Imagine um Big Brother inspirado em Proust e dirigido pelo Bergman

Por Sofia Mariutti

Karl Ove Knausgård chega ao Brasil no dia 02 de julho, para a FLIP, mas já estamos convivendo com o escritor há meses. A ficção autobiográfica — ou autoficção — tem dessas coisas, pode nos fazer pensar que conhecemos um autor pessoalmente antes de conhecê-lo. Que estamos na sala batendo um papo. Pode nos fazer esquecer que, mesmo autobiográfica, ainda é pura ficção. Foi assim quando li Origem, do Thomas Bernhard, é assim com Karl Ove: quando vejo já chamei o autor pelo primeiro nome.

Estou chegando ao fim do segundo romance da série Minha Luta, e isso me faz pensar que logo terei lido mil das 3 mil páginas que Knausgård dedicou a narrar sua própria vida. O mais estranho é que a cada dia me vejo mais envolvida nessa narrativa, como se estivesse lendo uma nova série de thrillers suecos, e não romances autobiográficos com trechos ensaísticos, longas digressões, reflexões sobre a morte e passagens ligeiramente desinteressantes, como costumam ser nossas vidas, afinal de contas. Pensei que esse deve ser o fascínio que alguns sentem diante de programas televisivos como Big Brother — o fascínio de ver a vida como ela é. Imagine então um Big Brother inspirado em Proust, dirigido pelo Bergman, comentado por Benjamin: eis a literatura de Knausgård.

Outro dia estiveram aqui alguns alunos do Ensino Médio que pensam em ser editores. A Vanessa perguntou: “Por que vocês se interessam por esse trabalho?” E um deles respondeu: “Porque eu adoro ler”. Fizemos questão de lembrá-los que o editor nem sempre lê o que mais quer; que devemos nos esforçar para fazer um bom trabalho também com os livros que não são de nossa predileção; que muitas vezes a leitura, atividade tão amada, pode se tornar exaustiva.

Conheço bem essa experiência, mas agora chegou a hora de destacar o momento inverso, o idílio, o que todos fantasiam que seja a vida do editor. O momento de ler aquele livro que te faz esquecer, por alguns minutos, que você está trabalhando, ou te faz se lembrar do amor que você tem pelo seu trabalho: assim é o Knausgård para mim. Quando penso “primeiro o dever e depois o prazer”, penso “primeiro o resto, depois Minha Luta”. Knausgård tornou-se a minha procrastinação, meu Big Brother particular. Os outros livros que me aguardem.

Para quem ainda não leu o trecho do primeiro romance, A morte do pai, disponibilizamos aqui um gostinho da série Minha Luta.

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

16 Comentários

  1. […] depois veio A morte do pai, do norueguês Knausgard, de quem já falei aqui no blog. O romance autobiográfico começa com um mergulho profundo em um corpo humano recém-destituído […]

  2. Moacir disse:

    Faço coro aqui. A tradução direta me estimula mais do que a leitura, a aquisição do produto, reconhecimento pelo trabalho de editores e tradutores que no caso de línguas digamos, mais incessíveis, imagino ser redobrada. Para citar um exemplo, Mario Vargas Llosa foi ao Roda Viva semana passada e disse que Guimarães Rosa não é reconhecido nos países de língua espanhola devido à tradução insatisfatória. Segundo ele, os franceses reconheceram o valor da obra e que a tradução bem feita foi essencial para alcançar esse resultado. Sem mencionar o fato de que hoje temos várias fontes na internet para especular acerca da qualidade da tradução, evitar adquirir traduções plagiadas, etc. Sofia, sobre a sua declaração, imagino como pode ser árduo e também prazeroso o trabalho de um editor e, não podendo mensurar sua dimensão, devo dizer apenas que valorizo muito o trabalho de vocês.

  3. Marco Severo disse:

    Fabio, esta eu posso responder, mesmo sem trabalhar na Companhia: na parte do post onde eles disponibilizam um trecho do livro, tem o começo da obra, como se fosse escaneada, por assim dizer, e lá tem: “tradução do norueguês – Leonardo Pinto Silva”; portanto, podemos ficar despreocupados (eu também me importo com isso, e muito). Parece que a Companhia finalmente resolveu não economizar nesse quesito, como fez, infelizmente, com a trilogia Millenium (que é traduzida do Francês) e com “O mundo de Sofia” – equívoco que só foi reparado mais de uma década e meia depois da sua primeira publicação no Brasil, numa edição que saiu recentemente traduzida a partir do original.

  4. Fabio disse:

    Meu medo quando leio sobre um autor em língua exótica (chamo de exóticas as línguas que não leio e para as quais dependo de edições traduzidas): foi vertido do original diretamente para o Português?

  5. sofia disse:

    muito obrigada, maria clara, fico tremendamente feliz!
    minha próxima leitura é o maurício lyrio (depois do big brother escandinavo)!

  6. Diana (admin) disse:

    A ideia é que mantenham essa regularidade, Luiz André, mas a programação dos próximos anos ainda não está fechada.

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