Revisionismo etário

Por Vanessa Barbara

Joy of reading

Foi minha mãe quem me ensinou a ler. Não só as palavras, as sílabas e os adjuntos adnominais, que aprendi fazendo a lição de casa do meu irmão folgado (provavelmente em troca de um amendoim que ele pegou do chão), mas a lidar com os livros e a tratá-los com carinho.

Quando eu era pequena, ela abria volumes enormes de capa dura, com ilustrações de ciclopes e sereias, e lia em voz alta os mais antiquados contos de fada. Desses que continham afogamento de bebês, decepamento de membros e pássaros arrancando os olhos de princesas.

Às vezes lia o que tivesse em mãos no momento: me lembro de um volume com capa de papelão sobre arqueologia bíblica que passamos semanas desvendando. E a série de aventuras de dom Camillo, do escritor italiano Giovanni Guareschi, que ela contava com voz macia imitando gestos e entonações, enquanto descobria ela mesma a trama ao virar as páginas.

Decifrava histórias infantis, gibis e romances adultos usando o mesmo ritual: sentada na cabeceira da cama, esticava as pernas, abria o livro no colo, limpava a garganta e começava. Percorria os parágrafos com os dedos. Às vezes se detinha numa passagem, correndo rapidamente os olhos, e, por fim, repetia os gestos do personagem: “Ele limpou o ombro esquerdo disfarçadamente, depois o direito com a escovinha, então coçou a testa e tocou a barriga. Entendeu? Fez o sinal da cruz sem ninguém perceber”.

Mais tarde, contou que às vezes mudava as histórias. Preocupada com alguma passagem forte demais para uma menina altamente impressionável, a revisionista de plantão abrandava diálogos, amolecia vilões e promovia o distanciamento brechtiano das tramas mais assustadoras. “É só um moço fantasiado de monstro”, ela ponderava. Os contos de fada dos irmãos Grimm, por exemplo, ganhavam novos finais. Na história do menino teimoso, em vez de fazê-lo adoecer, morrer e sair com a mãozinha pra fora da cova — o que, convenhamos, é francamente grotesco —, a narradora inventava algo sobre um tatu-bola amigável e um final feliz. Não sei como ela fazia com Olhinho, Doisolhinhos e Trêsolhinhos, trigêmeas briguentas que realmente possuíam a quantidade de globos oculares que apregoavam, mas sei que Cachinhos Dourados devia pedir “por favor” para tomar a sopa dos ursos e o Lobo Mau revelava ter escondido a vovozinha debaixo da cama.

Conforme fui crescendo, o revisionismo protecionista perdeu a força e passei a ler por conta própria histórias sangrentas da Agatha Christie ou do Stephen King, gerando pesadelos óbvios.

Ainda assim, qualquer livro que minha mãe estivesse lendo e julgasse interessante continuava a ser contemplado com leituras de trechos, ou mesmo um resumo do enredo. Passei eu também a destacar cenas que me chamavam a atenção, apontando com o dedo e as repetindo em voz alta. Aprendi a abrir o livro no colo com reverência, virar as páginas e alisá-las como se estivesse preparando o texto para um evento de gala.

Hoje em dia, meu sobrinho de três anos pede que a avó lhe conte histórias de livros infantis, gibis e catálogos de lojas. Vê-se que ela não perdeu o jeito: continua exímia adaptadora de enredos conforme a idade e o grau de atenção da criança, resumindo, reinterpretando e trazendo para perto da realidade as tramas mais aleatórias. A movimentada aventura urbana que inventou a partir de um folheto de supermercado já é lendária entre as crianças locais. Continua imitando as vozes dos personagens e, tal qual um empresário do entretenimento, faz sondagens periódicas da reação da audiência, que pode se ressentir de uma trama sem cachorros de chapéu e ir embora, decepcionada (o que já aconteceu).

O público anda cada vez mais exigente.

* * * * *

Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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9 Comentários

  1. Gosto de histórias sobre o aprendizado da leitura, quando vem de pessoas que apreciam muito os livros. Geralmente são momentos inesquecíveis que explicam boa parte do resto da vida dessa pessoa ligada a esse assunto.
    Postei ai o link de um texto que escrevi sobre o mesmo assunto, como aprendi a ler. De uma lida quando puder.

  2. […] a leitura deliciosa. Na coluna mensal que escreve para a editora Companhia das Letras, contou que sua relação com os livros começou ainda criança, por incentivo da sua mãe. Aos 10 anos, burlou a censura da biblioteca e leu cada um dos 80 livros de Agatha Christie e, na […]

  3. […] Blog da Companhia das Letras 18 de março de 2013 […]

  4. Roberto disse:

    Cachorro de chapéu é concorrência desleal com os outros bichos de história, é tipo espécie exótica invasora de imaginação (pelo menos da minha, desde que li o texto). Deve existir forma de manejo.
    Na casa do meu pai a criançada ouve notícias da seção de economia do jornal enquanto come papinha. E gosta. Segundo meu pai.

  5. Marco Severo disse:

    Nostalgia do que não vivi. É assim que me senti ao ler a crônica de hoje.

    Nunca tive uma mãe (ou pai) que lesse pra mim. E me ressinto um pouco por isso. Meu amor pelos livros veio por outras vias. Hoje, já para lá dos 30 anos e sem a menor vocação para ser pai, realizo-me na ideia de fazer isso para filhos pequenos de amigos. É uma experiência inadjetivável, única.

    Também gosto da ideia de interpretar, editar, como disse Daniel Abreu, não para poupar ninguém, mas para abrir um novo universo e, quando um dia a criança ler a história por ela mesma, descobrir que dentro da história do autor teve a minha realidade inventada e, assim, compreender que tem, naquele livro, pelo menos dois.

    Obrigado por mais uma crônica, Vanessa Barbara. Você consegue tocar onde poucos.

  6. Daniel Abreu disse:

    Bárbara, sou um grande defensor desse tipo de edição, não para poupar a criança de detalhes tétricos, mas sim para tornar a relação entre ela e o adulto que lê ainda mais singular. Pense: vc tem histórias únicas alojadas nalgum canto seu.

  7. Aline Viana disse:

    Nossa, também lembro da minha mãe contando histórias para mim e meu irmão antes de dormir, e ela também tinha o hábito de dar uma “editada” no conteúdo – o mais engraçado é que a gente sempre preferia a versão inventada sobre a “real” que não conhecíamos, daí quando ela recontava e esquecia alguma das invencionices, nós a ajudávamos corrigindo os detalhes da trama, rsrs
    Hj também leio histórias para o meu sobrinho, não sou tão boa com as vozes, mas adoro ter essa “desculpa” para curtir os textos infantis.

  8. Juliana Vettore disse:

    <3

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