Romances que eu realmente não vou escrever (II)

Por Juan Pablo Villalobos

[ the man of berlin ]

[Clique aqui para ler a parte I]

3. A síndrome ML. Um jovem escritor publica seu primeiro romance em uma pequena editora do interior de um pequeno país do centro da Europa. Depois de meses sem repercussão, a revista literária mais importante do interior do pequeno país publica uma resenha. A crítica está assinada por KL e é implacável: o romance está cheio de estereótipos, os personagens não respiram, o uso da linguagem é pobre, o autor deve ser idiota. O jovem escritor, que trabalha em uma empresa de fumigação de bichos literários, com especialidade em impostores de Gregor Samsa, começa a beber. Semanas depois é demitido do trabalho e do time de futebol dos sábados, a namorada o abandona, o proprietário da pensão onde morava o expulsa e ele passa os dias vagando nas ruas. Uma noite acorda sem noção do tempo nem do espaço e está na frente do Teatro do Interior. Tem um monte de pessoas elegantes entrando, é a festa de entrega do prêmio literário mais importante do interior. E tem vinho e canapés de graça! O jovem escritor toma banho na fonte de um parque (é verão) e entra no Teatro usando a carteirinha da associação de escritores do interior, que ainda guardava no bolso. Fica em um canto ao lado da saída dos garçons da cozinha para pegar os canapés quentinhos. Perto da meia-noite, uma moça lindíssima se aproxima dele e pergunta se por acaso ele é o autor do… e diz o nome do romance publicado pelo jovem escritor. A moça se chama Klara Lindt. Ah, igual aos chocolates, diz o jovem escritor. Não, diz a moça, igual a KL! Aqui haveria uma discussão muito tensa na qual o leitor conheceria a história da literatura do pequeno país desde o século XVII até a atualidade. Diálogos assim: “O critério da escola supra-realista sempre foi castrar as novas expressões!” “E Richard Wolker?” “Pelamordedeus! Wolker? Tá brincando? É a restituição do amaneiramento pré-rafaelita!”. No final da noite, a crítica e o escritor transam selvagemente no toilette do Teatro. KL resgata o jovem escritor da rua, vão morar juntos, ele volta a escrever, recupera o trabalho como fumigador (tem um monte de trabalho, há muitos simbolistas soltos). Meses depois, o jovem escritor termina de escrever um novo romance e, antes de enviar para as editoras, pede a opinião de KL. O romance é péssimo. Agora o problema não são os personagens, nem a linguagem, o problema é o enredo! É um enredo sem graça, tedioso, e, pior ainda, com sérios problemas de consistência. Eles brigam selvagemente. O jovem escritor ameaça sair para comprar uma garrafa de uísque, KL grita: MEU AMOR, NÃO SEJA IDIOTA, EU GOSTO DE ESCRITORES RUINS. KL confessa, ela padece de uma patologia chamada síndrome ML (Má Literatura), caracterizada pela excitação sexual ao contato com textos literários de baixa qualidade. O jovem escritor exige conhecer a lista de namorados e casos que ela teve, e fica muito magoado pelas ausências: os escritores que não aparecem na lista pois ela considera que são bons. Eu gosto de você assim, ruinzinho!!! – chora KL de joelhos rogando perdão. Mas eu quero ser um bom escritor, diz ele. Ela para de chorar, indignada: você está me dizendo que prefere ser um bom escritor a que eu goste de você? É o climax do romance: amor ou literatura? O jovem escritor, que aliás daqui a pouco deixará de ser jovem, pede um tempo para pensar. Sai de casa e vai passear pelas margens do rio (já falei que a cidade tinha um rio?, sempre tem um rio nas cidades do centro da Europa). É uma tarde belíssima, as nuvens cobrem o céu e deixam passar listras dessa luz apagada tipicamente centro-europeia. Chega a um parque infantil, olha as crianças a brincar. As crianças, as crianças. O jovem escritor pensa que o melhor seria ter um filho.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook