Pendurar a prancheta

Por Érico Assis


O texto chama-se Why I Quit (“porque eu parei”). O autor é Keno Don Rosa, um dos autores mais importantes dos quadrinhos Disney. Ele parou, no caso, de ser um dos autores mais importantes dos quadrinhos Disney. Para quem planeja carreira nos quadrinhos, ou em outras profissões criativas, “Why I Quit” é um alerta.

Ser autor importante dos quadrinhos Disney é para poucos. Por motivo simples: nem sempre se sabe quem são os autores. Durante décadas, as regras da casa proibiam que eles assinassem os trabalhos. Carl Barks (1901-2000), que passou quatro décadas envolvido com as HQs Disney, teve que ser localizado por fãs-detetives que reconheciam tramas e traços superiores nos gibis do Tio Patinhas (que ele criou) e família Donald.

Rosa teve a sorte de chegar na época em que os autores podiam assinar. Começou nos anos 80 declarando que era menos um profissional e mais fã de Barks tendo a chance de usar o playground do ídolo. Suas histórias fazem referência constante às barksianas e incluem a famosa Saga do Tio Patinhas — que junta todas as deixas desconexas sobre a origem do quaquilionário pão-duro e monta uma história coerente.

A importância de Rosa desembocou recentemente na Don Rosa Collection, publicada pela dinamarquesa Egmont. Luxuosíssima — o set dos nove volumes custa 525 euros —, a coleção reúne todas as HQs-pato de Rosa e traz de bônus um texto autobiográfico do autor. O último volume deveria trazer “Why I Quit” — mas a Disney não autorizou. Rosa, Egmont e Disney chegaram a um acordo: ok, o texto não sai na coleção, mas o último volume diz que o texto está online.

Rosa explica os motivos pelos quais pendurou a prancheta em ordem de importância crescente: porque trabalha desde os 15 e já está com 61; porque é workaholic; por ser obcecado em responder cartas, emails e pedidos de desenhos de fãs; porque teve depressão; por causa da miopia vitalícia, que degringolou em descolamento de retina há cinco anos; e, o motivo número 1, o que ele chama de “sistema dos quadrinhos Disney”.

Rosa diz que, ao fazer quadrinhos para as licenciadas da Disney, não tem nenhuma participação em republicações, lucros ou licenciamento de suas artes, inclusive para publicação no estrangeiro. Simplesmente recebeu pelas páginas que entregou e era isso. Nunca mais teve compensação pelas histórias reproduzidas inúmeras vezes em todo o mundo.

“Todo escritor, músico, ator, cantor, cartunista não-Disney, até quem estrela comercial de TV… todo mundo recebe royalties se for digno do sucesso. É normal até a própria Disney pagar royalties a autores e apresentadores nas áreas de cinema, TV, livros e música. Até onde eu sei, e me corrijam se estiver enganado, só os autores de quadrinhos Disney não têm chance de receber fatia dos lucros relativos ao sucesso do que criaram.”

Até aí tudo bem: Rosa sempre esteve ciente de seu contrato. O problema surgiu quando os fãs na Europa começaram a presumir que ele era milionário. “Achavam que quando eu ia fazer uma sessão de autógrafos, daqueles livrões europeus de 30 euros, que a livraria me repassava pelo menos uns 5 por exemplar! Opa! Nunca quis ficar rico com o emprego que eu amo. Mas fiquei bem incomodado quando descobri que todo mundo presumia que eu estava levando um absurdo nos royalties. Eles não imaginavam que um sistema desses ainda existisse nos dias de hoje (ou que um autor/artista seria imbecil a ponto de participar do sistema). Comecei a me considerar um panaca internacional.”

Rosa adotou uma estratégia jurídica peculiar: já que muitas HQs estavam promovendo seu nome como argumento de venda, ele registrou seu próprio nome na Europa e na América do Sul. A partir daí, toda editora que quisesse vender quadrinhos Disney destacando o nome “Don Rosa” teria que pedir autorização a ele e pagar uma pequena taxa (que ele diz ser metade do que o agente recomenda). Poucas concordaram.

“Elas só precisam pedir. Mas não pedem. Acho que se recusam a pedir permissão a um dos artistas ou escritores cuja obra eles sempre usaram a seu bel prazer. E não iam começar a ter respeito depois de 60 ou 70 anos. Nunca me perguntaram o que eu ia querer em troca, provavelmente presumindo que eu exigiria um monte de royalties sobre as vendas… na verdade, eu só queria controle de qualidade e alguns requisitos autorais.”

Rosa tenta explicar que não tem amargura nem rancor. Diz que tem todo dinheiro que precisa, uma coleção bem preservada de 40 mil gibis, e que ocupa sua aposentadoria cuidando da fazenda de 10 hectares onde mora. Há uma planta da sua propriedade no final de “Why I Quit”.

Embora as editoras de quadrinhos dos grandes mercados atualmente trabalhem com sistema de royalties (que só valem para ótimo desempenho de vendas, o que é uma fração do mercado), quase todos os seus profissionais são free-lancers que não têm muita segurança quanto ao futuro financeiro. Só nos EUA, são incontáveis histórias de quadrinistas na terceira idade que morreram na miséria ou que recorreram a processar a antiga editora — geralmente sem êxito. Se você não foi um cara com tino comercial (Bob Kane), nem deu sorte ao impor suas condições (Will Eisner), nem era amiguinho do alto escalão (Stan Lee), acabou um gênio gerador de receita para editoras, mas nunca para si.

“Agradeço ao meu olho esquerdo por tomar essa decisão por mim”, diz Rosa quanto à saída do mercado. “Agradeço a Carl Barks por criar os gibis que eu tanto amei e que me levaram, por acaso, a fazer esse trabalho abençoado de homenageá-lo ao longo de 20 anos. E agradeço a vocês pela generosidade com que receberam meu trabalho e fizeram eu me sentir uma pessoa especial… até minha disposição se acabar. Agora, se me dão licença… Acho que vou voltar a ser fã.”

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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6 Comentários

  1. Cleilson ZAZ disse:

    Alguém mais pensou no Mauricio de Sousa? Ele paga royalties aos autores? E os que tiveram suas historias transformadas em desenhos animados? E quem cria coadjuvantes? Isso poderia ser tema de materia um dia, mas e cadê gente com coragem no mercado de HQ pra se indispor com os maiorais?

  2. WildBill disse:

    Olhemos para o nosso próprio umbigo brasileiro…e certamente veremos MuitoSexemplos.

  3. Ernani ssó disse:

    Érico, você naturalmente conhece a história do Canini. Daria outra boa postagem.

  4. Qfwfq disse:

    Então se foi o último que prestava nos quadrinhos disney.

  5. Tuca disse:

    E pensar que Fracasso de Público, de Alex Robinson, não estava distante da realidade…

  6. Ramon de Córdova disse:

    Que história! A Disney nunca foi merecedora da minha simpatia. Sabendo disso, então!

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