O tempo

Por Érico Assis


xkcd, você de novo. Depois de “Click and Drag”, que já era coisa de gênio, o autor Randall Munroe está numa nova experiência que só é possível em quadrinho na internet. Chama-se “Time”.

Quem viu a tira no dia 25 de março só encontrou o casal de bonequinhos-palito sentado na areia e olhando para o nada. A cada meia hora a imagem sofria pequenas alterações: os personagens se ajeitando na areia; um deles caminha até a beirada direita e coloca o pé na água; descobrimos que é uma praia; ele volta e os dois resolvem construir um castelinho de areia.

Passados 28 dias — agora com atualizações de hora em hora —, o casal já construiu vários castelos. Montaram uma estrutura que parece uma palafita, sobre a qual fazem mais castelinhos. Também trouxeram uma catapulta, para brincar de destruir os castelos. Já tiveram alguns diálogos, principalmente sobre a maré. A água realmente está subindo pela borda direita. Nesta segunda-feira, 600 e tantas horas após a estreia do primeiro quadro, a imagem já foi atualizada mais de 800 vezes.

Pode ser uma reflexão sobre o tempo, sobre a transitoriedade da vida e dos castelos de areia. Quem sabe uma brincadeira com a máxima “time and tide wait for no man”. Em toda xkcd há um alt-text, aquela legenda que aparece quando o mouse fica em cima da imagem. A de “Time” diz “Wait for it” (“aguarde”).

O grande feito de “Time” é ter gerado entre os leitores de xkcd algo que lembra um jogo. Começou com a discussão nos fóruns, onde o pessoal foi entendendo a lógica das atualizações. Depois, programadores tentaram desvendar o código que atualizava a imagem para capturar as imagens seguintes — só para descobrir que Munroe já havia previsto os interesseiros e montou um sistema de atualizações indecifrável.

Leitores devotos criaram sites que gravam cada imagem e deixam os leitores ver a progressão, ou rabiscam o que muda de uma imagem para outra. Sobre o trecho da catapulta, há um jogo de verdade para testar o resultado de jogar pedras sobre os castelos de areia da HQ, com direito a variações na gravidade planetária e composição do material arremessado.

O Explain XKCD, a enciclopédia gerada pelos fãs da webcomic, já registra toda a discussão que “Time” gerou. A tira, porém, ganhou seu próprio wiki, o XKCD Time Wiki, onde construiu-se uma espécie de culto religioso (inclusive com oração). É neste wiki que há páginas dedicadas a teorias sobre o desenvolvimento de “Time” (a maré vai subir e consumir tudo? A HQ será infinita?) e sobre seu significado (desde referência ao 11 de setembro até especulações lúgubres sobre um aborto no casal Munroe).

Da outra vez que falei de xkcd, foi para dizer que, mais do que querer ser literatura, os quadrinhos deviam almejar um grande propósito da boa literatura: gerar discussão entre gente inteligente. Com essa carga de interpretações, reinterpretações, obras inspiradas e até uma enciclopédia, “Time” só reforça a ideia. E, como vivemos nos nossos tempos, isso tudo acontece em menos de um mês.

Além disso, “Time” desafia a própria definição do que é uma história em quadrinhos. Parece um quadrinho, mas também poderia ser uma animação muito demorada. Se formos pela definição do Scott McCloud de “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada”, “Time” fica devendo justamente na “justaposição”. A não ser que consideremos esta interação prolongada com os leitores — que voltam com frequência à página para ver as alterações — a tal da justaposição. Dá vontade de mudar a definição de quadrinhos só para incluir “Time”. xkcd mudou o paradigma.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

6 Comentários

  1. […] quadrinho favorito de 2013 foram os quase 4 mil frames de “Time”, da xkcd. Ou melhor, a discussão em torno de “Time”, seus significados ocultos, suas pistas […]

  2. […] Os fãs não se seguraram se já fizeram um site com a progressão pra quem perdeu o começo da coisa toda. Leia mais detalhes aqui. […]

  3. […] mais uma brincadeira fenomenal do Randal Munroe. O Érico escreveu sobre esse post do Xkcd na coluna dele no blog da Companhia das Letras. E ó, de qualquer forma, acho que continuarei acessando a página com a tira nos próximos dias. […]

  4. Apaixonante. O tipo da coisa que faz a gente se perguntar: “por que ninguém havia pensado nisso antes?”.

  5. Yusanã disse:

    estou chorando

  6. Tuca disse:

    é bom ter a certeza de que de duas em duas semanas minha cultura quadrinística aumenta,

    abraço, érico. um monte de links pra explorar dessa vez. valeu!

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