Revistinhas baratinhas

Por Érico Assis

Playing The Hero

No fim das contas, é tudo porque o quadrinho é baratinho. Ou tem que ser baratinho.

São revistinhas. Custam menos que a revista do pai e da mãe. O diminutivo, até no próprio nome, diminui tudo que cerca a leitura e a produção do quadrinho: a remuneração do autor, o alcance de mercado, a idade do público-alvo, a perspectiva de lucro, a consideração crítica, a respeitabilidade, a relevância. Tudo é inho.

O que pode resultar em algo bem positivinho.

Gostei de uma postagem do Brian Bendis no Tumblr, dia desses. Bendis foi quadrinista independente por vários anos, virou roteirista da Marvel Comics e hoje, além de escrever gibis de X-Men e tais, é consultor em filmes, desenhos animados e outros licenciamentos dos heróis.

“Tive chance de trabalhar com cinema, com TV, com videogame. Tudo muito divertido, desafiador, estimulante… Só que, no fim das contas, nunca achei nada mais legal do que fazer quadrinhos.

Não é caso da grama ser mais verde nem nada disso… isso é ilusão. Ganha-se muito mais no cinema e na TV. Mas lá você trabalha, trabalha, trabalha, trabalha e ninguém vê o que você criou. Dá pra se ter uma vida bem confortável escrevendo um monte de roteiro que ninguém vai ver. Dá pra ter uma belíssima vida fazendo roteiro para seriado, trabalhando em equipe, mas só 20% do que você escreve vai ao ar.

Por que tanto escritor de sucesso em outras mídias vem pros quadrinhos? Porque nada é melhor que o entusiasmo de juntar palavra e imagem, quase sem interferência e nada de bilhetinhos do estúdio… e onde o orçamento é do tamanho da sua imaginação.”

Isso vale para o mercado de quadrinhos mainstream dos EUA. Um dos lados que Bendis ataca é o basilar, do ganha-pão versus gostar-do-que-faz. Com raríssimas exceções, ninguém enriquece com gibi: a satisfação pessoal em ter um produto fiel ao que você criou — com o mínimo de editores, produtores, marqueteiros e outros enchendo o saco — compensa o inho do salário.

Mas há outro lado, bem mais significativo: na produção de entretenimento de massa — games, cinema, televisão —, não há área com vigilância/editorialização mais frouxa que a dos quadrinhos. Para os editores, o risco é relativamente risquinho: se o gasto de produção é menor (mão de obra barata, estrutura editorial enxuta, impressão e distribuição relativamente baratos), o fracasso é menos preocupante.

Arriscar mais sem dúvida é dar mais com os burros n’água. Mas o modelo de insistir, insistir, insistir até achar algo que cole rende alguns diamantes. Não é à toa que as indústrias de games, cinema, televisão, até literatura comercial, vêm atrás dos quadrinhos: não para copiar o modelo, que é único e instransferível. Mas para colher os diamantes — tanto personagens, quanto histórias quanto autores que podem quebrar o marasmo em outra mídia.

Estou traduzindo um livro que fala bastante da história dessas relações contenciosas entre os autores de quadrinhos e a editora que quer preservar seus heróis para vender como bonequinhos, seriados e filmes. O barato de trabalhar na indústria de quadrinhos dos EUA é o seguinte: como se ganha mal, os autores se veem no direito de brigar contra as restrições que os editores impõem. E há ciclos, que alternam maior controle editorial e maior poder na mão dos autores. Os mais rentáveis são justamente quando o poder está nas mãos dos autores — as ideias mais absurdas, menos baseadas no marketing e no feijão com arroz pregado pelo editorial, são sustentação do mercado.

Quando os quadrinhos não são baratinhos — as “gréfic novels” e tais —, o modelo é outro. Só confirmam a tese do baratinho: se aumenta o preço, aumenta o prestígio, o alcance de mercado, a idade do público-alvo e até a remuneração dos autores. Mas esse mercado das graphic novels também é resultado do quadrinho-inho, tanto da sua história quanto da interpolação atual. É interessante ver como o modelo tenso, conflitivo, de orçamentos e pretensões limitadas de editoras versus imaginações e pretensões ilimitadas dos autores criou pérolas. Ou perolazinhas.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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