Villalobos havia feito com Bernardo Carvalho. Para continuar o projeto, Bernardo escolheu conversar com André Sant’Anna.

André Sant’Anna é músico, escritor, roteirista de televisão, cinema e publicidade. Ele nasceu em Belo Horizonte, morou no Rio de Janeiro e hoje vive em São Paulo. Seu primeiro livro, Amor, foi publicado em 1998. Dele, a Companhia das Letras publicou O paraíso é bem bacana e Sexo e amizade.

Leia abaixo a entrevista feita por Bernardo Carvalho. A próxima trará o escritor escolhido pelo André: seu próprio pai, Sérgio Sant’Anna.

BC: Que é que você anda escrevendo?
AS: Textos curtos, quase todos sob encomenda. Neste ano, vou lançar um livro que reúne esses textos.

BC: Você escreve contra ou a favor?
AS: Contra. A minha literatura está se tornando cada vez mais política. Estou, sim, brigando contra “o sistema”. E na minha política, a questão estética é fundamental. Então, a minha briga está no conteúdo do que escrevo e também na linguagem. Travo uma guerra contra o “escrever bem”, ou contra o “vamos todos escrever livros legais e iguais”.

BC: Que é que mudou desde quando você publicou seu primeiro livro?
AS: A principal mudança foi o fato de eu ter me tornado escritor. Quando escrevi Amor, eu não podia imaginar que algum dia sairia uma foto minha no jornal, com a legenda: “André Sant’Anna, escritor”. Na época, escrever era só diversão, só prazer, nenhum tipo de angústia. Agora já sinto um pouco mais de responsabilidade, penso mais nos leitores, na crítica, em como os livros vão ser recebidos pelas pessoas. O lado ruim é que o trabalho fica mais pesado, fica mais trabalho. O lado bom é que a gente procura se esmerar mais, pensar mais antes de escrever cada frase. Aumenta a autocrítica e isso pode trazer bons resultados.

BC: Se ninguém lesse, você parava de escrever?
AS: Acho que não. Desde a adolescência, até a publicação de Amor, sempre escrevi sem saber que um dia algo seria publicado. Mas é claro que eu dedicaria bem menos tempo da minha vida a essa atividade.

BC: Que é que você lê hoje?
AS: Todo ano acabo sendo jurado de alguns concursos literários, além de trabalhar como redator e roteirista. O resultado é que tenho lido muito pouco. Praticamente só leio algo por escolha própria quando viajo ou ando de ônibus. Neste final de ano, de férias, reli Criação, do Gore Vidal. Mas agora mesmo está chegando uma remessa de livros de um concurso, que vai ser minha leitura por um bom tempo.

BC: Você se reconhece em alguma escola/movimento/tradição — ou em algum autor?
AS: Tenho umas 4 ou 5 influências muito fortes: Nelson Rodrigues (pela visão de mundo, a guerra contra os idiotas, contra o desamor); Glauber Rocha (não pela literatura, mas pelos textos políticos, a maneira de usar a “Eztétyka” como “arma revolucionária”); Jorge Mautner e José Agrippino de Paula (pela liberdade com que escrevem); Kurt Vonnegut Jr. (pelo humanismo ácido).

BC: Você também tem uma banda. Que é que você quer com a literatura que a música não te dá?
AS: A literatura me dá independência. Escrevo sozinho, sem precisar dos outros ou de tecnologias. Com a música, sempre fiz parte de grupos, bandas grandes, com atores em cena etc. Trabalho de grupo sempre acaba em desacordos, é difícil as pessoas estarem sempre na mesma sintonia. E foi a literatura que me levou a fazer o trabalho de música que faço hoje, o “Sons e Furyas”. No show, sou mais um performer do que um músico. Leio textos, danço, canto, faço umas caretas etc. No fundo, acho que tudo é a mesma coisa — o teatro, a literatura, a música, a dança, as artes plásticas. Faço tudo isso e não sou especialista em nada disso. Acabei ficando mais conhecido como escritor. Hoje, a legenda sob a foto no jornal é “Escritor”. Não estou reclamando. A literatura mudou minha vida para melhor.

* * * * *

Trecho de O paraíso é bem bacana:

O Mané podia ter dado uma porrada bem no meio da cara daquele gordinho filho-da-puta.

Mas não.

O Mané ficou rodando em volta do gordinho filho-da-puta, olhando para os lados, esperando que algum filho-da-puta logo apartasse a briga.

Mas não.

Eles eram todos uns filhos-da-puta e queriam ver um filho-da-puta batendo no outro.

O Mané ainda não sabia que eram todos uns filhos-da-puta.

O Mané não tinha motivo para bater no gordinho filho-da-puta.

O Mané não sabia que o gordinho filho-da-puta tinha motivo para bater nele, no Mané.

O Mané queria ser amigo daqueles filhos-da-puta.

Mas não.

Aqueles filhos-da-puta sempre batiam no gordinho filho-da-puta e o gordinho filho-da-puta precisava dar umas porradas num filho-da-puta qualquer.

O Mané ainda não sabia que o filho-da-puta era ele, o Mané.

Depois contaram:

Antes, o gordinho filho-da-puta batia no filho-da-puta do Levi, até que um dia o filho-da-puta do Levi ficou com muita raiva do gordinho filho-da-puta e deu uma porrada bem no meio da cara do gordinho filho-da-puta. Era o que o Mané devia ter feito.
(continue lendo)

9 Comentários

  1. Ricardo Nery disse:

    Como um es-cri-tor em entrevista à Band News fala – ” Eu sou uma pessoa que durmo….”
    Tá fácil ser escritor, não precisa nem conhecer a língua.

