Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo

(919 páginas)

Regionalismos. Regiões. Koinés… (parte 2)

Mais perguntas que respostas, ok? Baseado numa certeza que, pelo menos para mim, certeza é. Qual?

Hmm…

Que o texto traduzido deve (malgrado a posição EUA-cêntrica [pasmem!] de teóricos como o Venuti etc…), aqui na nossa casa, parecer basicamente direto, imediado, em termos exclusivamente linguísticos.

É quimera? É quimera.

(É tradução afinal…)

Mas me pauta.

Agora, quando é que surgem os problemas incontornáveis mesmo?

Quando o texto se volta urobórico sobre o próprio texto. Quando a língua (fonte), naquela cansada metáfora do Jakobson, vira o centro do debate etc…

É isso que são os trocadilhos.

É isso que é qualquer referência ao próprio idioma (He didn’t speak any english, como a gente já comentou aqui). Coisas que impossibilitam aquele pacto quimérico que a gente vinha celebrando… estilhaçam a ilusão.

Os regionalismos são um desses grandes problemas. Dos maiores.

Porque e se num texto todo escrito numa língua medianamente uniforme um único personagem aparece falando ‘caipirês’? Como no caso dos ‘matutos’ do Faulkner, por exemplo?

O tradutor tem que marcar esse cabra. Claro. E tem que marcar com marcas, digamos, co-extensivas. Ou seja, usar um conjunto de características de um português sub-standard que provoque no nosso leitor um determinado efeito estilístico que gere a mesma (equivalente, ok) sensação de distanciamento/proximidade em relação àquele indivíduo.

O problema, no entanto, passa a ser como fazer isso (marcar um padrão sub-padrão) sem precisar recorrer ao que, na mão dos autores, é marca facilmente empregada: o toque regional delator.

Posso fazer um personagem do Faulkner, ou da Flannery O’Connor falar mineirês?

Ou piracicabês?

Se não (e eu acho que não), como marcar um português caipira de caipira nenhum?

Ou, mais frequente, como definir um português-brasileiro-oral-distenso reconhecido por uma parcela bacana do público bacana mas, de novo, não marcado demais como sendo deste ou daquele fulano.

Do rio? Daqui? De lá? Trans- ou Cis-Paranapanema?

Lembra que no texto passado a gente falava aqui que parte (e parte cabeluda) da ‘tarefa do tradutor’ de literatura em Pindorama 2013 é ajudar a criar um padrão sociolinguístico pan-brasileiro?

Pois bem. Saiba, leitora querida, que muitas vezes cabe também criar é um subpadrão!

* * * * *

Ilustração bríttica nº 1. Em Contra o dia, o brilhantíssimo romance de Thomas Pynchon, em um dado momento um personagem, americano, chega à Inglaterra e, lá, começa a ter pequenos problemas de incompreensão linguística. O grande Britto teve que botar os ingleses a falar lusitanês!

Ilustração bríttica nº 2. E quando esse distanciamento que o leitor sente em relação ao texto não é causado por afastamento geográfico, e nem decorrente de uma intenção do autor? Quando ele é fruto do envelhecimento?

Em Viagens de Gulliver, o grande-mestre-padroeiro da confraria dos tradutores literários decidiu, macho pacas, usar apenas português do século XVIII, com um puta efeito.

Será que a sensação que a leitura da tradução dele (finalmente a tradução definitiva de um texto definitivo) causa entre nós equivale ao motivo por que os americanos ainda adoram ler as traduções dos russos do XIX feitas pela Constance Garnett, quase contemporânea deles?

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

5 Comentários

  1. Carlos Alberto Bárbaro disse:

    Já leste “As guerras da tradução”, ensaio (perfil?) do David Remnick, em “Dentro da floresta” (Companhia das Letras, 2006. pp. 279-303)? A Garnett não fica nada bem na foto.

  2. Curioso que a questão dialetal surgiu também na entrevista do Sérgio Flaksman para a Globo News (isso na mesma semana)
    http://t.co/0YDo3G9rSr

  3. Lucas Kater disse:

    E aí eu (que [ainda] não li “Contra o dia”) me pergunto qual deve ter sido o tamanho da encrenca encarada pelo Britto, ao tomar a decisão mencionada na Ilustração nº 1, na hora de dar conta das referências aos idiomas (como no caso do “He didn’t speak any english”).

  4. Bruce Torres disse:

    Acompanhando seus posts sobre “Infinite Jest”, Galindo, e surpreso de ver um tradutor falando abertamente sobre a área e as complicações do dia-a-dia. É gostoso? É, mas também é muito trabalhoso. “Enfrentando/encarando” o DFW, então… E gostei de ler você citando o Britto – minha professora de morfossintaxe citou o exemplo do “Gulliver” semana passada durante uma palestra. É ao focar nessas sacadas que sabemos quão dedicado o tradutor está e em seu esforço para “trazer” o texto à tona na língua de chegada.

  5. Daniel Dago disse:

    Galindo, eu sou tradutor de holandês (conversei com você aqui em SP, lembra?) e queria fazer um pequeno adendo.

    Coisa parecida com a Constance Garnett acontece com o Alexander Teixeira de Mattos (1865-1921), um holandês radicado no Reino Unido e padrasto da sobrinha de Oscar Wilde. Alexander foi o maior divulgador da obra de Louis Couperus (1863-1923) – escritor gigantescamente importante, um Liev Tolstói holandês – em seu país, tendo traduzido dez livros e mantido relação epistolar e pessoal com o autor. Escritores do porte de D. H. Lawrence, Katherine Mansfield, John dos Passos, adoravam Couperus via Mattos.

    Apesar de nos últimos anos ter tido um revival de traduções inglesas de Couperus feitas por outras pessoas (E.U.A., mas especialmente na Inglaterra), as traduções do Mattos ainda são reeditadas justamente porque dão ao leitor de língua inglesa a mesma sensação de arcaísmo que o leitor holandês tem. Quando eu traduzi o Couperus, resolvi cotejar minha versão com a tradução dele, intitulada “Old people and the things that pass…”.

    Abraço

    PS: Sim, o Oscar Wilde também era fã do Louis Couperus, ambos chegaram a ter uma breve amizade epistolar.

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