O amor acaba

Paulo Mendes Campos (1922-1991) foi um dos maiores cronistas brasileiros, um verdadeiro clássico do texto leve e inteligente, fluido e sábio. Mas também foi um fino ensaísta, observador atilado dos nossos costumes, leitor dos melhores livros em diversos idiomas, poeta que merece ser descoberto.

A partir de abril a Companhia das Letras começa a reeditar sua obra, a começar por O amor acaba e O mais estranho dos países, que chegam às livrarias dia 4 de abril. Com projeto gráfico que recupera a linguagem arrojada de suas edições da década de 1960, os títulos do escritor mineiro ganharão novo fôlego e o farão ocupar o lugar que sempre mereceu: o daqueles autores que, sem abdicar por um segundo do prazer da leitura, nos ajudam a entender o Brasil — e a nós mesmos.

Para comemorar este lançamento, pedimos a alguns autores contemporâneos que escrevessem crônicas no estilo de Paulo Mendes Campos. A primeira, por Vanessa Barbara, você confere abaixo. Na próxima quarta-feira teremos também aqui no blog textos de João Paulo Cuenca e Sérgio Rodrigues.

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As coisas que restam – Por Vanessa Barbara

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Aprender uma coreografia nova de sapateado que envolva pausas dramáticas e movimentos excêntricos com o calcanhar; passar a noite comendo sequilhos; ir ao cinema ver o mesmo filme pela quinta vez só para decorar as falas da voz em off; pesquisar sobre rastros de lesmas e recitar as informações obtidas para um desconhecido numa festa barulhenta; andar na rua como se fosse um enviado secreto do governo da Rússia, um pirata ou um viajante no tempo.

Às vezes perdemos coisas importantes na vida e um conjunto de lápis de cor é o que nos resta; a decisão de pintar as janelas; de nos concentrarmos em campeonatos de mímica; de bater coisas no liquidificador e olhar debaixo da cama só para ver se tem gente. Pessoas vão embora e, na partilha extrajudicial, ficamos com os restos.

O que geralmente nos resta é cantar músicas com os olhos fechados, chacoalhando a cabeça feito um Ray Charles; comprar o próprio peso em palavras cruzadas; praticar o pingue-pongue com estranhos num domingo à tarde e competir como se a vida dependesse disso. Resta é cuidar das plantas, cultivar tomates e manter na sala uma bola gigante de plástico; passar a noite no telhado examinando o céu e aguardando impacientemente a explosão da Eta Carinae; arrumar as gavetas; jogar fora coisas importantes; contar piadas ruins e aprender uma língua morta.

São coisas que nos salvam quando nada mais parece existir: ler um romance russo numa única madrugada e se afeiçoar ao mocinho; consertar um relógio de ponteiros; escrever uma carta; fingir que acabou a luz. Levar um tombo de bicicleta e se ralar inteiro; conversar com estátuas; convidar alguém para tomar chá com sucrilhos.

Resta girar muito rápido enquanto se dança e perder o equilíbrio; espirrar e perder o equilíbrio; dar risada e perder o equilíbrio; viver tropeçando; ter uma crise de soluços. Repetir o swing out até ficar com enjoo; fazer a segunda voz das músicas; fingir que a vida é um musical da Broadway e conversar com o taxista cantando; tomar sol com as tartarugas; vestir uma roupa excêntrica; atualizar as vacinas; correr para pegar o ônibus.

São coisas que nos restam: o vazio, a raiva e a tristeza, mas também os chinelos de pano, as pessoas que tocam tuba, as luzes coloridas, o sorvete de manga e os velhinhos ao sol. Restam-nos as noites de rockabilly, as crianças vestidas de Batman, as piscinas aquecidas, os amigos de infância e o centro histórico de Macau − isso sem falar numa barraca de rua que só vende pijamas de flanela.

Restam, enfim, o amarelo, o azul e o umami, os filmes tolos dos anos 40, as Olimpíadas, o vento, o suco de maçã. Amigos que gostam de mágica, astronomia, pôquer, carpintaria, triatlo, futebol americano e que estão sempre para operar o joelho. As lojas de R$1,99, os jardins, os telescópios e as viagens com escala em Dubai. Sair para comprar couve. Escolher um novo abajur.

O que, veja bem, não é pouco.

20 Comentários

  1. […] As coisas que restam, por Vanessa Barbara […]

  2. Juan Polanco disse:

    Ela, quando se enjoa, é corretora imobiliária.

  3. wagner disse:

    Vim aqui pra ver os comentários dos leitores e percebi que o meu comentário talvez tenha SOADO grosseiro, indelicado e deselegante pra quem escreveu o texto, isto é, pra a Vanessa. E quero me expressar novamente e corretamente acerca da Crônica. Pois o fato de eu ter dito que tenha soado como algo, não diz necessariamente que isto o é. Mas o fato de ter a exímia tarefa de escrever a modo do grande Paulo Mendes faz com que nÓs leitores sejamos um tão exigentes com quem escreve. Já que é uma responsabilidade de valor imensurável tecer como um Clássico.

    Antes de tudo, não tenho currículo e nem requinte pra criticar algo diante de sua pessoa (Vanessa) um dia espero ter. Segundo, tive a infelicidade de tecer UM COMENTÁRIO SEM GRAÇA, já que quando se parte pra escrita certas coisa devem ser ditas explicitamente para não magoar ou ofender, e mesmo que eu tivesse colocado(…rsrs :P) para não parecer tão grosseiro e deselegante(o que nao justifica a minha “crítica”), vendo agora talvez eu não devesse ter dito “vil observação” acerca de um texto de um autor(a) que gosto muito, pois sou fã do HORTALIÇA e sei que, como eu, quem gosta e escreve com maior carinho e atenção aos leitores, não deseja ter “uma observação criminosa”(o que não foi o meu caso, pois se eu não tivesse gostado não teria compartilhado a Linda Crônica, com meus amigos nas redes sociais).
    No entanto diante da palavra já digitada, visualizada e enviada, venho aqui pedir desculpas a Vanessa Barbara publicamente e em Cia., pela minha má expressão. Já que sou seu fã do Hortaliça e não quero ficar sem receber os HILARIANTES E PERPICAZES textos que recebo via e-mail. xD <3
    NÃO LEVES MUITO A SÉRIO AS PALAVRAS DE UM FÃ, só tive a infelicidade de realmente me expressar muito mal.

    Um abraço enorme e um beijo com todo respeito! ^_^ Wagner!

  4. wagner disse:

    Bem me soou autoajuda… Mas… eu tbm leio um ROMANCE RUSSO(O Idiota de Dostoievski) nas madrUgadas pra tornar suportável minha existência… :/

    Abraço!

  5. Luiz André disse:

    Belíssimo texto, belíssimo!!

  6. Daniel disse:

    De uma sutilidade incrível e simplesmente lindo!

  7. Vanessa Barbara escreveu uma belíssima crônica. Paulo Mendes Campos é o cronista brasileiro do qual mais gosto. Merece elogios a iniciativa da editora de publicar suas obras.

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