  2. […] ter respondido as questões enviadas por Bernardo Carvalho, perguntamos a André Sant’Anna quem ele gostaria de entrevistar. A resposta veio rápido: […]

  3. Carlos Alberto Bárbaro disse:

    Valeu, André! (Ver meu comentário ao encontro do Villalobos com o Carvalho.)

  4. Fernando Nico disse:

    Caraca, nessa foto o André Sant’anna tá a cara do Alessandro Baricco! Se eu o visse na rua pediria pra autografar o meu “Seda” (ou o “City”, que gosto mais).

  5. Flávio Leme disse:

    Prezado Ramon. Parece que não fiz me entender. O grotesco, o bizarro, mesmo a face mais escrota, moral, ética, espiritual e mesmo física da condição humana sempre esteve presente na literatura, inclusive na melhor, como a vertente realista e naturalista. As quais tinham como premissa básica representar a vida, nua e crua, doesse a quem doesse, em toda a sua magnitude. Lembremos de Flaubert, no clássico Madame Bovary, que sofreu um processo e julgamento moral por expor a realidade do adultério, a negligência e incompetência médica, a enfatuação e mediocridade pequeno-burguesa da sociedade francesa com uma contundência ímpar, e isso, note bem, sem se valer de um único palavrão ou de uma cena de sexo explícito, ou de um crime medonho. Não sou contra o palavrão, sexo explícito ou mesmo a violência mais brutal em literatura (Raskolnikov, de Dostoievski, matou duas velhas a machadadas), nada disso. Mas o que vejo é que muitos autores contemporâneos (não estou dizendo que seja o caso do André Sant’Anna), para compensar e ao mesmo tempo desviar a atenção do leitor de sua vulgar capacidade fabuladora, de seu parco domínio formal e de sua escassa compreensão da natureza humana, abusam da coisa. E abusam por ser a mais apreensível, a mais corriqueira, por provocar uma empatia instantânea com um público constantemente ávido por este tipo de experiência. Mas, sinceramente, acredito que a literatura, embora possa e deva oferecer algo nesse sentido, tem um propósito, senão mais elevado, mais original, mais profundo, que explore outras camadas. Creio ainda que é preciso resgatar, sem qualquer espécie de sectarismo e outros ismos, a dignidade da e em literatura; dignidade essa que, nas suas melhores realizações, sempre se traduziu, a par com um espírito de luta, de inconformidade, de contestação corajosa, de honesta, muitas vezes “nauzeante” e fiel representação do real, com uma sensação renovada de enlevo, de sabedoria e de puro prazer estético.

  6. Ramon de Córdova disse:

    Na vida (o imaginário coletivo compõe a vida), há anjos tirando belíssimo som de suas flautas tranversais de ouro, mas há, também, o contraponto: a realidade crua, por exemplo, de uma bosta de cachorro no meio da calçada, ou quem sabe o cocô de um ser humano mesmo, o de um indigente talvez, ou o de um bem nascido sem a menor noção de espaço coletivo, ou, ainda, o de uma mulher grávida de 7 meses que, por força do início antecipado de seu trabalho de parto, perdeu o controle do esfíncter. Quer dizer, então, que a literatura tem que virar seus olhos necessariamente para os anjos, se maravilhar com o som extraido das flautas douradas, mas DEVE esquecer, ou mesmo ignorar, a existência do excremento na calçada? Existe censura na literatura? A literatura permanece sendo literatura quando passa a dar ouvidos à censura? Precisamos mesmo considerar a patrulha, que nunca esquece-se de se manifestar, e varrer o feio, o grotesco, o abjeto para fora do nosso texto? “Varrer a sujeira para baixo do tapete”. Expressão que aqui se transformaria em: pisar na bosta, mas fingir que a bosta não existe; que sequer fede. Viver é se surpreender. Mas é preciso, para se surpreender, dar-se o direito de realmente viver; encarar o pacote VIDA por completo! Qual é a surpresa ao nos concedermos o direito de olhar para o ‘feio’, e escarafunchar, e analisar, e compreender, e aceitar… o ‘feio’ e, por fim, descobrirmos que o feio, no seu âmago, pode vir a se revelar à nossa consciência – olha que ironia – essencialmente belo (sem demérito algum do escancaradamente e irrefutavelmente belo, claro). Bernardo Carvalho, amei o teu livro O Filho da Mãe! Estou ansioso para seguir desbravando a tua obra! E obrigado chamar à palavra o André Sant’Anna! Fiquei igualmente curioso com o seu trabalho.

  7. Daniel Abreu disse:

    Bom, eu tenho, e acho que sempre vou ter, a intenção de escrever “livros legais”, mas os meus eu tento fazer diferentes mesmo assim.
    No mais, no mais, acho que todo escritor, inclusive o André, no fundo também quer isso, mas cada um à sua maneira (nos melhores casos…).

  8. Flávio Leme disse:

    Honestamente (perdoem o tracadilho), nunca vi tanto fdp reunido num espaço tão pequeno. Literatura?! Tudo menos isso. E eu que estava brincando com a ideia de enviar um de meus originais para a Cia. Vou economizar alguns reais.

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