Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo


(Páginas?)

Então…

Esses textos são escritos às vezes com certa antecedência. Pra facilitar o trabalho de organização da Diana, me digo eu. Mas na verdade pra caber na agenda e pra colmatar buracos de dias como este (13/05/13, 16h23), em que a boa e velha burrice dígito-encefálica, fria, oleosa e invencível, parece ter me derrubado desde cedo…

Por que dizer isso agora. Porque você vai ler este texto aqui dia 30 de maio. Nesse dia, se tudo tiver dado certo, eu devo ter terminado ou estar terminando a tradução. Depende, claro, de coisas que eu nem imagino, e de várias que eu já antevejo e tal… mas, se não estiver pronta, nas condições normais de temperatura e pressão deve estar pra estar. Pronta.

Então acabou, Caetano! Yay!

Nada.

Eis o que agora se assucede.

* * * * *

No que é uma explicação meio que de processo editorial (imagino que quem venha aqui curta essas coisas) e meio que dos meus métodos (que no entanto não destoam muito dos métodos dos colegas com quem já conversei e tal).

Essa tradução, que chegou até a página 981, na minha cabeça é meio que uma primeira etapa, trabalhosa, lenta e dolorosamente necessária. Uma etapa cujo objetivo é produzir um texto completo em português, que me permita agora trabalhar de verdade, naquilo que a gente convenciona chamar de revisão.

Essa revisão, pra mim, é feita idealmente sem maiores contatos com o original. (A primeira versão me possibilita justamente largar mão do original.) É nela que eu vou realmente me concentrar em empetecar o texto, afinar detalhes finos finais, acertar aquelas correspondências diagonais (termos repetidos, leitmotive, chaves espalhadas pelo texto [já falei disso aqui?]) que são às vezes centrais para os romances mais amarradinhos, uniformizar certas decisões (desde Mr. fulano vs. Sr. Fulano até tipo o nome de uma organização importante que eu posso ter traduzido de duas [três!] maneiras diferentes) e tal.

Quanto mais eu fui rigoroso na primeira passada, sem deixar grandes coisas em aberto (eu não costumo deixar de propor soluções na primeira versão), sem inventar distâncias demasiadas, mais eu posso, na segunda, me sentir à vontade para finalmente trabalhar sobre o texto como o texto final, em português, que eu quero entregar ao leitor (ao preparador/revisores/editor, na verdade).

É impossível ter a visão geral do livro na primeira passada, mesmo no caso de um livro que eu já li e reli, como esse. Traduzir é definitivamente a leitura mais funda de um livro e, na melhor das hipóteses, você só traduz um livro deste tamanho uma vez! Logo, aquela primeira passada de certa forma foi também uma primeira leitura.

Você traduz no fio dessa leitura. Acompanhando essa velocidade.

Eu, ainda, traduzo no ritmo das frestas da vida universitária. Passo uma semana sem mexer no trabalho etc. Ainda, neste caso, teve luto, e um período de quase três meses (!) de distância da tradução.

Agora não.

Agora seremos eu e o texto.

Numa leitura bem mais veloz (já está tudo digitado, afinal!), bem mais cursiva, bem mais abrangente, bem, mas BEM mais divertida e gostosa e, por que não, autoral.

Até aqui eu estava traduzindo Infinite Jest.

Agora é que eu vou começar a escrever Infinda Graça.

Como diria a Fabienne: l’aventure commence….

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 2° semestre de 2013. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

16 Comentários

  1. admin disse:

    Oi, Renato!
    O livro será lançado em novembro. ;)

  2. Renato disse:

    Alguma previsão para o lançamento?

  3. […] Franzen e acabei procurando a sinopse do “Infinite”, o que nunca faço. Soube que a Companhia das Letras estava trabalhando na tradução para um lançamento num futuro não muito di…, mas tenho tentado ler autores de língua inglesa no original, pra não […]

  4. Vitor disse:

    Infinite Jest já é tão clássico sendo Infinite Jest, que será que se ele se transformar em Infinda Graça, Infinita Piada, etc, ele será o mesmo Infinite Jest?

  5. Josué PJ de Freitas disse:

    Este título parece legal, mas pegando pela raiz de jest eu, humildemente, proporia Infinda Troça, pois ao que me parece jest nao a relação religiosa que graça remete.

    Espero que continue a postar durante eata nova etapa. Abraço.

  6. rogerio disse:

    Seus textos são muito bons, foi muito divertido acompanhar esses posts, já estou sentindo falta deles.
    Parabéns pela belíssima tradução. E não se importe com as críticas, o texto de Walace está acima de todas elas.
    Valeu muito!

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