A última madrugada

Por João Paulo Cuenca

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[Para comemorar as reedições de O amor acabaO mais estranho dos países, pedimos a alguns autores contemporâneos que escrevessem crônicas no estilo de Paulo Mendes Campos. Leia também os textos enviados por Vanessa Barbara e Sérgio Rodrigues.]

Na última madrugada, nos encontraremos sob um pirulito de esquina marcando o cruzamento de duas ruas que não se encontram (Rio Branco com Vinícius, Barata Ribeiro com Paissandu), e ali você apertará minha mão antes da nossa correria pelas avenidas desocupadas, entrando e saindo de jardins e parques imaginários, nossos corpos iluminados por uma lua minguante e fria, vigiados por umas poucas janelas acesas no topo dos prédios.

Por trás delas, cortinas vermelhas guardarão o sono de sabe-se lá quem, e nós dois perderemos horas sentados numa pedra de calçada, despindo as paredes num jogo de adivinhação sobre o que aconteceria por trás da fachada dos últimos andares, na penumbra dos quartos calados (uma luz de cabeceira desenha um círculo no teto, um vulto se mexe) e nos grandes salões vazios da avenida Atlântica (quadros azuis na parede, o movimento interrompido dos bibelôs).

Suas histórias sobre os apartamentos e seus moradores de ficção serão sempre melhores do que as minhas, e com essa doce derrota será inaugurada nossa última noite. Sem alarde ou desejo de estar em algum lugar em especial e, ao mesmo tempo, estando em todos os lugares, nos esparramando pela cidade aberta, asfaltando o chão com os nossos pés, erguendo a paisagem com os nossos olhares de criança.

Após esses jogos de imaginação na calçada, entraremos, sob a proteção de toda a cavalaria de Jorge da Capadócia, num subsolo qualquer em Copacabana, onde você esquecerá meu nome depois de duas batidas de abacaxi e eu enlaçarei seu corpo num passo desastrado, enquanto todos do lado de fora de nós dois desbotarão, perdidos em outro fuso. Abafados pela fumaça, dois andares abaixo das pedras portuguesas, riscaremos com os pés o traço de fronteiras entre países desconhecidos: eu perdido num cabaré da Europa Oriental, você escondida num beco em Damasco, vestindo um véu nos ombros sob a marcação de um surdo desafinado e o fim do terceiro refrão.

Lá fora, abandonando o tempo do mundo, espreguiçaremos nossos tentáculos um para dentro do outro, dançando o último samba da última madrugada, que será entoado no meio da rua, na passagem dos carros ausentes, por um grupo de malandros cabisbaixos, daqueles que, como nós, varam a noite batucando tamborins até o início do dia.

Depois, e recorrentemente, teremos sono na última madrugada. Deitaremos na praia, você pousada nas minhas coxas, eu perdido nas suas órbitas, e veremos o oceano riscar elipses na areia. Sobre o mar, a ponte prateada derramada pela lua se esticará do abismo (o horizonte, atrás das ilhas Cagarras) até a ponta dos nossos dedos descalços e sujos (os seus num movimento constante, os meus calados e embrutecidos). Na nossa última madrugada, seremos como os galhos de duas árvores que não se veem, mas que se tocam quando venta.

Teremos fome, e comeremos numa confeitaria no Leblon, num hotel na Presidente Vargas, num bingo no Catete, no Capela da Lapa. Depois, numa calçada da Mem de Sá, você vai me empurrar num balcão iluminado onde comprará uma ficha de videokê para cantar, trôpega, a última de amor. Longe, carros vão frear, alguém vai quebrar uma janela. Haverá também o miado dos gatos, as baratas e ratos inaugurando bueiros. Um grito abafado de mulher. E a multidão silenciosa, deitada em milhões de camas, encolhida sob as marquises, flutuando sobre nós e a cidade.

Antes de voltar para casa, no ponto de um ônibus que nunca chegará, você vai me perguntar se eu posso ouvir, por trás do silêncio, os sonhos de todos os que dormem: “São milhões sonhando enquanto estamos acordados”. E eu vou te contar mentiras e dizer que sim. Que posso ouvir todos os sonhos do mundo. Que, na verdade, eu e você somos sonhados por outros, que agora dormem. Que a nossa última madrugada jamais amanhecerá.

* * * * *

João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Publicou O dia Mastroianni e O único final feliz para uma história de amor é um acidente, entre outros, e foi um dos autores selecionados para a edição “Os melhores jovens escritores brasileiros” da revista Granta. Seu próximo romance será lançado pela Companhia das Letras no 2º semestre de 2013.

8 Comentários

  1. Alice disse:

    Ao refrão da madrugada e da AM, pobre-nosso coração, sempre escravo desse amor de Atlântica furor e cetim.

  2. Maria Clara disse:

    “Lá fora, abandonando o tempo do mundo, espreguiçaremos nossos tentáculos um para dentro do outro, dançando o último samba da última madrugada…”: amei.

  3. Ana Paula Rocha disse:

    Pensei que seria alguma crônica, digamos, “nova”.
    Já conhecia essa do Enter- Antologia Digital (com leitura do Selton Mello http://www.oinstituto.org.br/enter/enter.html), mas mesmo assim, toda vez que me deparo com esse texto lembro do “minguantemente fria”… Belíssimo Cuenca!

  4. Daniel Abreu disse:

    Gostei demais. Parabéns.

  5. Silvia Dias disse:

    de tirar o fôlego!

  6. Marco Severo disse:

    Cuenca, que ótima crônica! Gosto tanto do jeito que você escreve! Pouco me importa que você seja tão sisudo no Estúdio i, suas dicas são sempre ótimas e de uma rara sensibilidade. Já antecipo com prazer teu próximo livro.

  7. Kassia disse:

    Que maravilha de crônica. E tão bonita!
    Cuenca, você é mesmo incrível.

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