Entrevista com Ana Miranda

Na última entrevista que publicamos aqui no blog, André Sant’Anna conversou com seu pai, Sérgio Sant’Anna. Para continuar o projeto, Sérgio escolheu entrevistar a escritora Ana Miranda.

Ana Miranda nasceu em Fortaleza, em 1951. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje vive no Ceará. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). De lá para cá escreveu diversos romances, entre eles Desmundo (1996), Amrik (1997) e Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras). Foi escritora visitante em universidades como Stanford e Yale, nos Estados Unidos, e representou o Brasil perante a União Latina, em Roma. Sua obra nasce de uma relação pessoal com a história literária brasileira, e trabalha pela preservação do nosso tesouro linguístico.

Leia abaixo a entrevista feita por Sérgio Sant’Anna. A próxima trará o autor escolhido por Ana: o poeta Francisco Alvim.

SS: Querida Ana. Você ter ido morar de novo no Ceará tem a ver com seus romances ligados ao Brasil e à terra ou é justamente o contrário: você, morando num lugarejo de praia, acaba escrevendo sobre a grande cidade (rs)?
AM: Sérgio, querido, é uma alegria conversar com você, ainda que de longe. Aqui eu convivo tanto com a aldeia na praia como com a cidade grande — Fortaleza fica bem perto. Mas você tem razão (e sensibilidade), sou mesmo uma alma das distâncias, tanto no espaço como no tempo. Estou sempre distante de minha realidade e buscando distância de mim mesma, se é que isso é possível. Não escrevo sobre mim, como dizia o Guimarães Rosa. No Outro é que encontro inspiração. E mesmo me entranhando de toda uma cultura peculiar à terra, continuo vivendo a distância literária. O que ando escrevendo por aqui tem mais relação com minhas leituras e com minha imaginação do que com a realidade que me cerca, como sempre. É um processo interior. Busco experimentar outras vivências, outras falas, outros comportamentos literários, é o meu jeito de ser. Fiquei muito marcada pela minha primeira experiência no romance, abri uma porta, por ali entrei, e estou vagando nessa espécie de labirinto. No entanto, sinto que a cultura deste estado onde nasci tem me preenchido alguns vazios; e num processo natural, em que se plantam sementes de conhecimento e vida, as coisas vão germinando e florescendo em palavras, temas, modos de se comportar como narrador. Não sou a mesma que escrevia no Rio olhando a paisagem exuberante, verde, montanhosa e úmida, entre emanações africanas, francesas, portuguesas, árabes, nesta atmosfera extrovertida e maliciosa, explosiva, sensual e descompromissada que caracteriza o Rio. Aqui tudo é mais seco, indígena, casto, luminoso, rude e espraiado.

SS: Qual dos seus livros a deixou mais realizada?
AM: Gosto de pensar na minha obra reunindo apenas os romances, e dentre eles, os que exprimem uma experimentação linguística narrada em voz feminina. São o Desmundo, Amrik, Dias & Dias, Yuxin e Semíramis (meu próximo livro). Sei que estou sendo injusta com meus primeiros romances e demais livros, e ingrata para com o meu primeiro romance, o Boca do Inferno, que me deu tudo o que tenho em matéria literária — com ele aprendi tudo o que sei sobre escrever livros, ele existe em cada um dos seus posteriores. Mas é a verdade, sinto o quinteto como expressão mais pura de minha alma. Se pudesse voltar no tempo, publicaria apenas esses, mesmo sabendo que poderia ser uma escritora obscura, talvez até inédita, pois foi Boca do Inferno que me deu notoriedade. Mas faz parte de mim essa movimentação desesperada, essa submissão às ordens interiores, essa versatilidade como uma sentença. Não há como escapar. Sei que o tempo é que depura a obra literária formando o todo, os livros compõem a obra como num bordado feito pelo avesso. Nada disso está em minhas mãos. Com tudo isso, jamais me sinto realizada, mas sempre insatisfeita, em busca de algo, querendo melhorar, ir adiante de mim mesma. Apesar de ser uma pessoa calma, há dentro de mim uma inquietação. Vivo num contínuo processo de mudanças interiores.

