Entrevista com Sérgio Sant’Anna

Após ter respondido as questões enviadas por Bernardo Carvalho, perguntamos a André Sant’Anna quem ele gostaria de entrevistar. A resposta veio rápido: “meu pai, tenho mesmo umas perguntas pra fazer pra ele”.

Sérgio Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. Iniciou sua carreira de escritor em 1969, com os contos de O sobrevivente, livro que o levou a participar do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Teve obras traduzidas para o alemão e o italiano e adaptadas para o cinema. Recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti, a mais recente pelos contos de O voo da madrugada (2003), que recebeu também o prêmio APCA e o segundo lugar no prêmio Portugal Telecom de literatura. Seu livro mais recente é Páginas sem glória, lançado em 2012 pela Companhia das Letras.

Leia abaixo a entrevista feita por André Sant’Anna. A próxima trará a escritora escolhida por Sérgio, Ana Miranda.

AS: O que mudou para melhor e para pior entre o “jovem contista mineiro” e o “escritor consagrado, premiado, autor de XX (quantos são?) livros”?
SS: O que mudou para melhor no escritor atual foi um pouco mais de técnica, sem abdicar da invenção. O que mudou para pior foi sentir que já gastei um bom pedaço do meu estoque literário. E também uma certa irresponsabillidade que perdi, de livros como Confissões de RalfoSimulacros. Já o mais sério e pior dos meus livros foi o primeiro: O sobrevivente.

AS: Se você não fosse escritor, há alguma outra arte a qual você se dedicaria? Por quê?
SS: Eu me dedicaria às artes plásticas se tivesse talento para elas. A razão principal para isso é que as artes plásticas são (ou pelo menos foram) as mais revolucionárias das artes. Mas aí penso em Joyce e vejo que minha colocação foi precipitada. Aliás já falei (não sei se repetindo alguém) na literatura cubista de Joyce.

AS: De tudo o que já publicou, há algo que você hoje eliminaria de sua obra? O que e por quê?
SS: Eu eliminaria alguns contos, como quase todos os de O sobrevivente e, por exemplo, em grande parte, Adeus, incluído em Breve história do espírito.

AS: De onde vêm as opiniões críticas sobre seu trabalho que realmente interessam a você?
SS: As opiniões críticas que me interessaram, desde o princípio, foram do poeta Affonso Ávila. Também fico feliz quando Flora Sussekind escreve alguma coisa boa a meu respeito. E a sua opinião, André, sempre me interessou muito, pelo que existe de novo e corajoso no seu trabalho e suas ideias.

AS: Você gosta de escrever?
SS: Minha relação com a literatura é de amor e ódio.

AS: O que a literatura trouxe de melhor em sua vida? E de pior?
SS: O que a literatura trouxe de melhor em minha vida foi o reconhecimento de pessoas cujas ideias e  sensibilidades me interessaram, como, por exemplo, o Osman Lins, logo que comecei a escrever.

AS: Quais são suas principais fontes de ideias para as coisas que escreve?
SS: As ideias vêm de toda parte, mas muito da música, teatro e artes plásticas de vanguarda, mesmo que o meu trabalho vá sair completamente diferente de suas fontes de inspiração. Mas o futebol, por exemplo, tenho certeza que inspirou trabalhos bem inspirados meus.

AS: Dos livros que leu, quais foram os mais importantes em sua vida? E os que mais influenciaram a sua literatura?
SS: Li muitos livros e não me sinto em condições de responder a essas perguntas. Mas leituras recentíssimas foram importantíssimas em minha vida: César Aira e Evando Nascimento. Isso na prosa, pois na poesia a obra dos concretistas me marcou, incluindo aí o neoconcreto Affonso Ávila. O que mais influenciou minha literatura, para não dizer minha própria fruição artística, não foi um livro mas um “retard en verre”: “La marié mise a nu par ses célibataires même.”

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Trecho de “Páginas sem glória”, do livro de mesmo nome:

Beleza pura também tem função? A arte deve ser aplicada? A esfera é a mais perfeita das formas? O gol bonito junta o útil ao agradável? (Já o gol de pênalti costuma ser apenas útil, a não ser quando o cobrador joga o goleiro para um lado e a bola de mansinho no outro canto, às vezes na trave ou para fora.) Mas útil exatamente para quê? Ganhar ou perder faz diferença diante da morte? Quem se recorda de que o time do Fluminense foi campeão em 1951 e 1959, a não ser aqueles coroas de bermudas nas arquibancadas, ou cadeiras, que são capazes de desfiar os times campeões do goleiro ao ponta‑esquerda (Castilho, Jair Marinho, Pinheiro e Altair…) mas não se recordam de onde deixaram estacionado o carro nos arredores do Maracanã? O passado existe? Perguntas são mais sábias do que respostas? Tudo isso a propósito do Zé Augusto, o Conde, com o qual ninguém se daria o trabalho de gastar algumas páginas, a não ser este cronista do supérfluo e passageiro, do arabesco, quase, como um passe lateral rolado com efeito pelo mero efeito, só captado pelas câmeras do jornal cinematográfico, que nem existe mais, assim como o ponta‑esquerda fixo. Mas Garrincha fazia as duas coisas, poderão retrucar: o drible desmoralizador para o prazer da arquibancada e o passe na medida para ganhar o jogo. Garrincha morreu mal, mas entrou na história. Já o Zé Augusto não se sabe nem se morreu.

Adianta alguma coisa “sair da vida para entrar na história”? Ou terá Getúlio Vargas, o autor da frase, só que na primeira pessoa, fruído a eternidade de um momento pleno em seu último lance político perfeito e irretocável? Deu Getúlio sua famosa risadinha diante dos problemas que deixava para os adversários, antes de disparar o tiro no coração, coisa de profissional? Fumou seu inseparável charuto enquanto arquitetava?

4 Comentários

  1. […] última entrevista que publicamos aqui no blog, André Sant’Anna conversou com seu pai, Sérgio Sant’Anna. Para continuar o projeto, Sérgio escolheu entrevistar a escritora Ana […]

  2. Regina disse:

    Conheci o Sergio Sant’Anna em Iowa, quando ele participou do International Writing Program, em Iowa City. Ele era então um rapazinho tímido, que ficava escrevendo enquanto outros escritores, de diversos países, saíam para se distrair… Acompanhei sua carreira literária até um certo ponto e sempre admirei sua capacidade de superar-se, a cada nova obra publicada. Gostei desta entrevista. Fez com que o visse, agora de ~viva voz~, como um escritor consciente de sua trajetória literária e reconhecendo suas dívidas com os elementos que impulsionam sua escrita. – Regina Igel

  3. Dá para perceber a inclinação pelas artes plásticas nos livros do Sérgio. Em O Livro de Praga existe um capítulo (ou conto?) inteiro dedicado a uma estátua e todos os sentimentos que provoca no narrador. Aliás, como um todo, O Livro de Praga é um ode a perversão e ao fetichismo com às artes.

    Quanto a sinceridade de já ter gasto sua literatura, não gostei. Tem mais fôlego do que ele mesmo pensa.

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