No vestiário de “O último minuto” (ou De como nasce e a que vem um romance)

Por Marcelo Backes


(Uma preleção ensimesmada de Marcelo Backes)

O time do seminário São José de Cerro Largo, nos confins do Rio Grande do Sul, era bom, mas não porque eu era o treinador. João, o Vermelho, protagonista de O último minuto, é um velho treinador de futebol, mas não porque eu fui treinador. Descendente de russos, ele não conversa com um seminarista no romance porque eu fui seminarista, muito menos porque fui treinador, embora minha cidade natal seja colonizada por russos.

Quando o futebol mal existia, Bentinho, o Bento Santiago, também estudou no seminário São José, mas não porque queria ser padre. Eu também não queria ser padre, nem treinador, e João, o Vermelho, que é treinador, só conversa com um seminarista carioca porque eu nunca quis ser padre e sempre fui um tanto casmurro, além de conviver com os russos. Machado de Assis não teve tempo pra falar de futebol, nem deve ter pensado em ser padre e gostava mais dos alemães do que dos russos. Guimarães Rosa era do interior, não missioneiro, mas mineiro, e podia bem ter sido seminarista. Seu Riobaldo, que é um fausto brasileiro, mesmo assim seria um líder de jagunços no sertão e não jogaria futebol com seus camaradas como fizeram bósnios e sérvios, outros eslavos, ou turcos, desrespeitando padres e genocidas, num intervalo da guerra dos Bálcãs, segundo um romance em que um soldado conserta um gramofone.

Eu sempre quis entender as Capitus que passavam por mim, o mundo em seu viés mais difícil, descobrir as Deodorinas da vida antes de elas irem embora, brasileiras, sérvias e bósnias, e russas, depois confessar comigo mesmo na solidão, e não mandar como um deus nem como um general no destino de uns 60 seminaristas divididos entre a titularidade e a reserva dos três quadros da gloriosa equipe do seminário, que viajava de comunidade em comunidade pra enfrentar as agremiações locais, sempre na carroceria do caminhão cedido pelo prefeito.

Olha o galho, alguém gritava, e todos se abaixavam, praguejando ao constatar que o galho havia sido inventado pelo gaiato. Olha o galho, alguém gritava de novo, e todos voltavam a se abaixar, indignados outra vez com a mentira desavergonhadamente repetida. Quando alguém gritava olha o galho pela terceira vez, ninguém mais se abaixava, e uma unha-de-gato na beira da estrada arrancava metade da orelha do primeiro incrédulo da fila junto à borda balouçante e colorida da carroceria.

Piores são os espinhos de dentro!

João, o Vermelho, ex-treinador de futebol, confessa na cadeia, abrindo as cortinas de sua alma diante de um seminarista desconhecido na tentativa de compreender por que cometeu o crime terrível que o levou pra trás das grades. Ele não ama o filho, não perdoa o filho, o filho não tem talento, mas acaba escolhendo-o como titular por culpa, uma culpa ancestral, deixando um centroavante talentoso na reserva, antes mesmo de saber que este, rival do filho, também destruiu a vida dele, do pai, numa rivalidade ainda mais íntima.

O seminarista, que de sua parte não consegue amar o próprio pai, apenas ouve, apesar de também ter suas perdas, enquanto vai se aproximando cada vez mais do estranho homem à sua frente, que conta e conta e não para de contar. O treinador só aceita conversar com o seminarista porque precisa falar, falar pra entender, e não quer falar com as paredes. O seminarista só encontra o treinador porque o treinador não se converteu, como os outros presos, às igrejas neo-evangélicas, porque é o único que ainda não diz dos nadas da vida, foi jesus quem me deu. E assim um pai vai encontrando um filho, um filho vai encontrando um pai.

Na decisão do campeonato, o treinador se mostra justo pela primeira vez, e conta ao seminarista que escolheu o centroavante talentoso em lugar do filho, pra logo em seguida, depois de constatar que sua mudança foi um sucesso, fazer o sangue rolar com suas próprias mãos. Um pobre palhaço, preso entre a barbárie de onde veio e a civilização onde está – qual será a pior – se revolta de repente, ao perceber que o futebol, que tomara o lugar de sua vida, também só lhe trouxe desgraças e desilusões. Durante o périplo da fuga, o treinador conta ao seminarista como desvendou o Brasil e suas mudanças mais recentes, mostrando que o futebol funciona como a metáfora mais perfeita da vida e ajuda a compreender o mundo inclusive em suas manifestações mais complexas e contemporâneas.

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Marcelo Backes é escritor e tradutor brasileiro nascido em Campina das Missões (RS), em 1973. Em sua obra, destacam-se os romances maisquememória (2007) e Três traidores e uns outros (2010). Doutor em germanística e romanística pela Universidade de Friburgo, Backes verteu ao português obras de Arthur Schnitzler, Franz Kafka, Hermann Broch e outros.

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Sinopse: Em romance denso e cheiro de lirismo, Marcelo Backes conta a história de um ex-treinador de futebol que, dentro de sua prisão, relata sua história de vida a um missionário enquanto busca sentido para o crime que cometeu.
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Eventos de lançamento:

  • Rio de Janeiro: Quinta-feira, 23 de maio, às 19h30 – Livraria da Travessa – Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290
  • Porto Alegre: Quinta-feira, 6 de junho – StudioClio – Instituto de Arte & Humanismo – Rua José do Patrocínio, 698
  • São Paulo: Sexta-feira, 21 de junho – Casa do Saber – R. Dr. Mário Ferraz, 414 – Vagas limitadas. Inscrições gratuitas pelo telefone (11) 3707-8900

14 Comentários

  1. […] com Marcelo Backes Sexta-feira, 21 de junho, às 20h Marcelo Backes, professor da Casa do Saber, dá aula aberta com o tema “Cervantes, Dostoiévski, Nabokov e […]

  2. Sou de Santa Cruz do Sul, Marcelo.

  3. Marcelo Backes disse:

    Caro Cassionei!
    Muito obrigado pelo elogio!
    Espero que possamos nos conhecer enfim no lançamento em Porto Alegre (acho que és de Porto Alegre, não?), dia 6, quinta que vem, 19h30min, no StudioClio.
    Ainda mando um convite amanhã ou depois.
    Grande abraço
    Marcelo

  4. Olá, Marcelo!
    Sem dúvida, autorizo a transferência de tal informação ao prezado autor.
    Aguardo o convite, entonces.
    Um abraço!

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