O mundo que não está nos livros cansa

Por Luiz Schwarcz

A Good Book

Na semana passada, procurei explicar um pouco do que acontece hoje em dia no mercado editorial como um todo, e, em particular, no caso de editoras de perfil literário como a Companhia das Letras. Em outro post já havia mostrado como não vejo com maus olhos a entrada de um novo público-leitor, que não conhece ou ainda não está à vontade para ler a boa literatura que há por aí.

Parece estranho, mas os leitores deste blog, assim como as pessoas que trabalham no mundo editorial, em sua maioria votam em partidos progressistas, defendem a democracia, mas em muitos casos, quando discutem valores culturais, parecem se considerar superiores e torcem o nariz para quem não priva dos mesmos gostos ou da mesma forma de entender o mundo literário.

Não tenho preconceito para com editoras de perfis diferentes, e autores que nunca quis publicar. Tento apenas entender o que resulta da combinação da preponderância mais acentuada dos livros populares no mercado, das circunstâncias em que se encontram as livrarias, e do aumento da concorrência para os títulos que chegam com a promessa de grandes vendas. Por outro lado, o preço para comprar os direitos de publicação de todos os tipos de romances, incluindo os de maior qualidade, em alguns casos chegou a decuplicar — jogando um risco exacerbado sobre livros que hoje encontram mais dificuldades aqui do que em outros países. O Brasil aparenta ser um mercado mais promissor do que muitos outros, de estabilidade e pujança tradicionais. Com a concorrência acirrada por títulos, por vezes pagamos adiantamentos mais altos que a Inglaterra ou a França, e nem sempre a venda, como é de praxe no negócio do livro, acompanha a expectativa inicial.

O importante é escapar ao tom de lamúria e entender essas mudanças como parte dos desafios atuais de um editor. A digitalização, o crescimento da leitura juvenil e a distribuição mais acentuada de renda no Brasil, nesses últimos quase vinte anos, modificaram a nossa lista de mais vendidos e tornaram a vida do jovem autor literário mais complicada. O mesmo vale, principalmente, para livros de literatura traduzidos, que não venham com grande bagagem de sucesso anterior… No entanto, nem preciso apontar aqui as vantagens de um país mais democrático e educado, além das benesses possíveis de um livro mais barato em formato digital.

Porque o país mudou, a tecnologia mudou, o mercado mundial de literatura mudou, é de se esperar que mudem também as editoras.

Também é importante ter paciência. O Brasil não vai virar digital da noite para o dia — o que também tem suas vantagens. Leitores que começam a se interessar por livros não mudarão suas escolhas repentinamente, e as editoras, em sua grande maioria, não vão querer perder o espaço conquistado, assim como outras, que nunca almejaram ou almejarão crescer, irão preferir permanecer enxutas.

Muitas perguntas equivocadas, respostas apressadas, insinuações e juízos preconceituosos têm circulado no mercado editorial para tentar dar conta de tantas mudanças. Sempre é mais fácil entender a realidade por um só ângulo, valorizar o pequeno em detrimento do grande, sem diferenciar o que há de bom e meritório em cada dimensão. Opinar sem conhecer como são tomadas as decisões numa editora, mitificar o passado e desconsiderar as transformações na sociedade em que vivemos é caminho tão fácil quanto enganoso.

Um dia ainda vou escrever sobre como acho que a Companhia das Letras deixou de ser “independente” quando emplacou, quase involuntariamente, seu primeiro livro na lista de mais vendidos — no caso, o justamente cultuado Rumo à estação Finlândia. E como agora, acredito, voltamos a ser independentes ao colocar em prática o velho plano de ampliar nosso público, com a criação da Paralela, Seguinte, Claro enigma e Boa Companhia — os selos através dos quais buscamos alargar nossos horizontes editorias. Mas antes disso, quero voltar a tratar de alguns livros que me surpreenderam, de discretas memórias pessoais e de algumas anedotas de editor. Entender o que está fora dos livros dá mais trabalho. Cansa.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

8 Comentários

  1. Marcelo da silva e silva disse:

    Criar selos para alcançar novos publicos é uma jogada muito,mais muito esperta.Lançar estes titulos no catalogo da companhia seria um crime!!!!!!!!!

