A verdadeira história da letra O

Por Noemi Jaffe

Alfabetos dibujados

Em A verdadeira história do alfabeto, Noemi Jaffe mistura ficção e história, verdade e imaginação, para narrar o surgimento de todas as letras e alguns verbetes do dicionário. O texto a seguir é um extra criado pela autora especialmente para o blog.

A palavra alfabeto — isso muita gente sabe — vem das letras gregas alfa e beta. O que não é tão sabido é que essas mesmas letras gregas vêm do hebraico, aleph e bet. Essas duas letras, por sua vez, no hebraico, antes de serem representações fonéticas e, portanto, abstratas, foram espécies de pictogramas das ideias de chifre — ou, metonimicamente, de boi — e de casa, que, em hebraico, se dizem alef e bait, respectivamente. Boi e casa eram os bens mais significativos da antiguidade — e talvez ainda sejam —, além de serem os mais tematizados, naquela época, durante a prática da comunicação. Uma comunicação que era bastante restrita e contextualizada, dada a pouca quantidade de sinais e a dificuldade, segundo dizem (embora pessoalmente duvide), de criar grandes abstrações, conceitos e categorias antes da invenção do alfabeto fonológico. Duvido da ideia de que os antigos eram menos capazes do que nós, modernos, de pensar abstratamente, quando me dou conta de que cada letra de cada alfabeto já contém, em si mesma, uma história. E acho que a ausência de correspondência fonológica acaba por favorecer a invenção de múltiplas possibilidades e interpretações fabulares, mitológicas, pessoais. Como é possível olhar para a letra O, por exemplo, e pensar, como dizem os linguistas, que ela é somente um sinal arbitrário, convencional? Não é óbvio (ÓbviO) que ela corresponde, completamente, à representação do globo, da unidade e, por extensão, do ovo? Como alguém pode achar que é à toa que a palavra ovo seja um palíndromo perfeito, composto justamente por dois Os, no começo e no fim? É por isso que a história de Yeba Buro é a verdadeira história da letra O e da palavra ovo, que na verdade são uma e a mesma coisa. Antes que o mundo existisse, Yeba Buro era a avó do mundo, assim como todas as avós o são antes que sequer se pense na ideia de netos. Acontece que Yeba Buro era a avó do mundo, mas o mundo, o mundo mesmo, esse ainda não existia. Como ela era sua avó e todas as avós querem cuidar de seus netos, ela precisava criá-lo. Para ajudá-la nessa tarefa sumamente difícil, ela convocou os trovões Dihiputiro-Porã, Baaribó, Goamu, Yugupó e o último, Uiawu, que ficou com o encargo mais complexo de todos: criar a humanidade. Uiawu, temeroso diante da enormidade da tarefa que lhe cabia, e sendo ele o mais inocente dos trovões, assustou-se e não conseguiu executá-la. Não era esperto o suficiente. Mas teve uma ideia — e as ideias, como todos sabemos até hoje, muitas vezes valem mais do que uma magia, uma invenção, um truque, um malabarismo, uma máquina, uma coisa. Sua ideia foi criar um objeto elíptico, de casca branca e fina, de onde sairiam os bisnetos Yeba Goamu e Umukomashu Boreka. Saindo de lá, os bisnetos seriam capazes, por sua juventude e frescor, de criar a humanidade, aqueles que enfim seriam os netos de Yeba Buro. Yeba Buro regozijou-se diante da ideia de Uiawu, abraçou-o e, juntos, os dois criaram a letra O e a palavra ovo — que, naquela época, era a mesma coisa que inventar a coisa ovo —, e de lá surgiu o que hoje se conhece como os homens e as mulheres, as crianças e os velhos e todas as raças, tipos e modos de pessoas. Com a mesma letra, mais tarde, essas mesmas pessoas criaram outras palavras quase tão importantes como ovo. Por exemplo, ontem, osso e ouro. E essa, sem dúvida, é só mais uma prova de que, na antiguidade, os humanos criaram, além de mitos e histórias, também as letras e as palavras que utilizamos até os dias de hoje, iludidos de termos sido nós os seus inventores.

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Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutorou-se em literatura brasileira pela USP e atualmente é professora da PUC-SP. Seu livro mais recente, A verdadeira história do alfabeto, foi lançado pela Companhia das Letras em outubro de 2012.
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Bate-papo com Noemi Jaffe no Rio de Janeiro
Quinta-feira, 21 de Março, às 19h
Bate-papo com Noemi Jaffe e Antonio Cícero, seguido de sessão de autógrafos dos livros A verdadeira história do alfabeto e O que os cegos estão sonhando?, de Noemi Jaffe.
19h – Bate papo e leituras
20h30 – Sessão de autógrafos
Local: Livraria da Travessa – Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Rio de Janeiro, RJ

5 Comentários

  1. A verdadeira história da letra O « Blog da Companhia das Letras

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  3. Ramon de Córdova disse:

    Gostei da figura anunciativa do texto, gostei muito da coluna propriamente dita e já posso antever que amarei o livro! Peixe muito bem vendido!
    Aliás, a letra P, intuo, só pode ter nascido da ideia de peixe, sendo o ‘P’ representativo da cabeça e do corpo do animal, ficando para o ‘eixe’ apenas a calda do bicho. ;)

  4. Etimologia por si só já é algo interessante, e ficou ainda melhor misturado com um pouco de história e fantasia. Muito legal essa ideia.

  5. E o engraçado, Noemi, é que teu livro chegou aqui em casa essa semana – e é ótimo ter uma prévia do que ele representa. Fico grata por isso.
    Abraços.

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