Junky

Por Tony Bellotto


Junk: na gíria dos usuários, droga pesada (morfina, heroína).
Junky: dependente de drogas pesadas.

Acabo de reler Junky, de William Burroughs, na tradução de Reinaldo Moraes para a coleção Má Companhia. Reler não é a palavra certa, pois a leitura anterior foi de uma versão antiga e incompleta, ainda com cortes dos editores da primeira publicação norte-americana, de 1953, e que permaneceu como versão oficial por décadas. A publicação recente é a edição definitiva, com texto original recuperado e introdução reveladora de Allen Ginsberg. Isso explica que eu tenha experimentado só agora a sensação de ler o livro pela primeira vez. Ou então foi a tradução primorosa do Reinaldo que me deu essa impressão.

Junky é fabuloso por vários motivos. O primeiro, a narrativa amoral e distanciada do narrador, um certo Bill (?), nascido de boa família do Centro Oeste americano, que nos informa — com secura literária de deixar Hemingway com cara de mocinha — de sua condição, um junky no final dos anos 1940 e início dos 1950 nos Estados Unidos e no México (para onde Bill foge atrás de junk quando a barra pesa com a justiça americana). Contribuem para a força do texto a ironia agulheada do autor e seu conhecimento prático de drogas químicas, ervas rituais, alucinógenos, barbitúricos e afins.

É sabido que Burroughs, além de grande escritor, foi notório consumidor de drogas e matou acidentalmente (?) a esposa com um tiro na cabeça durante uma bebedeira no México, o que talvez ajude a entender a intrigante — às vezes irritante — misoginia de Junky.

Mas o fato que mais me chamou a atenção na releitura do texto, paradoxalmente, não foi o aspecto literário, ou estético. O que surpreende no livro, e que censores e moralistas nos últimos sessenta anos nunca perceberam, é seu teor, talvez involuntário, antidrogas. Difícil alguém que não seja um dependente terminar a leitura de Junky seco por um pico (ou mesmo por uma cafungada). É claro que o texto transpira revolta contra ações policiais e criminalização de drogas e desperta simpatia pela ideia de que liberdade individual deve prevalecer sobre leis impostas por moralismo e interesses políticos. Mas as descrições cirúrgicas das agruras dos viciados quando privados da droga são de virar o estômago. Junky devia ser adotado em escolas (e tribunais e hospitais) como um livro esclarecedor sobre o uso de drogas pesadas (e de drogas leves também). Ou talvez, numa visão menos otimista, o livro simplesmente revela que não há tratamento para a miséria humana. Numa passagem, Bill admite que em certo estágio do vício, o único “barato” da droga é evitar o desespero da abstinência e a vida do junky se resume a garantir a próxima picada.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

9 Comentários

  1. Juliana Amado disse:

    Eu adoro ler, tenho lá minhas preferências, mas procuro ler de tudo um pouco. Fiquei me perguntando se eu conseguiria ler esse livro. Pela sua descrição, parece ser uma história forte, que mexeria com o meu coração e os meus nervos. Mas por outro lado, se trata de um universo tão diferente do meu, o que instiga a minha curiosidade, acho interessante conhecer outras realidades. Isso me ajuda a compreender o outro e a viver mais em harmonia com o mundo.
    Eu tinha 17 anos quando li O Abusado, de Caco Barcellos. Li até a metade e não aguentei. Parei por 2 semanas e retomei, indo até o final. E como valeu a pena! Até hoje guardo impressões dessa história.
    Valeu a dica, Tony. Quando cair na minha mão, tentarei não recusar.

  2. Antônio disse:

    Bellotto, saiu a entrevista que você me deu. Está no site da Rolling Stone, aqui: http://rollingstone.com.br/noticia/tony-bellotto-fala-sobre-imachu-picchui-seu-novo-livro/

  3. homem dicionario disse:

    O uso de drogas por parte de celebridades como astros do rock pode parecer muito interessante, mas deve se levar em conta que tais famosos normalmente teem condicoes de pagar uma excelente “rehab”,ou ate mesmo um otimo medico para ajuda-los a “equilibrar” o vicio, ja para o pre-adolescente que se deixa influenciar por seus idolos, esse caminho pode ser extremamente tortuoso, por isso , antes de fazer apologia `a droga o artista deveria pensar no resultado que isso pode trazer a seu publico.

  4. […] Tony Bellotto, no Blog da Companhia […]

  5. Paulo Cesar disse:

    Já na Travessa saite para adquirir a nova.
    Gratissimo.

  6. Rody Cáceres disse:

    Bem sacado, Tony! Ainda não li o livro, vou chegar lá. Mas adorei a capa verde.

  7. Diana (admin) disse:

    Oi, Paulo. Essa edição de 1984 é a incompleta, que sofreu cortes. Reinaldo Moraes traduziu agora o texto completo, que foi publicado pela Má Companhia: http://companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13320

  8. Paulo Cesar disse:

    “. A publicação recente é a edição definitiva, com texto original recuperado e introdução reveladora de Allen Ginsberg”

    Nesse paragrafo parei e fui conferir minha edição, tradução do Reinaldo Morais, a edição é de 1984, editora Brasiliense. Tem a introdução do Ginsberg. Essa é a recente ou reeditaram com mais alguma coisa?

  9. Lucas disse:

    outro livro tão bom quanto este é o ‘no fundo de um sonho’, a biografia de chet baker. ali dá pra perceber que a vida do trompetista era muito pouco voltada para a música e bastante concentrada em garantir a próxima dose de heroína.

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