Algumas ideias acerca da minha literatura

Por Agustín Fernández Mallo (Tradução de Eduardo Brandão)

A informação é importante. Hoje, a quantidade de informação emitida pela mídia, bem como sua fragmentação, faz com que o tempo para assimilar essa informação tenda ao infinito. Durante séculos, as ciências e as humanidades estudaram as coisas separadamente, agora se trata é de enxergar as relações que há entre elas e, para tanto, nos valemos de modelos de rede. Ciências e humanidades são a mesma coisa. Acaso a ciência não é feita pelos humanos? E acaso nas humanidades também não há pesquisa científica? Os modelos de rede, os Sistemas Complexos, incluem tanto as ciências como as humanidades, misturam-nas, colocam-nas em diálogo.

Uma coisa que creio caracterizar minha narrativa — Nocilla dream, Nocila experience, Nocilla lab, El hacedor (de Borges) remake, etc. — e minha poesia é a transversalidade do contemporâneo. Isto é, meus romances e poemas formam uma rede horizontal em que tanto a literatura clássica quanto os quadrinhos, o cinema, a música pop, um teorema científico ou um spot publicitário entram no texto no mesmo nível, sem hierarquias externas. Mas esses ingredientes entram de maneira real, quer dizer, não como simples referências ou pinceladas, mas como nós ativos e constitutivos da obra. Por exemplo, se creio que dentro de um romance é pertinente uma conexão metafórica entre um determinado spot publicitário e uma peça de J.S. Bach, estabeleço essa conexão sem nenhum preconceito acadêmico. Guio-me somente por critérios estéticos, poéticos, não por preconceitos de alta/baixa cultura. Essa maneira de conectar as coisas dentro dos romances corresponde a um modelo de rede, modelo pelo qual se organiza hoje em dia a sociedade. São os Sistemas Complexos. Acreditávamos que só a entropia podia levar à morte térmica do Universo, mas hoje em dia se sabe que ela também é condição indispensável do oposto: para que surja vida em zonas de fronteira, em lugares em que vários componentes distantes entram em contato. E é isso que, espontaneamente, creio que faço com minha literatura: pôr em contato zonas aparentemente muito distantes (ciências, publicidade, literatura, economia, música etc.) para criar uma literatura complexa. Mas isso ocorre de maneira espontânea, não é pensado nem calculado de antemão, simplesmente é a maneira como minha cabeça organiza o mundo. Na verdade, meus romances são complexos mas não complicados, ou seja, não maltratam o leitor. Explico-me: é complexo, por exemplo, um organismo, que é simples depois que você entende; ou uma equação matemática. Ao contrário, são complicados objetos ou romances desnecessariamente arrevesados e cuja leitura atenta não resulta numa maior compreensão da obra. Disso — creia-me — há que fugir como do demônio.

Às vezes dizem que minha literatura, tanto no romance como na poesia, é experimental, mas, em minha opinião, é exatamente o contrário: é realista. O verdadeiramente experimental hoje em dia seria fazer romances à maneira do romance oitocentista, já que ninguém pensa nem vive nem fala, hoje, dessa maneira. Também é verdade que só procurando no passado se pode entender o presente para lançá-lo em direção ao futuro. Reconheço em minhas influências autores como Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Don DeLillo, David Foster Wallace, Giorgio Manganelli, Julio Cortázar e Juan Benet, entre muitos outros. Na literatura de todos eles percebo uma pesquisa poética do mundo ao mesmo tempo que um grande humor.

Quanto ao humor, poderíamos dizer que hoje em dia já descremos de qualquer discurso que não contenha uma paródia ou uma caricatura de si mesmo, porque faz tempo que não cremos em conceitos absolutos.

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Agustín Fernández Mallo nasceu em 1967 na Corunha, Espanha. Formado em física, publicou diversos livros de poesia, buscando estabelecer um diálogo entre arte e ciência e cunhando a expressão “Poesia pós-poética”. Nocilla Dream é sua primeira obra de ficção.