Literatura cantada (ou A felicidade existe)

Por Luiz Schwarcz


Acho que já escrevi aqui sobre este assunto, mas se o fiz foi há tanto tempo que decidi correr o risco de me repetir e quem sabe agradar a um novo leitor, que saúdo com a história que abre este post.

Certa noite, há muito tempo, Lili, Marta Dora Grostein, Mario de Andrade e eu fomos ao show de Chico Buarque, no antigo Palace. Chico lançava na ocasião o longplay Francisco. Mário era na época o editor da Playboy brasileira. Homônimo do grande escritor, foi um grande amigo que perdi precocemente. No meio daquele espetáculo tão especial — os quatro, emocionados, sentindo o quanto aquelas canções representavam, em versão poética, décadas de nossa história —, Mário exclamou com seu entusiasmo tradicional:

— Luizinho, esse é o nosso poeta, o Manuel Bandeira de nossos dias. Você tem que editar um livro com as letras do Chico!

No dia seguinte, falando ao telefone com Rubem Fonseca, com quem na época eu conversava quase diariamente, contei do show, falei que Mário tinha tido uma ótima ideia, mas que eu não sabia como seria possível viabilizá-la. Rubem replicou:

— Luiz, eu sou co-sogro do Chico. O Zé Henrique está namorando a Silvinha, quer que eu marque uma conversa com ele?

Respondi que SIM, com ênfase equivalente a essas letras em caixa alta. Alguns dias depois eu voaria para o Rio, especialmente para ir, com Zé Rubem, até a casa do Chico, no alto da Gávea.

Enquanto esperava no terraço, apreciando a bela vista da floresta e da baía de Guanabara, eu temia o encontro que viria a ocorrer. Sentia um misto de vergonha e timidez que só aumentou ao descobrir o eco na timidez do Chico. Quando, após o tradicional cafezinho, balbuciei que gostaria de editar suas letras, contando como a ideia surgira por conta de um comentário efusivo do Mário, no meio do show, Chico fechou-se em silêncio .

Eu falava, olhando de vez em quando para a mesa, e no meu tom de voz meio grave, que a cada dia fica mais abafado e parecido com o do meu falecido pai. Chico rompeu o silêncio depois de um tempo, apenas para dizer que discordava totalmente do que Mário havia dito, que suas letras eram apenas letras, não as considerava poesia, de forma alguma. É curioso que esta é também a opinião de Caetano Veloso, de maneira ainda mais radical. Caetano diz que considera Chico um poeta, sim, mas que em seu próprio trabalho vê pouca originalidade. Embora a questão formal que separa as letras do gênero poético seja complexa, é fácil discordar da modéstia de nossos compositores.

Na reunião, no entanto, foi Rubem quem se ocupou de enfrentar o argumento de Chico Buarque, com quem se sentia totalmente à vontade, bradando com seu jeito expansivo:

— Nada disso, Chico. Não aceito! Você é poeta, sim. É poeta, caralho! Poeta, entendeu? E “Pedro pedreiro”, o que é?

E se pôs a recitar a letra, de cor, para desespero do Chico, e indiretamente meu também.

O encontro acabou com menos timidez de lado a lado, mas foi inconclusivo. Chico mudou o assunto para futebol, e depois de uma simpática conversa, na qual todos estavam mais à vontade, fomos embora. Passadas algumas semanas eu escrevi para o Chico, insistindo no assunto, mas terminei a carta dizendo que, caso ele não quisesse publicar nada conosco, eu me oferecia como goleiro do Polytheama, o time que ele ainda tem com alguns dos músicos que tocam com ele, seu produtor e empresário Vinicius França, e amigos. Disse com pouca modéstia futebolística que eu “catava bem e seria uma honra jogar umas peladas com ele”. A isca serviu e Chico respondeu logo. Como goleiro é sempre mão de obra rara, o compositor me convidou para encontrá-lo numa segunda, quinta ou sábado, para batermos uma bola — literalmente no campinho do Centro Recreativo Vinicius de Moraes, e depois, metaforicamente, para conversarmos sobre um possível livro de letras, em sua casa.

Assim nasceu o primeiro livro que publicamos de Chico Buarque, Letra e música , sobre o qual ainda terei várias histórias a contar no futuro.

Lembrei-me desta história, impactado, ao assistir Leonard Cohen, com a Lili, duas semanas atrás no Radio City Hall, em Nova York. Foi talvez o melhor show de rock que assisti na minha vida, ou talvez um dos melhores shows da minha vida e ponto final. Fiquei pensando na questão que abre este post, se as letras são poesia ou não. Os críticos literários em geral dizem que não, e talvez formalmente eles tenham razão. Mas não foi o que senti no show. Vi que, de certa forma, a literatura pode ser cantada, e recordei-me também do começo da minha vida de leitor.

Leonard Cohen entrou às 8h15 da noite e saiu do palco às 11h45. Eu controlei minha emoção algumas vezes, para não dar qualquer tipo de vexame. Recordei o que senti no show Francisco; ou quando vi João Gilberto cantar no Municipal; ou quando assisti Milagre dos peixes no mesmo teatro, com Milton Nascimento solfejando as músicas censuradas. Lembrei do show de Tom Jobim no Ibirapuera e de haver dito naquela ocasião, mesmo sendo agnóstico e talvez misturando idolatria com ironia: “Deus existe!”.

