Machado de Assis, o cronista

Por John Gledson

Entrei no mundo de Machado de Assis há mais de trinta anos, e nunca me cansei de explorar seus lugares escondidos. Habituei-me a buscar um Machado diferente, nas obras ditas “menores”, sobretudo nos contos e nas crônicas. Comprava nos sebos do Rio de Janeiro os volumes destas obras meio esquecidas, muitos deles editados por Raymundo Magalhães Júnior. Um destes, com o estranho título Diálogos e reflexões de um relojoeiro, me atraiu. Continha uma série de crônicas, “Bons Dias!”, escritas em 1888 e 1889, às vezes difíceis de entender para quem não conhecia os meandros do processo que levou à Abolição, em 13 de maio de 1888, e, no ano seguinte, à República.

Eram fascinantes, e perigosas: tanto assim que saíram anônimas, assinadas só “Boas Noites”. Machado estava acostumado a usar pseudônimos mais ou menos transparentes, mas só se veio a saber que esta série era dele na década de 1950. Saltavam aos olhos a graça ferina, a visão nada convencional do processo da abolição, o ceticismo profundo que informava estas crônicas. Quanto havia mudado no 13 de maio? Poucos dias depois da abolição, a crônica apresenta ao leitor o (recém) ex-escravo Pancrácio, e seu generoso ex-dono, que o libertou uma semana antes da aprovação da lei, e nos conta o teatro que encenaram no dia mesmo da libertação. Desde então, diz o ex-dono, pouca coisa mudou: “daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo”. Porque, enfim, como diz: “Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos”!

Havia um só jeito de entender bem estas crônicas: lê-las no seu contexto original. Crônica é criatura de jornal, e já me habituara a deliciar-me com elas “na porta do forno”, por assim dizer, no dia em que saíam – as de Drummond, de Clarice e outros –, nos jornais das minhas primeiras viagens ao Brasil, dos anos 70 e 80.

Em 1987 fui convidado a fazer uma edição de “Bons Dias!” e entrei mais a fundo no mundo dos jornais de um século atrás: sobretudo na Gazeta de Notícias, onde foram publicadas estas crônicas. Não foi um jornal qualquer. Criou uma revolução democrática na imprensa brasileira quando saiu primeiro, em 1875. O nascimento da Gazeta acompanhou o começo de um mundo diferente, um mundo, de fato, reconhecivelmente “nosso”. No espaço de vinte ou trinta anos, vieram o telégrafo, o bonde, o telefone, a bicicleta, os raios-x… O jornal e seus jornalistas e escritores (Eça de Queiroz, entre eles) acompanhavam estes “progressos” no mundo cada vez mais complexo e conturbado do “fim de século”.

A nova antologia de crônicas que acabei de selecionar para a Penguin-Companhia (disponível a partir do dia 24 de abril) pretende mostrar a verve deste “outro” Machado, que será uma novidade para quem só conhece os romances e os contos. Incluí uma boa seleção de “Bons Dias!” e alguns textos anteriores a eles, mas, sobretudo, escolhi mais de trinta crônicas de “A Semana”, a última série que publicou, entre 1892 e 1897.

“ A Semana” é de longe a série maior, a mais ambiciosa, a mais próxima ao nosso mundo, e dela vêm praticamente todas as crônicas mais célebres: “O sermão do diabo”, “Conversa de burros”, “O punhal de Martinha”, “O autor de si mesmo” etc. Todo mundo sabia que estas crônicas eram dele – só ele para escrever com aquela graça, muitas vezes com um gostinho amargo. Não assinou, mas agora não era para esconder sua identidade. Pelo contrário, em alguns momentos fala de si mesmo, seja para queixar-se de suas enxaquecas, ou para lembrar a primeira vez que viu sua futura mulher, em 1868, no Cassino Fluminense, ou as suas conversas sobre literatura com José de Alencar na livraria Garnier, ou um encontro com um burro semi-morto na Praça Quinze. A variedade dos assuntos é quase sem limite, tratados sempre com a ironia, o inesperado que fazia com que os leitores esperassem, a cada domingo, a elegância descontraída destas obrinhas de mestre.

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John Gledson nasceu em Beadnell, Northumberland, Inglaterra, em 1945. Doutor pela Universidade de Princeton, é professor aposentado de estudos brasileiros na Universidade de Liverpool. Publicou três livros sobre Machado de Assis no Brasil: Machado de Assis: Ficção e história, (Paz e Terra, 1986), Machado de Assis: Impostura e realismo (Companhia das Letras, 2005) e Por um novo Machado de Assis (Companhia das Letras, 2006).

2 Comentários

  1. Marco Severo disse:

    Sempre fui um grande leitor do Machado. Eu o lia naquela idade em que todos os meninos e meninas do sexto ano (!!!) fazem cara feia quando a professora coloca a gente pra ler “Conto de escola”. É de uma alegria sem tamanho ver que as editoras estão cada vez mais entusiasmadas em lançar e relançar obras do meu amado Machado. Meu eterno favorito.

    E, assim como Ramon de Córdova, fico feliz que a crônica esteja ganhando tanta afeição da parte da Companhia. As obras de Paulo Mendes Campos, o lançamento desses volumes lindos em aparência e conteúdo do queridíssimo Moacyr Scliar… Tem saído tanta coisa boa nessa seara que dá até uma alegria de viver.

    Falta, agora, vocês convidarem a ES-TU-PEN-DA VANESSA BARBARA para publicar um volume de crônicas, tanto as que ela escreve para esse site, como os inúmeros textos esparsos que ela tem, publicados em sites e revistas da mídia brasileira. Por que não? É hora de apostar nessa brilhante voz da jovem literatura brasileira. E a Vanessa é maravilhosa!

  2. Ramon de Córdova disse:

    Aguardando o dia 24 de abril como se fosse o dia do meu aniversário! Textos desconhecidos do grande público? De autoria do Machado??? A sensação é a de ter encontrado um grande baú de vinhos finos, caríssimos e impecavelmente preservados, agora prontos para serem sorvidos e deleitados!
    Que bom que a crônica vem consolidando mais e mais o seu espaço junto à editora. A propósito, os livros O Amor Acaba e O Mais Estranho dos Países ficaram uma belezura! Ávido por devorá-los!

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