Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo

(767 páginas)

Trechinho?

Um pedaço da saga de Don G., editado (desculpa pelos palavrões), e sempre com aquela ressalva de que se trata de versão beta, que ainda deve mudar bastante antes de aparecer entre-capas. Vai lá.

* * * * *

“Ele disse para Gately imaginar só por um segundo que estava segurando uma caixa de Mistura para Bolos Betty Crocker, que representava a AA de Boston. A caixa vinha com instruções na lateral que qualquer criancinha de oito anos conseguia ler. Gene M. disse que Gately só precisava era se dar uma porra de uma folga uma vez na vida e descansar e relaxar e calar a merda dessa boca e só seguir as instruções na lateral da bosta da caixa. E não fazia um pentelhésimo de diferença se Gately acreditava que um bolo surgiria dali, ou se entendia tipo a merda da química de como é que ia surgir um bolo dali: se ele só seguisse o caralho da porra das instruções, e tivesse o bom senso de pedir ajuda a uns confeiteiros um pouquinho mais experientes para não foder com as instruções caso ele desse algum jeito de se confundir, mas basicamente a questão era que se ele só seguisse as instruções infantiloides, ia surgir um bolo dali. Ele ia ficar com o bolo. A única coisa que Gately sabia de bolos era que a cobertura era a melhor parte, e pessoalmente ele achava que Eugenio Martines era um filho de uma puta, se-achão e metido — fora que ele sempre desconfiou tanto de orientais quanto de cucarachos, e Gene M. dava um jeito de parecer as duas coisas — mas ele não zarpou da Casa e nem fez alguma coisa que pudesse dar numa Expulsão, e foi às reuniões toda noite e disse mais ou menos a verdade, e aceitou a sugestão de entrar num Grupo. Ele não tinha nada no que se referia a um conceito-de-Deus, e naquele momento talvez até menos que nada em termos de interesse por aquilo tudo; ele tratava a oração como a regulagem da temperatura de um forno segundo as instruções da caixa. Pensar naquilo como conversar com o teto era de alguma maneira melhor que imaginar falar com Nada. E ele achava constrangedor se ajoelhar de cueca, e como os outros caras do quarto ele sempre fingia que os tênis estavam lá bem embaixão da cama e que ele tinha que ficar ali um tempo para achar, quando rezava, mas rezava, e implorava ao teto e agradecia ao teto, e depois de talvez cinco meses Gately assim do meio do nada percebeu que vários dias tinham passado desde a última vez em que ele pensou em Demerol ou Talwin ou até em maconha. Ele não tinha meramente atravessado esses últimos dias — as Substâncias nem lhe ocorreram. I.e. o Desejo e a Compulsão tinham sido Removidos. Mais semanas passaram e ele ainda não sentia nada como a velha necessidade de se chapar. Ele estava, de certa maneira, Livre. Era a primeira vez em que ele se via fora desse tipo de jaula mental desde que tinha sei lá dez anos. Ele não conseguia acreditar. Ele não tinha a mais remota sombra de uma porra de uma ideia de como é que essa coisa funcionava, essa coisa que estava funcionando. Isso deixava ele doido. Com coisa de sete meses, na reuniãozinha de Iniciantes de domingo, ele chegou a ponto de rachar um dos tampos de mesa de imitação de madeira com a cabeça.

“Isso foi meses atrás. Gately normalmente não dá mais muita bola para entender ou não. Ele faz a coisa de joelho-e-teto duas vezes por dia, e diz a verdade aos residentes da Ennet House, e tenta ajudar alguns deles se eles vêm até ele querendo ajuda. E quando Francis Furibundo G. e os Bandeiras Brancas lhe ofereceram, no domingo de setembro que marcava o seu primeiro ano de sobriedade, um bolo impecavelmente assado e pesadamente coberturado, com uma velinha em cima, Don Gately chorou na frente de não-parentes pela primeira vez na vida. Ele hoje nega que tenha chegado mesmo a chorar, dizendo alguma coisa sobre a fumaça da vela nos olhos e tal. Mas chorou.”

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.