O que Leonard Cohen cantava — ajoelhando-se no palco reiteradamente, abraçando o microfone com as duas mãos em forma de concha, fechando os olhos, emocionado com suas próprias lembranças —, se não era poesia, era pura literatura cantada. A música de Cohen, em minha opinião, se parece com pequenos contos, mais do que com poesia, mesmo com o uso reiterado da rima.

Senti como gosto do que faço, como a literatura se tornou tão importante para mim — quem sabe através da música, que ocupou um lugar fundamental na minha vida antes mesmo dos livros. Será que virei editor por causa de Dylan e Cohen? Através dos Beatles, Caetano, Chico, Vinícius, Jobim ou mesmo Lou Reed? Não importa. Essa crônica é sobre Leonard Cohen, e não sobre quem a escreve. É sobre como suas músicas são importantes, como sendo tão tristes são também o caminho para a felicidade. Sobre como ele e seu grupo, quase todos usando o mesmo chapéu, tocaram com uma alegria indescritível, como ele ajoelhava e cantava para os músicos, como ele tirava o chapéu ouvindo um solo de bandolim, ou dos teclados, ou mesmo o solo vocal de uma cantora do pequeno coro que o acompanha. De joelhos, Leonard Cohen reverenciava a música tocada pelos músicos de sua banda, que por seu lado reverenciavam suas letras, sua literatura.

Assim — modificando um pouco o que eu havia dito sobre a música de Jobim, há tanto tempo atrás —, no fim do show de Leonard Cohen, após ouvir todas aquelas letras super melancólicas, abraçando a Lili eu disse: “A felicidade existe. A felicidade existe.”

[Leia, abaixo, duas letras de Leonard Cohen traduzidas por Caetano W. Galindo especialmente para o blog.]

Suzanne

Suzanne te leva para casa às margens do rio
Para ouvir os barcos vindo
E dormir ao lado dela
Você sabe que ela é doida
Mas é esse o teu motivo
E ela serve chá e laranjas
Que vieram lá da China
E bem quando você pensa
Que não tem amor por ela
Ela vem e te sintoniza
E o rio que te responda
Teu amor sempre foi dela
E você quer ir com ela
E quer ir sem enxergar
Sabe que ela confia em você
Pois você tocou com a mente o seu corpo perfeito.

E Jesus era marujo
Quando andava sobre as águas
E olhou por muito tempo
De sua torre de madeira
E quando soube, solitário,
Que só os náufragos o viam
Disse “Todos serão nautas
Até que o mar os liberte”
Mas ele mesmo estava exausto
Antes já de o céu se abrir
Abandonado, quase humano,
Afundou como pedra na tua sabedoria
E você quer ir com ele
E quer ir sem enxergar
Acha que talvez confie nele
Pois ele tocou com a mente o teu corpo perfeito.

Agora Suzanne te dá a mão
E te leva para o rio
Veste trapos, traja plumas
Do Exército da Salvação
E o sol recobre como mel
Nossa senhora do porto
Que te mostra onde olhar
Entre o lixo e entre as flores
Há heróis em meio às algas
Há crianças na manhã
Eles pendem para o amor
Vão pender assim para sempre
Enquanto ela estende o espelho
E você quer ir com ela
E quer ir sem enxergar
Sabe que confia nela
Pois ela tocou com a mente o teu corpo perfeito.

Escuridão

Eu peguei a escuridão
Que bebia em tua taça
Eu peguei a escuridão
Bebendo em tua taça
Pergunto “Bebo? Contagia?”
“Beba: simplesmente faça.”

Meus dias são poucos
Eu sei que não tenho futuro
Só me restam tarefas
O presente é um tanto duro
Achei que o passado ficava
Mas também caiu no escuro

Eu devia ter previsto
Estava na tua expressão
Mas eu tinha que arriscar
Você era jovem e era verão
Ganhar você foi fácil
Mas custou a escuridão.

Eu não fumo mais cigarros
Nem beber eu bebo mais
Não tive tanto amor
Mas você sempre foi capaz.
E eu até nem sinto falta,
Nada mais me satisfaz

Eu gostava do arco-íris
Adorava poder ver
Outro dia bem cedinho
E fingir que era você.
Mas peguei a escuridão
E foi pior do que em você.

Eu peguei a escuridão
Que bebia em tua taça
Eu peguei a escuridão
Bebendo em tua taça
Pergunto “Bebo? Contagia?”
“Beba: simplesmente faça.”

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

24 Comentários

  1. André Marx disse:

    Ah, e a propósito, uma com as do Dylan também seria sensacional!
    Saiu uma no exterior ano passado:

    http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2014/10/09/todas-as-letras-de-bob-dylan-num-livro-que-pesa-mais-de-seis-quilos-e-custa-cinco-mil-dolares/

    Bem que a Companhia podia “quebrar” essa pra gente!hehe

    Abraço!

  2. André Marx disse:

    Belo texto! Por que vocês não publicam uma compilação com as letras (e talvez os poemas tbm) do Leonard Cohen? Nos moldes do que fizeram com as do Lou Reed, no “Atravessar o fogo”. Seria fantástico!

  3. Josue P. J. de Freitas disse:

    Não tive como não lembra do “Deus existe!” do Luiz Schwarcz ao escutar isto: http://www.youtube.com/watch?v=4xA9pfaGGXg

  4. Mario Teixeira disse:

    Por que não fazer um livro com as letras do Leonard Cohen? Deve ser mais fácil tratar com os representantes dele do que com o Chico em pessoa. E, por favor, é necessário reeditar: Evelyn Waugh, Bernard Malamud e Emannuel Bove. Muito triste e decepcionante esses autores no rol dos “esgotados”.

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