Sargento Leminski & os Garotos Perdidos a meio-oeste de Lugar Nenhum

Por Joca Reiners Terron

A edição laranja-choque de Toda poesia do Leminski me leva a lembrar dele, de quando o conheci, nos anos 70. Ambos tínhamos perdido o último navio que partiria de Saigon de volta a nossa pátria, uma cidadezinha chamada Terra do Nunca no meio-oeste de Lugar Nenhum. Leváramos uns balaços dos vietcongues (ele os chamava de “charlies”), porém nossos fígados ainda estavam intactos, apesar da noitada num antro de jogatina e prostituição da zona vermelha da cidade. Lemmy era um sargento tipo monumento rochoso, um herói de nossa gente. Os Garotos Perdidos o idolatravam, e eu, mero frangote, um recruta zero, achava-o simplesmente o máximo. Por sua causa, nos tornamos poetas.

Então não era difícil entender nossa identificação com o sargento Lemmy. Na tropa, havia um capitão chamado Cabral que dizia que não gostava de ser identificado como “poeta” (embora o capitão Cabral fosse um dos grandes, e sua metralhadora cuspisse versos durões e ele próprio fosse uma pedra dura de roer no meio de nosso caminho de jovens versejadores inábeis), pois era a mesma coisa que ser chamado de “efeminado”. E com o sarja Leminski não tinha essa noia, ele era o cara do bigodão e do pelo no peito que usava camiseta mamãe-quero-ser-gay e punha uma margarida no capacete, mas também era o cara que quebrava os adversários com golpes de judô e haicais matadores — ou seja, usava da brevidade oriental como antídoto para a chatice antipoética da guerra cotidiana.

Depois do Vietnã, nos encontramos nas barricadas da comuna de Paris, onde lembramos com toda eloquência da enfermeira Ana C., uma mina que plantou coquetéis molotov em nossos corações. Ana C. rindo pra gente seu riso solar do banco da frente do fusca, nós dois tornados bebês diante de sua sensualidade móvel fixada no retrato: por onde andaria Ana C. naqueles dias de mil oitocentos e muitos, estaria explorando a gaveta do vício de Rimbaud junto com o cabo Reinaldão? Nunca saberemos, e a enfermeira Ana C. nunca passou da punheta de nossas saudades. Então, o sarja Lemmy andava escrevendo ficções, e publicara um romance chamado Agora é que são elas que tinha espanado o cabeçote dos Garotos Perdidos e desfeito nossas tênues convicções do que poderia ser um romance. “Ficção, re-ficção, uma história que desvenda o processo de todas as histórias, uma novela com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, claro). Um romance pra tocar no rádio”, dizia o Leminski. Aquele livro nos viciou para sempre no pop metaliterário e na literatura escrita como se fala. Por sua causa, nos tornamos romancistas.

Uns séculos depois, reencontrei o sarja Lemmy em Bauru, na república na qual eu morava com o Beto, a Fábia, o Serjão e a Patrícia. Enquanto os Garotos Perdidos envelhecíamos, ele permanecia jovem, na verdade parecia ainda mais novo do que era antes. Paradoxalmente, falava como um sábio, e nos ensinou antiguidades sobre gregos, egípcios e samurais poetas; sobre profetas judeus e negros brancos; agora escrevia biografias mínimas e publicara um livro de ensaios chamado Anseios crípticos. Esses textos nos ensinaram que não dá pra vir a este planeta curtir literatura e não tentar entendê-la; que é impossível escrever ficção, poesia ou o que seja atualmente sem ter uma visão crítica do que se está fazendo, uma abertura para pensar o novo frente ao clássico e repensar o clássico transformado pela novidade. Afinal, se falta algo ao sistema literário brasileiro contemporâneo, é justamente a compreensão de que não basta ser artista, tem de participar na difusão e na reflexão. É uma militância, e temos de ser meio Trótskis, totalmente Leminskis. Tem de vestir a farda da literatura e encarar o Vietnã da linguagem todo santo dia. E por causa de Leminski, nos tornamos críticos literários.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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10 Comentários

  1. Franklin de Araújo Cordeiro disse:

    O que seria de Joca Reiners sem José Agrippino de Paula, sem Paulo Leminski et caterva? Este senhor é um mero literato, saturado de literatice até a medula. Quanta leitura mal digerida a gente não vislumbra em cada parágrafo, hein? Essa é a literatura brasileira característica dos medíocres anos Dilma (“os livro”), essa é a literatura brasileira contemporânea a Marcos Feliciano…

  2. Serjão disse:

    Valeu pela lembrança, Joca.
    Lemin-sky sempre será.
    O único poeta que já aturei.
    Porque não era poeta, era samurai.

  3. gissela disse:

    q linda homenagem ao poeta, à poesia, à linguagem…

  4. joca terron disse:

    Valeu demais, Bruno, Marcos, Luis & Roberta. E parabéns pelo belo trabalho de edição dos poemas do Leminski, Sofia!

    Abrazos

  5. Roberta Resende disse:

    Nossa, bravo, bravíssimo. Texto de alta qualidade, de prender a atenção e de ficar na memória até mesmo de quem não prestou tanta atenção ao Leminski. Lindo registro de uma trajetória pessoal que adquire sentido coletivo, ao ser partilhada. Ave, palavra!

  6. sofia disse:

    lindo texto.

  7. Luis Narval disse:

    Minhas congratulações, caro Joca. Sem dúvida. O artista, o ficcionista, o poeta e, vou mais longe ainda, o editor, o agente, o tradutor, tudo desembocando no leitor, que, acredito (por mais que a literatura de consumo finja reverencíá-lo, e que na verdade o subestima e o despreza) seja de fato a pedra-angular na qual se apoia a construção criativa – já que a arte, sabemos todos, por mais particularizada que se queira não pode prescindir jamais de uma interlocução ativa. Bem, isso compreendido, estar alerta, adotar uma postura crítica, mesmo que muitas vezes possa parecer antipática, presunçosa, retrograda e até “preconceituosa” diante de certas “facilitações”, “perda de foco” e “miopia generalizada” no que diz respeito à função social e humanística (por isso mesmo revolucionária, combativa) da arte, talvez seja a condicio sine qua non obrigatória que assiste a todos os envolvidos. Abç…

  8. Marcos disse:

    Coisa finíssima essa tua coluna de hoje, Joca. Agradeço imensamente por ela.

  9. Bruno Vicentini disse:

    Fantástico. Nêgo bom se mistura.

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