Minhas memórias sobre “Memória da pedra”

Por Mariana Mendes

Oh... my God ...!!!             ...........DSCF4995110507

Li Memória da pedra no carnaval, antes de ser publicado, por causa da Vanessa Ferrari, amiga e editora da Companhia. Ela estava com o primeiro romance do carioca Mauricio Lyrio impresso em word e veio me perguntar, na surdina, se eu não queria ler. Na verdade não foi tão na surdina assim. Em geral, tenho acesso aos livros da editora e acho que eles são muito bem compartilhados internamente por seus editores. Ela veio com charme e sedução, que é o modo preferido dos editores quando querem a minha opinião para pensar estratégias de divulgação do livro para o seu potencial leitor. Perguntei quem era o escritor, como o livro tinha chegado. Quis saber para estar em pé de igualdade de informações com ela, a editora. Quem trabalha no meio editorial sabe que às vezes informações prévias pesam, às vezes, não. A única certeza é que não existe ciência exata em se tratando de livros.

Sempre que na editora me pedem para ler algo, sei o que está em jogo. Em um primeiro momento, é a minha experiência de quinze anos trabalhando no departamento de educação e na divulgação dos livros entre professores. É claro que o meu olhar é para tentar extrair eventuais potencialidades da obra para este público. E ter acesso ao livro antes é o pulo do gato. Combinei com a Van que faria meus comentários na quarta-feira de cinzas. Ela me avisou que no dia seguinte o Mauricio estaria na editora.

Quando li, veio a paixão. Minha expectativa para o carnaval era alta, tinha a ambição de ler cinco livros. Não deu. Enquanto lia não parei de dizer, à minha volta, que estava impressionada, como eu estava gostando do romance, que não larguei até chegar ao fim. Sabe quando você termina um livro e precisa dar um tempo antes de pensar no próximo? É um misto de não ter disposição para mais nada com querer ficar revivendo a história. Li de domingo para segunda, com paradas necessárias para respirar e me situar, recobrar o fôlego. Com ritmo ágil, múltiplas tramas que se sustentam sem depender de explicações a todo o momento, personagens intensas.

O livro conta a história de Eduardo, professor de filosofia de universidade pública no Rio. Quando sai para dar aula fica observando no caminho uma turma de meninos pedindo dinheiro na rua. De digressão em digressão a respeito do seu passado, vai sendo levado a investigar se a morte de seu pai teria sido realmente acidental. O leitor é seduzido desde as primeiras páginas e a vontade é seguir em frente, de preferência correndo. Ao terminar, a sensação nebulosa de não saber se o que havia passado por mim era um filme, ou um livro. E as imagens do Rio de Janeiro como coadjuvante foram inspiradoras. Eu e o Luiz, aliás, elegemos uma preferida (leia o trecho abaixo). Na quarta-feira de cinzas a notícia de que eu tinha amado o livro se espalhou pela editora. Mentira, não foi assim tão rápido. Contei pra Van da minha empolgação com o livro e até me esqueci de dizer sobre a questão das adoções. “É um p… livro!”. Quando o Mauricio apareceu no dia seguinte conversamos um pouco. Pude dizer o quanto tinha gostado e que, com relação aos professores, era uma questão menor, o livro estaria aí para quem quisesse se aventurar.

* * * * *

Trecho que começa na página 80:

Ao longo da subida, Eduardo e Laura pararam algumas vezes para olhar para trás. Viam o automóvel desaparecer na distância, o ponto de luz da carrocinha como referência do começo. Era preciso adaptar o passo aos degraus curtos, um degrau por vez parecia pouco, dois, um pouco demais. A escada fora projetada para os corpos menores de um século anterior, para penitentes que se dobravam com os olhos na pedra. A meio caminho, chegaram a um platô, uma espécie de mirante, que se abria para um pátio, um pequeno coreto, outra igreja. Começavam a avistar a cidade, as luzes que se estendiam sem limites em direção ao norte e só se interrompiam à direita, com as águas da Baía de Guanabara. Retomaram a subida, aproximaram-se da senhora que avançava de joelhos, coberta de branco, com seus movimentos lentos e regulares. A vela na mão iluminava a pedra manchada de antigos círculos de cera. Na outra mão, carregava um terço. Tinha o contentamento dos que pagam e a fadiga nas linhas grossas do rosto. Cumprimentaram-na discretamente.

Flutuando no alto, iluminada nos contornos, nas linhas de portas e janelas, a igreja parecia um barco em romaria, desenhado por uma criança de bom humor. A fachada de trás, onde terminava a escada, tinha o aspecto de uma prefeitura de vilarejo, com sua simetria simples, de formas regulares. As pirâmides magras dos campanários da frente, que já se avistavam da escada, eram apêndices externos, uma ideia tardia. A lateral extensa, elegante com suas janelas e arcos, era baixa para a fachada principal, como um edifício de dimensões próprias, projetado por outro arquiteto, mais sóbrio. Romário e Gilberto esperavam sentados no último degrau da escadaria, com um ar de cobrança.

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

3 Comentários

  1. Saulo Dourado disse:

    Olá, Mariana, muito sincero o seu depoimento. Também estou impressionado com “Memória da Pedra” e tenho indicado para os mais próximos. Aos menos próximos dedico alguns argumentos nesta resenha que fiz para o Blog de Literatura do Portal iBahia:
    http://www.ibahia.com/a/blogs/literatura/2013/05/06/memoria-da-pedra-resenha/

    abraço

  2. Mariana alves disse:

    Muito bom o artigo, o livro é realmente genial. Como você, não consegui parar de ler e estou recomendando para todos os que conheço!

  3. renata abdo disse:

    mari, estou lendo o memória da pedra e, assim como você, estou amando e divulgando por aí, não quero parar de ler, mas ao mesmo tempo não quero que o livro acabe. me senti assim quando li diário da queda, do michel.

Deixe seu comentário...





*