Marcas (tardias) da infância

Por Luiz Schwarcz


Maria Yedda Linhares (Foto por Marco Fernandes)

Outro dia pensei que nosso caminho na vida é feito mesmo de marcas que carregamos da infância, mas também de relações que criamos para substituir, ou repetir, o que na infância não tivemos — ou tivemos e gostamos tanto que queremos sempre reviver.

Num post de muito tempo atrás, mencionei cinco amigos que marcaram minha vida de editor: dois editores (Caio Graco e Jorge Zahar), dois escritores (Rubem Fonseca e Moacyr Scliar) e um jornalista (Paulo Francis). No fundo, chamá-los de amigos é pouco. Foram pais, principalmente os dois primeiros, ou irmãos (que nunca tive, e sempre quis ter). Embora na minha vida profissional eu tenha encontrado menos figuras maternas, outro dia lembrei de uma pessoa que no começo da minha carreira me adotou, me escolheu como um de seus protegidos, ao menos por um curto período de tempo.

Ao lembrar-me dela, perguntei a um amigo comum sobre seu paradeiro e soube que ela havia falecido no final do ano retrasado. Seu nome é Maria Yedda Linhares, uma grande historiadora que procurei com a cara e a coragem, quando, com menos de 25 anos, passei a editar minha primeira coleção — a Tudo é História na Editora Brasiliense.

Perdi o contato com Yedda há décadas, mas nunca me esqueci dela, do entusiasmo que dedicou a um pirralho que trabalhava de macacão jeans com a língua dos Rolling Stones costurada próxima ao coração. Yedda não deu bola para a minha idade, na verdade tive a vantagem de conversar com ela por telefone durante semanas antes do nosso primeiro encontro pessoal. Antes disso ela já me dedicava todo o tempo que eu pedia, indicando historiadores cariocas ou de outros estados, alguns contemporâneos, outros afilhados, alunos jovens como eu, cuja carreira nascia de sua generosidade de pensadora e agitadora profissional. A pauta da coleção saía em grande parte das minhas conversas telefônicas com Yedda e também com Francisco Iglésias, de quem falarei em outra ocasião. Tive imensa ajuda também em casa, já que a Lili acabara de se graduar em história na USP, e como sempre exercia sua enorme influência em tudo o que eu fazia.

Lembro vivamente do primeiro encontro pessoal com Yedda, acho que foi numa reunião da SBPC (a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, cujos encontros se transformaram em manifestos contra a ditadura vigente, e eram mais importantes para a Brasiliense do que qualquer feira de livros) no Rio. Fui encontrá-la com o Caio Graco, o que a emocionou especialmente. Maria Yedda esteve presa junto com o pai de Caio e, ao ver o filho, rememorou a chegada do grande historiador comunista, de família aristocrata — um ídolo da esquerda — na prisão em que ela já se encontrava. Falou como Caíto (apelido de Caio Prado Júnior) impressionou a todos pela postura impassível e nobre. Então comentou:

— Seu pai era um homem lindo. Entrando na prisão, então, mais lindo ainda.

Se me lembro bem, continuou com algumas interjeições sobre minha idade dizendo em altos brados algo assim:

— Caio, mas esse menino ainda é um bebê, um bebê!

Yedda nos apresentou alguns dos colaboradores que trouxera com entusiasmo para a minha coleção, num almoço que nunca esquecerei.

Sem ela eu não teria conseguido fazer a Tudo é História. Interessado no assunto, acabei não cursando a Faculdade de História da USP, onde fui admitido no mesmo ano que entrei na FGV. Meu conhecimento da matéria era parco, amador. Foi um bom aprendizado de como a carreira de editor não é mesmo uma carreira intelectual, mas que, bem exercida, depende tanto do apoio de verdadeiros intelectuais, como da honestidade e humildade do editor.

Anos e anos se passaram, eu nunca mais vi Maria Yedda, até saber na semana passada que ela faleceu recentemente. Ela deixou quase mais influência do que produção própria, mais filhos encarnados em alunos do que livros.

Além de Yedda, uma professora de ciência política da FGV teve influência e força protetora no começo da minha carreira intelectual, carreira que acabei abandonando em prol da vida de editor. Vanya Sant’anna acompanhou o momento em que eu pensei em ser um professor de sociologia, um misto de intelectual e pequeno livreiro, já que gostava demais de literatura além das ciências sociais (área na qual pretendia defender meu mestrado). Trabalhando na Brasilense pude trazê-la para meu lado, ao sugerir seu nome ao Caio para a coordenação da coleção Primeiros Passos. Vanya, assim como Yedda, deve ainda estar deixando filhos por todo lugar, pois essas mães totais vivem disto: de espalhar crias e de vê-las crescer. São mulheres com corações generosos, que abraçam e incluem as novas gerações. Espero que Vanya ao menos me leia neste blog, já que minha homenagem à Maria Yedda chegou tarde demais.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

3 Comentários

  1. Leonardo disse:

    Mesmo não tendo conhecido a mestre, não tem como deixar de sentir afeição por ela. Alguns professores do curso de História da UFRJ sempre falaram com enorme carinho dessa mulher, e foi feita uma homenagem a ela, no IFCS (hoje IH, também), com murais e belíssimos textos.

  2. Caro Luiz,
    A homenagem
    mesmo tardia
    afaga o coração.

    Meu Hai-kai para o seu blog.

    Abraços.

  3. Daniel Abreu disse:

    Impossível imaginar vc num macacão jeans. Nas fotos em que o vejo vc está sempre sobriamente vestido, de terno e gravata, etc. O macacão simplesmente não encaixa, rs…
    Mas pois é, vc desistiu de se firmar como intelectual. Humildade e praticidade, senso das coisas. Seriam características tão bem-vindas num intelectual, mas… será que vc as manteria, se não tivesse abandonado esse objetivo?

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