Causas justas

Por Luiz Schwarcz



Sakineh Mohammadi Ashtiani

Foi num sábado de manhã que surpreendentemente recebi um telefonema de minha amiga Louise Dennys, editora da Knopf Canadá, com quem não falava há muito tempo. Um autor da Companhia das Letras, que trabalhava em Washington e havia conhecido o presidente Lula ao lançar seu livro no Brasil, disse a Louise que eu poderia ajudar a contatar o governo brasileiro, visando evitar o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani — a iraniana acusada de adultério e de cumplicidade no assassinato de seu marido.

— Luiz, eu coordeno um grupo que defende direitos humanos e me foi dito que só o governo brasileiro pode salvar Sakineh. A questão é premente, ela pode ser colocada no paredão do apedrejamento a qualquer momento. Você pode nos ajudar?

Na hora me ocorreram dois caminhos: tentar achar Marco Aurélio Garcia, que eu conhecera nos tempos em que trabalhei na Unicamp e que faria o assunto chegar ao presidente Lula, ou conversar com Alberto da Costa e Silva para que este me ajudasse a localizar o ministro Celso Amorim o quanto antes. Os dois caminhos se mostraram difíceis. Não encontrei nenhum contato que me levasse a Marco Aurélio rapidamente, e Alberto da Costa e Silva não encontrou prontamente o ministro Amorim. De qualquer forma, esperançoso, ele me passou um endereço eletrônico do Ministério das Relações Exteriores para onde podem ser encaminhadas mensagens do público.

— Pode mandar, meu filho, que no Itamaraty essas coisas costumam funcionar. Enquanto isso continuarei tentando encontrar o ministro Amorim.

Caprichei no teor do texto, para tentar chamar atenção de alguém relevante, bastante descrente no que Alberto me dissera.

Eu estava errado. Menos de um dia após enviar minha mensagem, recebi uma resposta de um assessor do Ministro, dizendo que já havia falado com Celso Amorim e que o governo brasileiro iria tentar ajudar, mas que era importante que o assunto não vazasse, para que o governo iraniano não soubesse do assunto pela imprensa.

Daí em diante uma correspondência ativa aconteceu entre o ministério, principalmente através do assessor do ministro, e o grupo ativista, passando por mim como mero intermediário. O resultado nós conhecemos: o assunto chegou ao presidente Lula, que ofereceu asilo para Sakineh. Suponho também que ocorreram prováveis gestões do ministro Amorim, que já havia se posicionado anteriormente contra casos semelhantes que aconteciam e ainda acontecem no Irã de Ahmadinejad. A mais que discutível política de aproximação do governo brasileiro com um governo autoritário e tirânico por vezes servia para causas nobres.

Em meio a esse evento, o tal assessor, de quem eu já ficara quase íntimo, um dia me fez a questão que mais temo, embora sua abordagem trouxesse uma delicadeza diplomática, e uma timidez com a qual me identifiquei. Perguntava-me se a Companhia das Letras ainda aceitava ler romances de escritores neófitos, e se apresentava como um deles.

Encaminhei o romance em questão para uma das nossas editoras, a Vanessa Ferrari, que vocês conhecem aqui do blog. Vanessa demorou um mês ou um pouco mais, e, corada como sempre, veio até a minha sala dizer que o livro era muito bom. Necessitava de trabalho, mas revelava um escritor de grande talento e potencial. Felizes, resolvemos bancar a aposta da Vanessa, mesmo sem a minha leitura.

Ela e Mauricio Lyrio começaram, desde então, a trabalhar juntos no livro. O autor aceitou inúmeras sugestões, fez várias versões, e depois de meses de idas e vindas, o original ficou pronto.

Memória da pedra seria um livro dos quais, de certa forma, eu me desincumbiria, num período especialmente atribulado de minha vida profissional. Entretanto, uma outra entusiasta do livro, Mariana Mendes, do departamento educacional da Companhia das Letras, inconformada, chamou minha atenção algumas semanas atrás dizendo:

— Luiz, você leu este livro? Tem que ler, é o máximo.

Hoje divido com a Vanessa, a Mariana e o Mauricio Lyrio meu entusiasmo por Mémoria da pedra, que li em uma sentada, com imenso prazer, há dois fins de semanas, em meu sítio. Fiquei encantado com um escritor que nasce muito maduro — desenvolvendo os personagens secundários com uma qualidade incomum, traço importante para avaliar o fôlego literário de um texto —, capaz de trechos belos como este que escolhi para encerrar o meu post. É uma alegria quando o acaso de uma causa humanitária tão justa leva a outra igualmente importante como a descoberta de um grande escritor.

P.S.: Procurei me informar agora sobre o que aconteceu afinal com Sakineh e não obtive nenhuma resposta assertiva. Minha amiga canadense, em resposta à minha questão, marcou um encontro pessoal comigo em Londres, que acontecerá na semana que vem. Enigma. Perguntei a uma amiga iraniana, cuja família ainda mora no Irã, e ela também não soube me dizer com certeza. Do que sei Sakineh continua presa, mas não foi apedrejada.

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Trecho de Memória da pedra, de Mauricio Lyrio:

A tristeza, a persistência das crises eram os sinais de que, ainda que ela o amasse, ele não seria capaz de tirá-la de seu estado. O amor era um costume, uma acomodação. Não adiantava amá-lo se ela mal podia tolerar sua presença. A figura dele representava, antes de tudo, a lembrança das dores dela, o testemunho de que, apesar de todo o charme e o brilho, era uma mulher no limite, cuja angústia era aliviada com a lâmina na perna, os dedos sobre o fogo, o golpe inesperado contra os cabelos. Era triste perceber a mudança súbita de tom e a repressão do sorriso, quando ela virava o rosto em direção à porta e descobria que não era a secretária ou um paciente que entrava em sua sala, mas ele, que decidira fazer uma visita sem avisar e via aquele rosto contrair-se como o corpo de um pequeno animal subterrâneo, como se precisasse reprimir os sinais de satisfação para que ele não se esquecesse de que era o principal responsável pela miséria estampada à sua frente.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

12 Comentários

  1. SLeo disse:

    Faltou dizer apenas uma coisa: lido às escuras, sem identificação de autor, o romance do Maurício, ainda em sua primeira versão, ganhou menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura. Como sabe qualquer um que tenha participado de um concurso literário, como concorrente ou como jurado, é por pouco, às vezes, que não se ganha um prêmio, quando se apresenta uma obra de qualidade. Mas um bom autor cedo ou tarde ganha o reconhecimento merecido. E vale conferir a Memória de Pedra para confirmar essa tese. Parabéns à Cia das Letras.

  2. […] Memória da pedra, de Mauricio Lyrio Desde a juventude, Eduardo investiga a fenda que partiu sua vida ao meio” — um acidente no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1960, que envolveu seus pais. Suicídio ou fatalidade? A resposta pode estar nos conhecimentos de um médico, ou nas lembranças escondidas da família numa casa em Teresópolis. Ou talvez o caminho seja outro, o da redenção, na possibilidade de reconstituir uma vida fraturada — o amor por Laura, a relação paternal com o menino Romário, o fascínio pela personalidade de Marina, uma mulher no limite. Tudo o que for preciso — e possível — para deixar de ouvir apenas “a mudez na face escura da montanha”. (Leia o post de Luiz Schwarcz sobre o livro) […]

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