SS: Você tem sido nômade no Brasil. Qual lugar lhe agradou mais?
AM: A acreditar no que dizem, que a infância é nossa mãe e nossa pátria, os meus lugares são o Ceará, onde vivi até os cinco anos, o Rio, até os sete, e Brasília, até a adolescência. Sou louca pelo Rio, onde vivi uns quarenta anos, não há cidade mais bela e acolhedora no mundo, é verdadeiramente cosmopolita, de uma riqueza cultural fabulosa, gente extraordinária. Tenho paixão por Brasília com toda sua beleza espacial, sua flora e fauna, as pessoas que ali conheci e conheço, os crepúsculos, a arquitetura, a liberdade que eu tinha, a sensação de força construtiva que a cidade proporcionava. E amo o Ceará, a meiguice que transborda, a fraternidade que os cearenses me dedicam, a sensação de pertencer a ele. Aqui moro na casa em que sempre sonhei morar, rústica e ampla, com uma vista de mares, coqueirais, dunas, rio, telhadinhos de barro, o silêncio e a brisa; tenho uma cozinha grande, com cortininhas debaixo da pia, um varandão cheio de plantas, jardins floridos e pomar, tudo que eu mesma fiz. Não fiz a casa para mim, mas para os meus netinhos. Meu escritório é aberto para a paisagem, e ver a lua nascer do mar é uma viagem astronômica pelo universo. Aqui encontro as mesmas paisagens de minha primeira infância. Também não posso deixar de mencionar São Paulo, onde morei poucos anos, e já adulta, mas muito me ensinou. Cada lugar tem seu encanto e fascínio. Também tem seus problemas, mas a pergunta é sobre o lado agradável.

SS: Pretende continuar morando na praia no Ceará, ou não faz projetos, deixa o barco correr para ver onde atraca?
AM: Não é que eu faça projetos, mas inconscientemente eles vão se formando, creio que a partir de necessidades íntimas e literárias. Eu observo os sintomas. Vou me mudando primeiro interiormente, aos poucos a necessidade de me mudar é tão imperiosa que não consigo mais controlá-la. Como se eu precisasse viver muitas vidas, muitas realidades e idades que não são em ordem cronológica. Como se eu precisasse renascer.

SS: Você se sente atraída pela temática feminina, ou não importa o sexo dos personagens?
AM: Não importa o sexo dos personagens, mas a narradora em voz feminina na primeira pessoa me atrai muito mais, embora torne a coisa que já é difícil ainda mais difícil, porque são vozes em outro tempo, às vezes longínquo, é quase um trabalho de psicografia como escrita dos espíritos. Mediunidade literária. Mas não acho que a atração seja causada pela visão feminina de mundo, a primeira pessoa narrando inclui um trabalho de dicção, de criação de uma fala, que me seduz. A cada livro preciso criar uma nova voz, uma nova dicção, isso combina com o meu temperamento. O narrador na terceira pessoa, no meu caso, me parece sempre o mesmo, é a minha voz onisciente. O caso dos personagens é outro. Cada um deles tem uma voz. Mas em todos eles sinto a presença da minha pessoa, que é feminina, contendo, no entanto, a sua versão masculina, ainda que em fantasia. E sobre temática feminina, não acredito nisso plenamente, talvez seja uma forma de manter a mulher falando de uma vida enclausurada, que já não existe mais. Seria o amor uma temática feminina? Ou o ciúme? Mas vemos Goethe e Shakespeare celebrando magistralmente os temas. Seria o casamento um tema feminino? O tricô? A gestação de um filho, o parto? A prostituição? Que bom escritor não seria capaz de abordar o tema? Todas essas rotulações não passam de uma necessidade humana de organizar o mundo para seu estudo, mas o mundo não é feito de compartimentos vedados. Tudo se interpenetra.

SS: Você pode revelar o que está escrevendo agora, ou é daquelas que guardam segredo?
AM: …

SS: Estou curioso para saber se essa longa estadia na praia — com algumas viagens ao exterior — está te influenciando de alguma forma.
AM: Há uma influência direta nas crônicas que escrevo para o jornal daqui de Fortaleza. A crônica tem uma conexão imediata com o cotidiano. O tema que me foi proposto é a memória da cidade, mas há textos que aparecem repletos de passarinhos, jangadas e coqueiros, que vejo da minha mesa de trabalho, carnaúbas das estradas, dunas e ventos, almofadas de bilro, quintais e cajueiros, sons e, mais que tudo, o sentimento do lugar. O contato com a natureza, ainda que inconstante, tem um poder de transformação na nossa atmosfera interior. Creio que é o mesmo que dominava José de Alencar quando escreveu Iracema. Ele passava temporadas na floresta da Tijuca, e recém-casado, apaixonado. Iracema tem uma atmosfera que não existe em O guarani, que se expressa melhor no efeito que cria. Não há em Iracema nenhuma casa. É perpassado pelo sentimento de natureza de que falava Thoureau, em Walden, uma espécie de ilusão contagiada pelo bucolismo mas também pela violência natural, pela hostilidade, o lado pantanoso, ameaçador, escuro da natureza. O livro que acabo de entregar à editora, Semíramis, um perfil de mulher ao modo de Alencar, sente essa influência, não exatamente da natureza, mas da questão do provincianismo, relacionado ao cosmopolitismo. Portanto, a sua primeira pergunta foi no coração da coisa em si.

