Atividades sórdidas e desprezíveis (3)

Por Érico Assis


Quadrinhos sendo queimados após a investigação do Senado que contou com depoimento de Fredric Wertham

[As partes 1 e 2 de “Atividades sórdidas e desprezíveis” foram publicadas no Blog em 2011.]

Já falei algumas vezes por aqui sobre Fredric Wertham. Wertham foi o psiquiatra que escreveu A Sedução do Inocente, livro que fez explodir a perseguição aos quadrinhos nos EUA dos anos 1950. Quando pais, professores, padres e políticos já desconfiavam que os gibis estavam confundindo os miolos das pobres criancinhas e induzindo-as à delinquência, o livro de Wertham trouxe comprovação científica, baseada em sua extensa experiência profissional com o público juvenil.

Com base em relatos que colheu principalmente na sua clínica psiquiátrica para público de baixa renda no Harlem (NY), Wertham falou que os quadrinhos não conduziam somente à delinquência — resultado das cenas violentas que os meninos viam nos gibis policiais —, mas também à pederastia (Batman e Robin), distúrbios de identidade sexual (o bondage em Mulher-Maravilha) e tendências fascistas. Para comprovar, tinha falas de meninos e meninas perturbados e sua autoridade médica. Virou best-seller.

A relação entre quadrinhos e delinquência foi motivo de investigação no Senado dos EUA, as editoras viram-se obrigadas a criar um Código de Ética para proibir conteúdo discutível nas HQs (antes que a censura viesse do governo) e, de repente, ter emprego na indústria de quadrinhos era pior que ser lobista da NRA depois de tiroteio em colégio. Quase mil roteiristas, desenhistas, editores e outros abandonaram a carreira, o mercado veio abaixo e até hoje os pais, professores, padres e políticos erguem a sobrancelha para tudo que crianças leem, assistem, ouvem, jogam e, enfim, curtem.

Para os quadrinhos, Wertham foi o pior dos vilões. Mas, até o mês passado, não se sabia o quanto.

Carol Tilley, professora da University of Illinois, publicou um artigo revelador. Segundo sua pesquisa nos documentos do próprio Wertham (falecido em 1981), o psiquiatra manipulou os dados que colheu na sua clínica e apresentou em A Sedução do Inocente. Comparando as anotações do próprio ao que está no livro, Tilley descobriu que Wertham misturou depoimentos, atribuiu falas de um entrevistado a vários e de vários a um, falou de casos de outros médicos como se fossem seus e deu uma exagerada nos números.

O menino que queria ser Robin e “ter relações com Batman”, citado no livro, eram dois jovens de 16 e 17 anos, namorados, que falavam em Tarzan e Príncipe Submarino, nunca na dupla dinâmica. Outro paciente citado no livro, suposto fã de Batman que mijara na boca de outro menino, aparece nas anotações como fã de Superman que comete o ato por vingança — o mijado havia sido seu estuprador.

Um garoto de quinze anos, já desencaminhado e membro de uma gangue, aparece em páginas e páginas de anotações. Suas falas foram parar na boca de quatro personagens no livro. Wertham diz, em Sedução e em seu depoimento ao Senado, que analisou milhares de meninos e meninas, ao passo de 500 por ano — mas sua clínica só registra 500 pacientes com menos de 17 nos dez anos em que trabalhou lá.

Talvez as descobertas mais marcantes sejam as que fecham com teorias contemporâneas sobre mídia e comportamento juvenil: nos depoimentos do livro em que adolescentes dizem que imitaram algo visto num gibi, Wertham ignora que os entrevistados tinham, em alguns casos, deficiência cognitiva e que vinham de famílias com casos de dependência química ou envolvimento com gângsters, além de outros fatores de risco. Sua amostragem, no Harlem pobre dos anos 40 e 50, é apresentada como válida para todo tipo de adolescente.

