As gavetas francesas estão cheias

Por Carol Bensimon

Shakespeare & Co Bookshop Paris

Estou voltando da França, então vou falar uma coisa ou outra sobre como vai a literatura naquele país. A primeira delas, que não passava de uma notinha na página 116 da revista Les Inrockuptibles com o David Bowie na capa: segundo uma recente pesquisa promovida pelo Ifop (Institut Français d’Opinion Publique), 17% dos franceses têm um manuscrito em suas gavetas. Dezessete! Há provavelmente mais aspirantes a escritores na França do que vegetarianos, tenistas amadores ou católicos praticantes. Na outra ponta da cadeia, no entanto, a degringolada é evidente: entre 2010 e 2012, o tempo médio de leitura do francês diminuiu meia hora semanal.

Revista do aeroporto Charles de Gaulle. Além de indicar um monte de lugares parisienses “essenciais” onde eu não ousaria entrar sem uma conta em um paraíso fiscal, ou ao menos, sei lá, tendo experimentado caviar alguma vez na vida ou um vinho cuja garrafa custou três dígitos de euro, há uma matéria interessante sobre ser escritor na capital hoje (você me bate se eu usar o termo Cidade Luz alguma vez durante esse texto, combinado?). Uma foto-montagem de Frédéric Beigbeder, Françoise Sagan e Marcel Proust chama para o texto que discorre sobre o fascínio que a cidade exerceu em gênios locais bem como nos expatriados por décadas e décadas, até finalmente chegar aos áridos dias atuais. Corrijam-me se eu estiver enganada, mas acho que o hoje é sempre desprovido de qualquer tinta romântica, certo? Bem, de qualquer maneira, as notícias não são todas ruins. Paris pode se gabar, por exemplo, de ser uma cidade com cerca de 700 livrarias, o que significa aproximadamente uma para cada 4.000 habitantes. Não creio que fique melhor que isso em nenhuma parte do mundo.

Mais números? Os escritores sortudos e talentosos o suficiente que realizam o feito de ganhar o Goncourt, o prêmio literário mais importante do país, podem contar com uma venda de mais ou menos 400.000 exemplares do livro contemplado. E, por mais contraditório que possa parecer, a mesma matéria diz, en passant, que menos de cinquenta romancistas franceses podem viver hoje apenas de direito autoral. Admito que tive de voltar a essa frase algumas vezes. Se não na França, onde? Amigos, estamos todos ralados.

No mais, livros continuam aparecendo nas manchetes da semana (a polêmica da vez chama-se Belle et Bête, uma ficcionalização sensacionalista da vida privada de Dominique Strauss-Kahn); capas seguem em sua maioria sendo feias ou muito feias, com o uso aleatório de pinturas de Klimt ou Edward Hopper, mas a campeã de todas tem de ser essa daqui; em um pequeno balneário no Mediterrâneo, senhoras discutem no café em frente ao porto sobre os livros que gostam de ler. Uma delas, com ares de quem fez grande descoberta, lança à proprietária do café: “há bons livros dos quais a gente não ouve falar. Eles não fazem publicidade.”

Então tá.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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13 Comentários

  1. Lilia Pereira disse:

    Oi,Carol. Sabes que aqui no Brasil aquele livro da capa super tenebrosa saiu com uma arte bem interessante? A leitura também foi muito legal (a personagem principal dá grandes voltas em estudos e filosofias). Gosto muito de tuas escritas! Abração pra ti! Lilia.

  2. Laura Guerim disse:

    Sempre que falam em Paris ou da inteligência dos parisienses ou de como a cidade inspira grandes ideias, lembro do livro “A Elegância do Ouriço”, da Muriel Barbery. Imagino que tu já tenha lido esse, mas se não leu deveria!!! E quando sai Faíscas?! Se for metade do que foi Sinuca já vai ser ótimo!!! Beijo grande!!!

  3. Carol,

    você proseou de maneira bem legal e seu texto pode alimentar ou fomentar várias discussões do tipo “por que escrever?” ou “onde este mundo vai parar?” ou “o livro vai acabar?” ou “se não em Pais, onde?” entre outras. Mas capturar a fala da senhorinha no café literário suspende tudo que vem antes e deixa aquele ar de texto que ficar reverberando na gente. Muito bom! É o sabor da confluência leitor + texto. Soma-se isso à livraria e ao seu sorriso na foto…vixi arre!

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