Síndrome de Cerebus (Uma carta para Tony Bellotto)

Por André Conti

 

Tony,

Viu só que ficamos sem Papa? Você acorda um dia e o papa foi lá e renunciou, nada mais é sagrado mesmo. Fiquei pensando no que o sujeito pode fazer depois de se aposentar do sumo pontifício. Algum esporte? Uma banda cover dos Beach Boys? É engraçado porque de alguma forma o Bento foi o nosso papa. O Paulo II sempre esteve lá, ou pelo menos era o que parecia, enquanto o Bento a gente viu ser eleito e tudo. Eu nem sabia que eles podiam renunciar, mas enfim, não habemus papa.

Não sou católico nem nada, e meu papa favorito ainda é o Cerebus, personagem da saga em quadrinhos do Dave Sim. Se você não conhece, te recomendo sem reservas, pelo menos esse capítulo, que se chama Church and State. É sobre um porco-da-terra antropomorfo que precisa de uma permissão do presidente para se divorciar, e ele acaba sendo usado nas maquinações do Poder até se tornar líder da Igreja. É, curiosamente, uma história sobre renúncia, e a melhor coisa que o Dave Sim fez nos quase trinta anos de Cerebus. Quando terminou a saga, em 2004, o autor tinha passado por uma conversão religiosa extrema e se isolado de seus pares. Na última vez que vi, ele estava num fórum de internet fazendo um estudo verso a verso do Apocalipse. Mas enfim.

Imagino que seja esquisito trocar assim de editor, ainda mais durante a publicação de um livro. Quer dizer, não durante, porque a Marta já tinha trabalhado com você no Machu Picchu e eu só cheguei nos finalmentes. Também não estou fazendo nenhuma comparação absurda entre troca de editores e sucessão papal, veja bem. Mas achei coincidência ler a notícia sobre o velho Bento quando trabalhava aqui na orelha do teu livro. Porque a primeira coisa que me veio à mente enquanto escrevia foi bem essa história em que o porco-da-terra vira papa. Eu demorei um pouco para engatar no Cerebus. O volume um é uma paródia do Conan, cheia de ideias boas (ele usa a expressão “Pelas barbas de Clóvis”), mas meio cansativa. O segundo volume, High Society, já entra mais no tom geral da saga, só que também é todo paródico. No Church and State o livro dá uma virada. Personagens que eram bidimensionais — uma piscadela para a plateia ou uma piada em cima de algum desafeto do Dave Sim — vão se tornando progressivamente mais complexos e interessantes. De repente, todo mundo tem uma história a contar, e nenhum deles é o que você imaginava.

Com o tempo, isso se tornou um dos motes da série, em graus variados de acerto (assim como tudo em Cerebus, essa operação foi levada às últimas consequências, nem sempre com bons resultados). Os fãs cunharam a expressão “síndrome de Cerebus”, que hoje é usada para designar personagens ou histórias enganosamente simples que ganham uma nova estatura conforme a trama se desenrola. E acho que foi isso que você conseguiu no livro novo. Os protagonistas, que começam como uma paródia da classe média alta, ganham outra dimensão ao longo do romance. Assim, o que podia ser uma piada fácil com um alvo fácil passa a ter outro tipo de graça, mais interessante, a meu ver. Claro que o primeiro risco nesse caso é justo perder a graça, e até por isso não é algo simples de se conseguir. Gostei do Machu Picchu porque ele continua engraçado mesmo quando o jogo vira e o leitor percebe que você não está exatamente sacaneando aquelas pessoas, mas tirando humor de algo muito mais próximo a todos nós.

E, pensando na trama, acho que podemos nos beneficiar de uma ausência temporária de liderança no trono de São Pedro. Estão dizendo que o novo papa só sai na Páscoa, e até lá o livro estará seguramente nas ruas.

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André Conti é editor da Companhia das Letras.

4 Comentários

  1. […] Síndrome de Cerebus (Uma carta para Tony Bellotto) […]

  2. hum… afinal o papa é humano, ou não é?!

  3. Daniel Abreu disse:

    Plenamente identificado com a coisa do João Paulo II sempre estar lá, e o Bento XVI ser aquele que vimos desde o começo.
    Com a saída do Bento XVI não senti nenhuma emoção especial, mas, engraçado, e acho que cabe aqui dizer: quando o Kofi Annan deixou o cargo de secretário-geral da ONU fiquei abalado. Parecia que um mundo se ia, e outro começava. Para mim Annan sempre estivera lá…
    Inominável sensação do Tempo.
    Abraço.

  4. Até a Páscoa? Boas novas! O que não me canso de reler, ao menos uma vez por ano, uma ou outra história, é “BR 163”. Nem só porque vivo em Dourados, Mato Grosso DO SUL, onde uma parte da trama se desenrola, mas pela forma como Tony consegue prender nossa atenção. Que venha “Machu Picchu”!

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