Há décadas de pesquisas em comunicação, psicologia e sociologia que desmontam a causalidade entre mídia e comportamento — até antes de Wertham. Os gibis de terror, os games com heróis carniceiros e as músicas moralmente questionáveis só vão causar distúrbios na mente influenciada por um ambiente real em que exista predisposição à violência, à indiferença, à deturpação de valores. Mundos de ficção nunca terão o mesmo impacto que a vivência no mundo concreto, do adolescente com sua família, seus amigos, sua condição socioeconômica. Gibis, filmes, games etc. podem no máximo catalisar um impulso que já existe.

Wertham era um reformista social, legitimamente preocupado com a saúde mental dos jovens. Pegou o monstro que estava mais à vista — 90% dos jovens liam gibis — e, ao descobrir que o monstro não era tão feio, resolveu pintar garras, sangue e sexo sobre ele. Faz pensar em quantos monstros pintados, pesquisados e comprovados não andam por aí.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

6 Comentários

  1. efigueroa disse:

    Isso aí é o mesmo que está acontecendo hoje com os videojogos. Pessoas ignorantes se baiseiam nos jogos populares de guerra, sem saber que existem muitas verdadeiras obras de arte que não incitam à violencia. Te muitos, muitos, muitos exemplos de videojogos muito bonitos que divertem à vez que ensinam alguma coisa. E mesmo que o jogo fosse violento, tem muitas mais pessoas que usam e nào pegam arma para fazer tiroteio do que pessoas que perdem a cabeça. E duvido muito que essas pessoas que sim perdem a cabeça o fazam por causa do que viram num videojogo. É triste o que aconteceu com os gibis, mas é uma boa lecao para não repetir.

  2. Vitor Rebello disse:

    O problema maior, Rogério, surge quando pseudo-especialistas resolvem escrever sobre o que desconhecem. É meio que inconcebível achar Werthan ultrajante, pois tal ignorância não é exclusividade dele, isso está cada vez mais entre nós; talvez só enxergaremos as censuras atuais, décadas a frente quando nossos filhos/netos estiverem lutando com outros monstros inventados por novos ‘especialistas’

  3. Rodrigo Borges de Faveri disse:

    Postei o seguinte comentário no grupo Mulheres em Quadrinhos de Paula Mastroberti no Facebook:

    O documentarista Robert A. Emmons, Jr. esta realizando um documentário que projeta nova luz sobre a “Questão Wertham”. A última atualização dos desenvolvimentos do filme pode ser visto aqui:

    http://sequart.org/magazine/19439/diagram-for-delinquents-update-29-i-want-you-to-suffer-more-and-more-and-more-and-more/#comment-1450

    Li apenas o abstract do artigo de Carol Tilley, mas mesmo trazendo ela novas evidencias para o método de trabalho do Wertham, tenho a impressão que ela fornece mais do mesmo, isto é, a demonização da figura do Wertham. Não estou dizendo que ele não fez o que fez, e preciso antes ler o artigo da Tilley para poder ter uma avaliação mais precisa, porém há uma série de figuras tão ou mais importantes do que o Wertham envolvidos neste processo que culminou no Comics Code. O livro “Homens do Amanhã” de Gerard Jones (Conrad) também traz alguma novidade sobre o caso Wertham, principalmente em relação ao papel de Bill Gaines (o então presidente da EC Comics). A proposta de Emmons, Jr. em seu documentário é mostrar justamente que a história é um pouco mais complexa do que se faz parecer quando se aponta o dedo para a figura do Wertham.

  4. rogério disse:

    Fredric Werthan, psiquiatra, causou a demissão de 1000 quadrinistas.
    Isso me faz pensar no quanto é perigoso a palavra de especialistas quando usam sua ciência com má intenção.

  5. Lula Carneiro disse:

    Ao ler o post, me lembrei do livro do Grant Morrison, “Supergods”. Na parte que trata dos anos 50/60, ele dá vários exemplos de histórias que, para se adequar ao código, acabavam descrevendo relações humanas muito mais pervertidas e confusas do que os quadrinhistas das décadas anteriores poderiam imaginar!

Deixe seu comentário...





*