* * * * *

Trecho de Yuxin:

kene, bordado

A pata da onça e aqui olho de periquito… bordar, bordar… Xumani está demorando tanto, quando ele voltar, amanhã, não vou contar nada, se eu contar, Xumani ciumento vai querer flechar as almas, matar as almas, quem pode as almas matar? bordar bordar… hutu, hutu, hutu, hutu… aprendi o bordado kene em dia de lua nova… bordar… bordar… achei aquele couro de cobra atrás do tear, minha avó me levou mata dentro para eu saudar Yube e aprender o bordado kene, minha avó ensinou as cantigas, aregrate mariasonte, mariasonte bonitito… ela sabia essas cantigas, a avó da avó sabia, a avó da avó da avó, minha mãe sabe… bonitito bonitito yare… titiri titiri titiri titiri we… hutu, hutu, hutu, hutu… vi uma luz, minha avó pingou bawe nos meus olhos para eu enxergar mais claro… tecendo e cantando em dia de lua nova, assim aprendi kene, chamando a força do bawe, a primeira mulher que aprendeu a bordar foi Siriane, no tempo da mãe da mãe da mãe da mãe, foi Siriane quem nos ensinou primeiro o bordado, mas o marido de Siriane a matou titiri titiri titiri titiri we… hutu, hutu, hutu, hutu… será se ele matou Siriane de ciúmes? ela viu as almas? ela saía sozinha? titiri titiri titiri titiri we… bre bre bre bre… foi no tempo da mãe da mãe da mãe da mãe… Xumani vai me matar? por ciúme dos pretendentes espíritos, para que fui ao brejo? mas eu estava com tanta fome… bordar bordar… tem espinho de planta, tem algodoeiro, tem flor de algodoeiro, um para ali, um para acolá, cada um de um lado, assim, puxa, acocha o ponto, todo tipo de bordado kreõ kreõ kreõ kreõ… o que mais? tem as borboletas deitadas de asas abertas, assim, aqui asa de borboleta, aquele bordado ali é borboleta deitada… titiri titiri titiri titiri we… hutu, hutu, hutu, hutu… Xumani há de voltar, ele sempre voltou, sempre foi e sempre voltou, mas desta vez está demorando tanto, e se as almas o mataram? kreõ kreõ kreõ kreõ… bre bre bre bre… tudo são as almas, elas mandam em tudo, fazem tudo o que acontece, as almas mandam em nós, mandam em tudo as almas.
(continue lendo)

7 Comentários

  1. dalvo disse:

    Gosto muito dos livros de Ana Miranda, mas essa entrevista está muito ruim. O entrevistador não soube conduzir a conversa, Ana tem tanto a nos dizer…

  2. Ana Maria Haddad Baptista disse:

    Ana Miranda,

    Conheço quase todas as suas obras. Boca do Inferno, à época, foi a medida exata para os cursos que lecionei em diversas universidades. No entanto, Semíramis me deixou muito mais apaixonada pela sua literatura. Um romance-poema tal qual Iracema! Adorei! De alma! Aceite o meu carinho e a minha admiração, em todos os sentidos, por você!

    Ana Haddad

  3. Maurício disse:

    Ana Miranda, Mulher com “M” maiúsculo; lindo tom morenito de pele; escritora e escritura deliciosas…

  4. ernani vilela disse:

    Lí Boca do Inferno logo que saiu, agora vi fotos. Ana Miranda é = talento, beleza e coragem existencial…Entre minhas lembranças perdidas ela é uma das mais belas…Sou seu saudoso fã neste momento… 2016 mil sorrisos,grande abraço, Ernani Vilela (amigo do finado Brunão que o mundo maltratou por sua bondade extrema).

  5. Diana (admin) disse:

    Na verdade o original está com o editor, não está no prelo não. Já mudei isso no post :)

  6. Marco Severo disse:

    “Semíramis” é dito que está no prelo, mas não está na página de futuros lançamentos… Que outros segredos você está escondendo, Diana? : )

    No mais, um romance novo de Ana Miranda é sempre bem-vindo!

Deixe seu comentário...





*