  2. […] O mundo que não está nos livros cansa – Luiz Schwarcz (Blog da Companhia) […]

  3. Lancast Mota disse:

    Caro Sr. Schwarcz,
    Não sabendo a onde me dirigir, aproveito este espaço para fazer duas observações sobre dois livros publicados recentemente pela Cia das Letras:
    Indicado por um amigo, li o pungente “Festa no Covil” (esgotado em Porto Alegre, comprei em SP), mas antes fui alertado para começar a leitura direto, sem ler a contra-capa. Após a leitura, li a contra-capa e entendi o valor do alerta, sem ele o livro perderia todo o impacto. O texto da contra-capa entrega toda a surpresa do livro, é como você estar na fila do cinema para assistir “O Sexto Sentido” e alguém que tá saindo comentar que o detetive (Bruce Willis) já tá morto. Uma lástima essa contra-capa.
    “A Outra Volta do Parafuso”- sempre fui fã de carteirinho do Henry James e havia lido esse livro no começo da década de 80. Foi uma leitura (antes do filme “Os Outros” e congêneres existirem)que me impressionou muito e essa sensação perdurou. Ao ler a edição Pinguim-Companhia, foi um balde de água fria. Tem momentos no livro que fica muito confuso quem tá dizendo o que. A impressão que tive é que algumas partes do livro foi traduzida no Google Tradutor.
    Atenciosamente,
    Lancast,

  4. Luiz, não sei se te xingo ou te dou os parabéns pelo texto. O que você escreveu está me fazendo reavaliar muitas ideias que eu tenho sobre o atual cenário editorial. Não sei se terei uma visão mais pessimista ou otimista sobre o mercado. “O mundo que não está nos livros cansa” (e muito!).

  5. Luiz, você deveria ponderara a possibilidade de montar um livro com estes artigos. Seriam que grande valia para os pequenos editores e amantes do livro e do mercado editorial de uma forma geral.

    Abraços!

  6. Luis Narval disse:

    Certamente, tudo é negócio. E editoras não fogem à regra. Mas algumas, num esforço salutar, tentam reverter a lógica cruel. No Brasil, o caso mais notório, por razões que extrapolam a independência financeira de seus fundadores, é o da Cosac Naify. Sonho dourado de todo escritor, sobretudo daquele que se reconhece, antes de mais nada, como artista, e, como tal, sabe-se suficientemente forte para suportar as agruras do descaso de editoras com perfis mais comerciais. Em todo caso é de se lamentar que a Cosac não avalie originais.

  7. João Neres disse:

    Fora de dúvida que as editoras, equanto empreendimentos financeiros, que visam ao lucro, porque são negócios afinal de contas, cumprem, apesar disso, no sentido de disseminadoras de arte e conhecimento, um papel civilizador de importância inestimável. Assim foi no passado e assim é até hoje. No entanto, opinar de fora, como simples leitor, sobre as decisões e estratégias executivas desta, não esqueçamos, empresa, que é uma editora, pode parecer para muitos uma intromissão inaceitável. É claro que não compete ao leitor palpitar sobre folha de pagamento, compra de material de expediente, etc, questões puramente gerenciais. Mas esse mesmo leitor, enquanto consumidor final, e não qualquer consumidor, porque, diferentemente da maioria dos demais, não é, por vocação e escolha, um elemento passivo na equação, possui sim algumas prerrogativas na tomada de decisões, senão objetivas, subjetivas, que devem pesar na hora da contratação da equipe editorial, compra de direitos de tradução, publicação e rejeição de originais, mesmo que isso implique (e quase sempre implica) ir na contramão da demanda cada vez maior por veleidades e entretenimentos de fácil absorção. Esse é o compromisso tácito que um editor honesto e consciente deve assumir diante dos leitores de seus títulos, e é em função disso que serão respeitados, admirados e julgados; e é em função disso também que escritores anônimos, alguns deles possuidores de verdadeiro potencial criador, embora “anacrônicos” para os padrões em voga, não perderem as esperanças de serem um dia publicados e reconhecidos por aquilo que possuem de autêntico. Portanto, essa flexibilização, esse relaxamento (democrático?) de determinadas matrizes conceituais, que nos deram, por suas elevadas exigências, os melhores exemplares de arte, para simplesmente adequar-se às novas tendências do mercado editorial, encerra, veladamente, o maior dos perigos. Esse de editores e editoras tornarem-se apenas mais uma engrenagem da indústria do entretenimento de massas, como é o cinema, a televisão e, em grande parte, a Internet, perdendo no processo aquilo que os torna imprescindíveis e que mencionei no começo do meu comentário e aqui repetido. Sua missão civilizadora.

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